Quarta-feira, Agosto 10, 2005
A SOMBRA DO CAÇADOR:Título:
The Night Of The HunterRealizador: Charles Laughton
Ano: 1955
Se já atingi a perfeição, porque hei-de continuar a tentar?Todos nós sabemos que Charles Laughton não realizou mais nenhum filme após
A Sombra Do Caçador por este ter sido mal recebido nas salas de cinema, mas bem que podia ter sido esta a verdadeira razão. Com efeito, Laughton almejou alcançar à primeira tentativa aquilo que muitos realizadores não conseguem numa vida inteira de trabalho e dedicação, algo só ao alcance dos predestinados.
A Sombra Do Caçador é um filme atípico, um film noir que não se limita ao género, ultrapassando as barreiras do suspense e desafiando novos limites do terror, numa obra singular com uma perspectiva poética fora do comum - um filme muito à frente da sua época.
Robert Mitchum é Harry Powell, um pastor que tem tatuado numa mão a palavra
ódio e na outra a palavra
amor, o temível díptico de Deus, demonstrando que, tal como Willy Wonka era mais do que um tarado que oferece chocolates, também aqui nem tudo o que parece é. Harry Powell é um "falso" pastor, com uma interpretação diferente das palavras do Senhor, defendendo uma religião em que convive com o roubo e o assassinato.
Por sua vez, Peter Graves é Ben Harper, um modesto trabalhador da classe baixa, condenado à morte por ter assassinado duas pessoas num assalto a um banco. Cansado de ver as crianças famintas e a pedir de porta em porta, Ben Harper tratou de providenciar um futuro melhor aos seus dois filhos, John (Billy Chapin) e Pearl (Sally Jane Bruce), escondendo o dinheiro que tinha roubado num esconderijo seguro, segredo que apenas partilhou com ambos os rebentos.
Os dois homens conheceram-se na prisão e até ao último fôlego de Ben Harper, Harry Powell tentou arrancar-lhe a confissão deonde tinha escondido o dinheiro. Harper levou o segredo consigo para cova, mas Powell não desistiu de encontrar o tesouro. E quando foi libertado, foi procurar as duas crianças.
Numa interpretação genial de Robert Mitchum, no papel de um demente assassino sobre o disfarce de um respeitável pastor (o lobo sob a pele de um cordeiro), Charles Laughton assinou uma fábula singular e poética.
Apesar do seu registo claustrofóbico e arrepiante,
A Sombra Do Caçador não anda longe do registo de fábula infantil, o que não é de estranhar quando o vemos eleito na lista dos filmes que deviam ser obrigatoriamente vistos por todas as crianças - Robert Mitchum é uma sombra ameaçadora na janela do quarto das crianças, um papão que anseia pelas crianças que se portam mal.
Charles Laughton enverda numa deambulação introspectiva, quando lança os jovens fugitivos numa fuga desesperada, numa espécie de road movie em que o alcatrão é substituído pelo curso de um rio, ilustrando essa viagem da mesma forma que Terrence Mallick filma a sua ideia de crescimento do carácter humano em
Noivos Sangrentos.
A Sombra Do Caçador é também uma espécie de etapa de amadurecimento das crianças, implícito nessa viagem, que termina numa casa de mulheres
que perderam o amor. Nesta fase, o filme assume um carácter assustador, de uma casa sitiada rondada pela sombra ameaçadora do "caçador", a cantar canções de embalar.
Com uma fotografia masgistral, cada plano do filme é inesquecível, em composições poéticas e de enorme significado simbólico. Além disso, a corrente só fica completa com uns elos musicais, algo que na altura não era habitual ver-se.
A Sombra Do Caçador foi um filme mal recebido pelo público na altura, mas facilmente se vê que foi uma obra que nasceu muito antes do seu tempo. Filme de culto automático, é um dos grandes marcos do cinema noir dos anos 50 e uma das portas de entrada para o cinema de suspense e terror dos anos seguintes. Um McRoyal Deluxe não é certamente uma rima muda para esta história mascarada de poema fabular.
Posted by: dermot @
6:26 PM
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