Domingo, Junho 05, 2005
21. FESTRÓIA:
CERIMÓNIA DE ENCERRAMENTO:Chegara ao fim a 21ª edição do Festróia. Foram oito dias interruptos de cinema, mais de cem filmes apresentados e mais de mil horas de película exibida. Agora, a noite era de festa e o público ansiava pela entrega dos prémios.
A Secção Oficial, a mais aguardada do festival, englobara doze filmes, todos com um alto nível qualitativo, o que adivinhava logo de início, uma árdua tarefa ao júri; além disso, eliminava à partida qualquer favorito à vitória.
E o vencedor foi
Sempre Se Pode Voar, de Bahman Ghobadi, acerca da guerra do Iraque, vista do Curdistão. O Royale With Cheese já lhe havia vaticinado um bom cenário para o filme no Festróia, algo que o júri oficial confirmou, atribuindo-lhe o Golfinho De Ouro (que se juntou ao Prémio SIGNIS), galardão que aumentou a lista de prémios já conquistados nos festivais de Berlim e San Sebastián.
Destaque também para duas personalidades: a primeira é um realizador já bem conhecido em Setúbal, Carlos Sorin, que arrecadou o Golfinho de Prata pelo melhor argumento, graças a
Bombom, que também venceu o prémio FIPRESCI; e a segunda foi a Shooting Star Dorka Gryllus, que viu a sua interpretação em
Dallas ser distinguida com o Golfinho de Prata para Melhor Actriz.
Para conferir a lista completa dos prémios, é só seguir
aqui.
A noite não terminaria, sem antes Mário Ventura, a face mais visível deste grande projecto, subir a palco para anunciar a próxima edição do festival, marcada para o início do próximo mês de Junho. E as luzes apagaram-se para mais uma ante-estreia nacional.
Ante-Estreia - A BALADA DE JACK AND ROSE:Título:
The Ballad Of Jack And RoseRealizador: Rebecca Miller
Ano: 2005
A Balada De Jack E Rose apresentava-se ao público com dois aliciantes extras que despertavam a curiosidade: o primeiro era o nome da realizador, Rebecca Miller, filha do mestre Arthur Miller, que se prestava aqui à sua prova de fogo depois de dois filmes discutíveis; e o segundo era a reabilitação do actor (e seu marido) Daniel Day-Lewis, nove anos depois do seu último papel (com excepção para a participação secundária em
Gangues De Nova Iorque).
O filme conta a história de Jack (Daniel Day-Lewis) e Rose (Camilla Belle) Slavin, pai e filha, dois activistas ambientais a viverem praticamente isolados, numa comuna abandonada numa ilha paradisíaca na costa norte-americana. No entanto, a saúde de Jack era cada vez mais débil, proporcional ao crescendo da sua veia ambientalista activa. Numa decisão algo arriscada, Jack decide convidar a sua namorada Kathleen (Catherine Keener) a ir viver consigo. Tal situação vai ser um choque para Rose, que não vai aceitar a invasão do seu espaço muito particular, por três alienígenas, uma vez que Kathleen se fizera acompanhar pelos seus dois filhos: Thaddius (Paul Dano) e Rodney (Ryan McDonald).
Em
A Balada De Jack E Rose tudo é belo: começando pela fotografia assombrosa e os cenários maravilhosos, passando pela banda-sonora folk de Bob Dylan e Eric Burdon e terminando na prestação brutal de Daniel Day-Lewis, regressado novamente ao papel de débil fisicamente, mas forte psicologicamente, depois de
O Meu Pé Esquerdo.
O filme é um ensaio sobre a degração pessoal e caótica do seu humano, muito à semelhança da obra de Lars Von Trier (o tremer de câmara parece assim não ser uma simples coincidência), mas um ensaio levado longe demais: se o distúrbio da personalidade humana é conseguida de forma perturbante, a sua prestação dramática queda-se pelo atabalhoamento.
Amor, incesto ou paixão? A tríade de emoções principais que percorrem o filme não é senão um simulacro para a resposta correcta: possessão.
A Balada De Jack E Rose é uma história choque de posse, um desejo de propriedade perturbador de um pai e uma filha, que Rebecca Miller ilustra perspicazmente com o fantástico tema I Put A Spell On You, nos momentos cruciais da trama.
Mas a míriade de objectivos da realizadora não se ficam por aqui e a sua mensagem ramifica-se por caminhos indistintos, que por vezes nos são completamente obscuros. E nem os nossos piores medos o explicam.
No entanto, o ponto negativo do filme é o seu final. Primeiro dá a sensação de que foi alterado por motivos de força maior (reação negativa do público num primeiro teste?); e depois porque quebra toda a força do filme e todo o seu conceito. Como que se a linha que viesse desenrolando durante o filme se partisse.
Fica assim no ar sensações como desilusão e frustração. Desilusão porque o filme tinha tudo para ser um must see. E frustração porque há ali tantas coisas que mereciam mais do que um McChicken. Até o próprio título o merecia.
Posted by: dermot @
11:51 PM
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