Domingo, Outubro 23, 2005
A DAMA DE HONOR:Título:
La Demoiselle D'HonneurRealizador: Claude Chabrol
Ano: 2004

Claude Chabrol e Ruth Rendell podiam ser a mesma pessoa. Ambos usam como tema central recorrente das suas obras a exploração das mentes distorcidas e do lado mais violento e perturbador do ser humano. Por isso nao é de admirar que, desde que decobriu a obra da escritora inglesa, Claude Chabrol tenha vindo a aproveitar os seus romances para os adaptar ao cinema.
Sophie Tardieu (Solène Bouton) vai-se casar e deixar a casa onde vivia com a mãe, a irmã mais nova e o irmão mais velho, Philippe, que sendo o único homem da casa, acaba por preencher um pouco a figura de pai, tanto como sustento como educador. Durante o casamento da irmã, Philippe conhece Senta (Laura Smet), uma das damas de honor e termina logo esse dia debaixo dos lençóis da sua cama.
Assim sucintamente, a sinopse pode parecer que
A Dama De Honor é um filme neo-realista francês do novo século, uma crónica de costumes. Até o poderia ser, mas o facto de Philippe viver obcecado por um busto feminino de pedra ou o facto de Senta viver sozinha na cave de um edifício enorme do qual é dona, dão a entender que algo de sinistro se passa. Isso e o facto de Claude Chabrol estar por detrás das câmaras.
Com efeito, Senta é uma figura bizarra, uma mulher com estranhos pensamentos e que facilmente entra pelo campo das mentiras. Mas o que seria de esperar de uma rapariga que na adolescência passou dois anos a fumar haxixe em Marrocos e outro ano em Nova Iorque, trabalhando como dançarina nocturna? Ou será que também isso seria mentira?
Todos nós sabemos o que uma mulher pode fazer a um homem e uma mulher assim não pode fazer mais do que o desgraçar. E Philippe não é excepção. E mesmo que profissionalmente consiga ir dando conta do recado, fisica e psicologicamente é uma tarefa árdua, capaz de abater qualquer um. Mas o amor é uma coisa estranha e segue caminhos que a razão desconhece.
De facto, o
Hitchcock francês volta a abordar o mistério e o desvaneio sinistro da personalidade humana, com uma trama intensa e inquietante com o desmorenamento de uma célula familiar no centro. A intriga nunca é claustrofóbica, mas é sempre desenhada a rigor com o traço dos grandes mestres. Para isso, serve-se de uma cinematografia segura, de moldes clássicos e atenta aos pormenores, e uma banda-sonora consistente, fazendo recordar os policiais dos tempos áureos do preto-e-branco.
Mas quem faz o filme funcionar são os personagens, principalmente Philippe e Senta. Benoît Magimel é um actor exemplar e, depois de
A Pianista, volta a brilhar num filme com tanto de inquietante como de esquisito. E Laura Smet tem uma actuacção híbrida, algures entre a femme fatale e o exotismo das mulheres de muito longe, que escondem sempre algo de misterioso por detrás dos olhos azuis.
A Dama De Honor é um trabalho de mestre de Chabrol que condensa em cento e onze minutos a intensidade certa do romance de Ruth Rendell. Ainda que longe das suas obras-primas, é um filme que tem tanto de Chabrol, como de Rendell e como de Hitchcock (alguém mencionou
Psico?). E ainda tem o condão de despertar o interesse suficiente para ir correr comprar
The Bridesmaid, a estória original. Só isso era já motivo suficiente para um McRoyal Deluxe.
Posted by: dermot @
10:58 PM
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