Terça-feira, Outubro 25, 2005
UM DIA DE RAIVA:Título:
Falling DownRealizador: Joel Schumacher
Ano: 1993

Quem nunca esteve preso no trânsito que levante a mão. Quem nunca esteve tanto tempo preso num engarrafemento em que um minuto começou a parecer uma hora que atire a primeira pedra.
Com efeito, já todos nós passamos por isso, essa que é uma das mais estressantes experiências que o ser humano pode ser submetido. Todos nós já tivemos, nem que seja por uma vez sequer, presos no trânsito por tanto tempo que desejámos que o nosso carro tivesse um pára-choques navio-quebra-gelo-soviético para abrir caminho por entre os outros automóveis.
William Foster (Michael Douglas) teve um dia assim, um dia em que bateu no fundo e que não aguentou. É que não era só o engarrafamento; era o emprego que tinha perdido recentemente, era o casamento que culminara em divórcio, era um buraco na sola do sapato, era tudo isto e mais ainda, era a sociedade que conspirava contra si. Até que não aguentou mais e explodiu. Porque tal como já dizia o grande pensador Bob Dylan,
quando não tens nada, não tens nada a perder.
Um Dia De Raiva é como a própria tradução indica um filme de descompressão total. Mas é também uma interessante alegoria de
A Divina Comédia, o clássico de Dante - um Homem que apenas quer chegar aos braços da mulher que ama apenas uma vez mais, mas que para isso terá de atravessar os círculos do inferno, ou seja, o inferno da cidade - e não falo apenas das zonas suburbanas, dos guetos e das favelas da América que escondem dos turistas; falo também dos condomínios fechados, que são guetos à sua maneira, dos campos de golfe e dos bairros de elite e dos tarados e dos pervertidos que enchem a sociedade norte-amerciana. E essa caminhada é uma jornada predestinada, em que William Foster apenas segue os desígnios divinos que se encarregam de o proteger, quando por exemplo desviam uma rajada de balas de uma gangue local.
Um Dia De Raiva é também uma acutilante crítica social de Joel Schumacher, que nos apresenta um homem que apenas quer seguir as leis da sociedade actual e que, defendendo os seus direitos e interesses, chega ao fim do dia conspurcado pelo pecado, transformando-se ele próprio num pecador, transoformando-se também num pouco da escória que é a sociedade urbana actual.
Mas quem brilha no filme é Robert Duvall, no papel do detective Martin Prendergast, que paralelamente à história, vive o seu último dia na polícia antes da reforma, que o levará para um paraíso recôndito, que afinal será nada mais nada menos do que uma prisão para o seu espírito jovem. Conseguirá percebe-lo antes que seja tarde demais?
Então porque é
Um Dia De Raiva apenas um Double Cheeseburguer? Não só pelo final traiçoeiro, nem tão pouco pelas situações forçadas, como quando parece que é William Foster que procura os sarilhos e não os sarilhos que vão ao seu encontro; é devido ao facto de
Um Dia De Raiva ser um filme cheio de potencialidades e Joel Schumacher não as ter aproveitado, optando antes pela via mais fácil.
Posted by: dermot @
8:10 AM
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