Segunda-feira, Maio 02, 2005
O CONDENADO:
Título:
The WoodsmanRealizador: Nicole Kassell
Ano: 2004

Dos fracos e oprimidos não reza a história; mas o cinema, não faz nenhuma distinção. Desde o início que o cinema sempre contou a história dos heróis, das lendas, dos artistas e dos notáveis, mas também dos vilões, dos assassinos, dos vulgares e dos condenáveis. Em
O Condenado a história reza acerca de um pedófilo que acaba de cumprir uma pena de doze anos de prisão.
Kevin Bacon volta a estar envolvido no tema difícil da pedofilia, mas ao contrário de
Sleepers – Sentimento De Revolta, aparece do lado de lá da barricada; ou seja, desta vez, Bacon é o próprio pedófilo.
Mas o que é um pedófilo? Um assassino sem escrúpulos que molesta criancinhas de todas as idades, sejam elas parentes, amigas ou simples desconhecidas? Ou uma vítima das suas próprias tendências, um doente que precisa de acompanhamento e de ajuda? Nicole Kassell não dá a resposta, mas aborda o tema sob o ponto de vista do pedófilo, na sua difícil tentativa de reinserção na sociedade, sujeito a repressão, censura e descriminação.
Se neste antro me dedicasse a resumir filmes inteiros a uma simples palavra,
O Condenado teria a simples tarefa de ser substituído por “contido”.
O Condenado é um filme contido em todos os aspectos: as lágrimas são sempre contidas, a fúria é sempre contida e até os momentos mais perturbadores são contidos. Quando Walter (Kevin Bacon) aborda uma miúda (Hannah Pilkes) no jardim, naquela que é a cena mais incomodativa do filme, a extrema contenção de recursos acaba por tirar toda a tensão da cena. No entanto, de quando em vez, Nicole Kassell aposta numa montagem original, que apesar de resultar na maioria das vezes, também falha descaradamente, nomeadamente nas cenas de autocarro.
A contribuir para toda esta contenção está Kevin Bacon, num underacting soberbo, que se não lhe valeu sequer a nomeação para o Óscar, pelo menos valeu-lhe por completo todo o próximo parágrafo.
Kevin Bacon é um actor de amores extremos: ou se adora ou se odeia. E sinceramente, não é muito difícil alinhar pela segunda. Não é tanto pelas suas faculdades representativas, mas pela sua expressão insonsa e malvada. Além disso, é um actor com um currículo demasiado extenso (quem nunca conferiu o chamado
oráculo Bacon), que o fazem alternar magníficos filmes (alguém mencionou
Mystic River,
Footlose ou
JFK?) com outros para esquecer (alguém mencionou
O Homem Invisível ou
Linha Mortal?).
Em
O Condenado, Bacon assina quiçá, o seu melhr papel até à data. Numa contenção representativa magistral, representa com os olhos, exprimindo toda a sua dor de inadaptado e a sua revolta interior.
Uma coisa é certa: o ódio que se pode ter ao actor norte-americano não pode provir nunca das suas capacidades enquanto actor.
Do resto do elenco, Kyra Sedgwick (sua esposa na vida real) acaba por ser o elo mais fraco, muito por culpa do guião, que a transforma numa amante quase por coveniência do que por necessidade.
Os próprios rappers (que assustadoramente, continuam a invadir Hollywood, às vezes com bons resultados, mas na maioria das vezes com maus), Eve e Mos Def, assinam agradáveis representações, nomeadamente o segundo, apesar da pouca credibilidade para polícia.
O Condenado é um bom filme, mas que é demasiado contido. A sua estratégia passava por aí, mas o argumento pedia cenas mais incomodativas e perturbadoras, explicitamente. E depois o final, em que ficamos até com a sensação que chega antes do filme acabar.
É a representação de Bacon que o faz chegar ao McChicken.
Posted by: dermot @
9:05 AM
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