Segunda-feira, Julho 04, 2005
ADRIANA:Título:
AdrianaRealizador: Margarida Gil
Ano: 2004

Constatação inicial:Adriana, o recente filme de Margarida Gil, foi o vencedor do Prémio Tóbis destinado ao melhor filme português, no Indie deste ano. O festival tem mantido uma aposta em destacar os espíritos inovadores e arrojados que despontam no cinema português, talvez com a intenção de agitar um pouco as águas cinematográficas nacionais, estagnadas num marasmo de há longos anos. Primeiro, foi
A Cara Que Mereces, um filme que dividiu, literalmente, a crítica - quem não se recorda dos cartazes promocionais, onde se degladiavam opiniões de alguns críticos da nossa praça, pendendo entre o "amor" e o "desamor" extremo - e agora foi
Adriana, que promete também provocar encantos e desencantos aos espectadores portugueses.
A mim desencantou-me.
Tão bizarro quanto o filme é a sinopse: numa Ilha nos Açores (ilha com letra maiúscula, porque no filme tudo é singular), a mãe de Adriana (Ana Moreira) morre durante o parto desta. O pai, o governante da Ilha, parte um espelho enquanto roga uma praga: não mais se fornicará na ilha. E como partir um espelho são sete anos de castigo, durante sete anos o castigo se manteve na ilha. E após esse período, os sete anos repetiram-se. Perante a diáspora dos mais jovens, o resignado déspota decide levantar a proibição e envia a sua filha para o continente, para esta constituir família por métodos naturais.
Numa época em que o cinema está cada vez mais formatado,
Adriana é um filme longe das convenções cinematográficas habituais, limitando o espectador ao gosto de ver e ouvir. A própria realizadora define-o como um road movie sensual e um retrato de Portugal, rural e urbano. Mas
Adriana é antes uma anti-fábula, uma fusão de
Alice No País DAs Maravilhas com
A Divina Comédia, em que a realizadora assina o contraste entre a candura (leia-se ruralidade) da Ilha e a perdição do continente; Adriana viaja para o
País Das Maravilhas, numa viagem que não é mais que uma descida aos infernos, mascarada de odisseia sexual.
Mas o grande problema do filme reside no argumento; num filme em que tudo tem grande carga simbólica, a falta de um argumento que segure as pontas faz o filme tombar, após alguns desequilíbrios, num trapézio sem rede. Como um todo, o resultado é claramente abaixo da média.
Margarida Gil diz que
Adriana é também uma amálgama de referências às suas influências cinematográficas, mas o paralelismo que mais facilmente elaboramos é com o cinema escorreito do seu ex-marido João César Monteiro; mas este tinha um atestado do Miguel Bombarda e um estatuto para certas convulsões mentais.
O Cheeseburger que
Adriana recebe não premeia só a audacidade da realizadora; premeia a belíssima fotografia dos Açores, a interpretação de Ana Moreira (e não apenas o facto de passar a maioria do filme sem soutien) e o jovem actor Wilson Maciel.
Constatação final:Adriana foi o único filme português presente no Indie deste ano.
Posted by: dermot @
11:01 PM
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