Segunda-feira, Outubro 17, 2005
ALICE:Título:
AliceRealizador: Marco Martins
Ano: 2005

A obsessão sempre foi um interessante tema para a música (alguém mencionou
Every Breath You Take? ou
Anybody Seen My Baby?) e até para a literatura. Agora, é também o tema para
Alice, o filme sensação do cinema português de 2005.
Alice não vai salvar o cinema português nem muito menos fazer as pazes entre o grande público e a produção nacional; mas é sem dúvida uma grande obra, que vem provar que o cinema nacional não está moribundo.
Alice é a estreia auspiciosa de Marco Martins na realização, um filme sobre a obsessão louca de um pai (Nuno Lopes) pela filha, desaparecida há alguns meses.
Na tentativa desesperada de a recuperar, Mário (é esse o seu nome) espalha várias câmaras de filmar por Lisboa, na tentativa de captar uma imagem da filha, refém de uma série de rotinas que cria à sua volta, porque "se as quebrar, deixará de conseguir ver Alice".
A sua obsessão é levada ao limite da loucura, porque um homem que perde um filho deixa de ser um homem e passa a ser, simplesmente, um pai. E porque as "mães sofrem sempre mais", Luísa (Beatriz Batarda) é o espelho da loucura, afogando o desespero nos calmantes.
Alice é um filme português atípico. Marco Martins filma Lisboa como esta nunca tinha sido filmada; uma Lisboa amorfa, de Inverno, com chuva, nuvens carregadas e uma massa cinzenta impessoal que é a multidão no seu dia-a-dia quotidiano, com quem nos cruzamos diariamente. É uma Lisboa bem distante da Lisboa alva, que normalmente é um retrato mais turístico da capital. Percebe-se que Wim Wender, por exemplo, a veja como "a cidade branca" à distância; mas nós, que a frequentamos todos os dias, é assim que a vemos.
Quanto a Nuno Lopes é um bloco de dor, moldado com poucas palavras e um olhar exasperante, que carrega quase todo o filme às costas, provando que é um dos bons actores da nova geração, fugindo aos papéis humorísticos que nos tinha habituado. A outra metade do filme é carregada pela genial Beatriz Batarda, sem dúvida o rosto mais presente da nova geração de actores, que apesar de participar em apenas duas cenas, são os momentos mais perturbadores e emotivos do filme. Destaque ainda para o excelente rol de actores secundários: os sempre geniais Miguel Guilherme e Ivo Canelas, Ana Bustorff e José Wallenstein.
O carácter voyeur do filme e o trabalho de câmara de Marco Martins transformam
Alice num retrato intimista da perda de Mário, uma fotografia que por vezes sentimo-nos incomodados de invadir, como a imprensa sensacionalista o faz quando esses casos ainda estão frescos para depois se esmorecer quando o caso peca por novidades.
Alice é ainda feito de pequenos pormenores, simbolismos que o realizador vai pontuando ao longo do filme e que fazem toda a diferença. Assim como a banda-sonora de Bernardo Sasseti.
Depois de
Noite Escura ter surpreendido em 2004, eis
Alice a surpreender em 2005. E por dois anos seguidos, teremos um bom filme a tentar chegar aos Óscares. Para já, o McBacon já ninguém lhe tira.
E juro que reconheci uma pessoa naquelas imagens voyeuristas de Lisboa!
Posted by: dermot @
7:46 AM
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