Terça-feira, Outubro 25, 2005
AMOR DE VERÃO:Título:
My Summer Of LoveRealizador: Pawel Pawlikowski
Ano: 2004

Nos últimos ano tem-se cultivado o gosto pelo cinema indie, fabricando-se uma espécie de falso cinema independente, que o tornou acessível às massas, que assim parecem ficar mais satisfeitas ao não consumirem apenas blockbusters e filmes pré-fabricados. No entanto, se não se deixarem intimidar pelo título
Amor De Verão, irão deparar-se com uma bela surpresa, um filme back to basics em que o cinema independente volta a ser um cinema de autor livre feito por gente esquisita e maluca.
Mona (Nathalie Press) é uma rapariga do interior, que já descobriu o que a vida tem de pior à custa da própria pele, o que lhe conferiu uma certa dose de rebeldia. Tamsin (Emily Blunt) é a filha mimada de dois pais ricos concentrados mais nas carreiras profissionais e nos amantes do que na filha, que cultiva também uma certa dose de rebeldia. O que têm as duas em comum? Ambas vão passar o Verão juntas no meio de nenhures, num lugar perdido do Yorkshire inglês, combatendo o marasmo, o tédio e o aborrecimento com o tabaco, as drogas, o álcool e o sexo.
Filmado na sua totalidade em suporte digital, apenas com handycam e sem tripé,
Amor De Verão é um verdadeiro filme indie, com toda a libertinagem artística por parte do realizador que isso pode significar.
Pawel Pawlikowski aproveita habilmente as paisagens bucólicas do interior da Inglaterra, tal como os pintores expressionistas (olá Turner) o tinham feito no passado, para ilustrar esta aventura de verão, servindo-se ainda de uma banda-sonora genial e eclética (Caetano Veloso, Edith Piaf ou Goldfrapp) e de duas actrizes semi-debutantes que encantam (e não é só pelos atributos físicos).
Amor De Verão é uma espécie de versão feminina de
E A Tua Mãe Também, uma jornada adolescente com um prazo de duração marcado - o final do Verão. Até lá tudo conta; e no final não terá sido apenas mais um Verão, terá sido o Verão, o Verão de todas as descobertas, tristezas e revelações. Mona e Tamsin vão tornar-se amigas, irmãs, amantes e confidentes, vão fundir-se uma na outra, carnal e psicologicamente: Mona ocupa o lugar do namorado que a acabara de deixar (no final de relação mais seco e machista de sempre no cinema) com Tamsin e esta ocupa o lugar da irmã anoréxica falecida com Mona.
Amor De Verão constrói-se sobretudo com o desenvolvimento dos símbolos que Pawel Pawlikowski vai deixando ao longo do filme. Por exemplo, como quando Tamsin conhece Mona diz-lhe que "parece que é uma má influência para as pessoas"; ou quando Tamsin mitifica a biografia "maravilhosamente trágica" de Edith Piaf, como um prenúncio daquela aventura; ou ainda quando cita Nietzsche ou Freud para explicar certas atitudes comportamentais; ou quando o irmão de Mona, um novo-cristão, tenta reclamar o vale onde vivem em nome de Deus, para o livrar das sombras que o habitam (e já agora, menção para o exorcismo mais hilariante dos últimos tempos do cinema).
Amor De Verão é um filme sincero e artístico, um escape de bom cinema na cada vez mais formatada indústria cinematográfica. E como se não bastasse, ainda tem duas jovens belas e despidas em actos menos convencionais. Um McRoyal Deluxe por todas essas razões.
Posted by: dermot @
10:29 PM
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