Segunda-feira, Agosto 15, 2005
O PROJECTO "DUELO"Em 2002, os realizadores japoneses Yukihiko Tsutsumi e Ryuhei Kitamura fizeram uma aposta: numa semana, ambos realizariam um filme com um conceito comum, que posteriormente levariam num périplo pelos festivais locais. O que recebesse melhores críticas seria considerado o vencedor.
O conceito do filme era bastante simples: duas pessoas, um local, um duelo, um vencedor. O primeiro assinou
2LDK; o segundo assinou
Aragami. O vencedor? Será desvendado no final.
2LDKTítulo:
2LDKRealizador: Yukihiko Tsutsumi
Ano: 2002

Colocadas sobre a mesa as regras do jogo, o realizador Yukihiko Tsutsumi partiu para o desafio. O conceito do filme consistia em colocar duas personagens em confronto num determinado local.
As personagens escolhidas foram duas jovens raparigas, Lana (Maho Nonami) e Nozomi (Eiko Koike); o espaço, o recente apartamento que ambas partilham.
Lana e Nozomi são duas jovens aspirantes a actriz, em busca do mesmo papel de heroína, no mesmo filme. Além destas coincidências dividem ainda o mesmo apartamento, bastante luxuoso diga-se de passagem, que até dá nome ao filme -
2LDK é a tradução japonesa de T4 (2 quartos, uma sala de estar [living room], uma sala de jantar [dinning room] e uma cozinha [kitchen]). E como se ainda não chegasse partilham ainda um sentimento comum entre ambas: um ódio de morte!
As mulheres são terríveis. São seres cínicos, sádicos e hipócritas e Yukihiko Tsutsumi sabia-o. E colocou dois destes seres em confronto.
Frente a frente, ambas escondem o seu desprezo pela outra por trás de uma máscara de cinismo, que o realizador faz cair de quando em vez ao revelar os seus pensamentos, como se de uma sequela de
Olha Quem Fala se tratasse.
Lana é uma materialista hipócrita que esconde o seu passado vergonhoso de assassinatos indirectos, traições e filmes pornográficos atrás das jóias caras, as roupas de marcas e os perfumes Channel; Nozomi é uma provinciana virgem, obcecada com a privacidade e com as críticas da sua mãe. Ambas detestam o jeito uma da outra; e se de início ainda o conseguem esconder, no final não se vão fazer rogadas para puxar da serra eléctrica ou do picador de gelo.
2LDK é um filme sádico e sem grandes presunções. Presta-se ao que se propõe, sem rodriguinhos e sem artifícios desnecessários.
O microcosmos criado pelo apartamento é minimalista e, consequentemente, claustrofóbico, o que coloca as personagens em confronto directo mesmo que estas não o queiram. Este sentimento é intensificado com o uso constante de grandes planos por parte do realizador, qual câmara cândida escondida. O filme é um crescendo de suspense, até rebentar num final de jactos de sangue, à boa maneira japonesa.
Duas mulheres, um apartamento onde apenas há a presença de um papagaio (os olhos de Deus, uma vez que o papagaio é considerado pelos peruanos como a encarnação de Deus) e deonde apenas uma das mulheres pode sair viva. Só esta frase é suficiente para justificar o McRoyal Deluxe.
ARAGAMITítulo:
AragamiRealizador: Ryuhei Kitamura
Ano: 2003

Apesar de o conceito ser o mesmo - duas pessoas, um local, um duelo até à morte - a abordagem que Ryuhei Kitamura fez ao projecto Duelo não podia ser mais diferente da de
2LDK. Em
Aragami as personagens são dois homens e até o espaço temporal é totalmente distinto - um pouco usual templo no antigo Japão feudal, o que implica logo à partida samurais.
Aragami começa então com a chegada de dois samurais gravemente feridos a um templo perdido numa montanha; dos dois lutadores, apenas um sobrevive (Takao Osawa), graças à boa vontade do sinistro e misterioso anfitrião (Masaya Kato). Este, enquanto se dedicam a um pequeno périplo por algumas bebidas do mundo - sake, vinho e vodka - explica-lhe que é Aragami, o deus da guerra, e que deseja morrer em duelo, cansado da vida aborrecida sem sonhos e cansado da irracionalidade do Mundo e da guerra. Como testemunha, uma mulher (Kanae Uotani), apenas uns olhos vigilantes a tomar conta de que o duelo tem mesmo lugar.
Tal como em 2LDK, também aqui são dispensados todos os caprichos desnecessários ao desenrolar da história do filme: sabemos que há uma guerra lá fora, mas não sabemos qual; sabemos que estamos num templo perdido numa montanha, mas não sabemos aonde... No entanto, enquanto que 2DLK era um filme directo ao assunto,
Aragami vai introduzindo novos dados no arumento, à medida que a missiva avança.
Aragami decorre enclausurado num templo japonês muito pouco habitual, como que decorado pelo irmão gémemo maligno de Tim Burton. E reflexo dessa arquitectura sinistra é o seu dono, o temível espadachim Aragami, cuja presença imponente naquele ambiente claustrofóbico faz lembrar Entrevista Com O Vampiro, quando Christian Slater é confrontado com a presença do vampiro.
Fiél ao misticismo oriental,
Aragami recorre ainda a vários simbolismos religiosos, num filme cujo principal trunfo é o estilo, criado a partir de uma banda-sonora moderna e com ritmo, de coreografias dignas de Yimou Zhang, da construção perfeita das personagens e de um apurado sentido de humor negro. Além disso, há ainda uma referência deliciosa a
Versus, o pouco comum filme de zombies japonês, realizado pelo próprio Kitamura.
Um samurai, um deus da guerra. Um templo esquisito perdido no Japão feudal. Um duelo até à morte. A sinopse não é muito diferente da de
2LDK, mas ambos são tão parecidos quanto a água e o azeite. Aliás, ambos só voltam a encontrar um ponto em comum quando chega a altura de atribuir uma nota final - McRoyal Deluxe.
O VEREDICTO:Tecnicamente, o resultado final seria um empate. No entanto, como num duelo não podem haver empates, tenho mesmo de escolher um vencedor.
Assim, apesar de
2LDK ser um filme mais fresco e moderno, desenhado a traços finos de ironia e hipocrisia,
Aragami acaba por ser o vencedor, por ser um filme mais arrojado e, principalmente, por ser um filme com estilo.
Posted by: dermot @
5:23 PM
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