Quarta-feira, Maio 18, 2005
HÁ LODO NO CAIS:Título:
On The WaterfrontRealizador: Elia Kazan
Ano: 1954

Foi após a encarnação de Don Corleone, que Marlon Brando perpetuou o seu estatuto de divindade do cinema, ao tocar os píncaros da representação. No entanto, já muito antes do sucesso de
Padrinho que Marlon Brando se tinha tornado num ícone da sétima arte, no mais fiél seguidor do método representativo Stanilawsky, carregando às costas uma das mais prolíferas fontes de inspiração para as gerações de actores vindouras.
O seu primeiro sucesso na grande tela foi às mãos de Elia Kazan, na adaptação da peça de teatro (que também interpretava)
Um Eléctrico Chamado Desejo. Mas foi em
Há Lodo No Cais, três anos depois, novamente às mãos do mesmo realizador (um dos nomes maiores do cinema clássico de Hollywood), que Brando atingiu o auge e o reconhecimento absoluto, com uma interpretação perfeita num dos maiores clássicos da sétima arte, recompensada com o Óscar para melhor actor desse ano.
Há Lodo No Cais pinta o retrato negro da corrupção, numa peligrafia da actividade social de um porto norte-americano. Aí, o sindicato presidido pelo mafioso John Friendly (Lee J. Cobb), faz-se valer da chantagem, do suborno e da violência, para fazer proliferar o seu negócio, em desfavor dos trabalhadores da estiva. Entre eles está o ex-boxeur e irmão de um dos braços direitos de John Friendly (Rod Steiger), Terry Malloy (Marlon Brando), um jovem ingénuo, mas de bom coração, protegido da máfia.
Terry Malloy vai ter de combater esse estigma e optar entre duas escolhas: a de delator da corrupção, mas também do seu irmão e amigos; ou a de
mudo e surdo, mantendo oprimidos os trabalhadores e a bela Edie Doyle (Eva Marie Saint).
Elia Kazan foi um dos grandes realizadores da época de ouro de Hollywood, em que os filmes entraram num processo de rodagem quase automático, qual linha de montagem. No entanto, fez sempre valer o seu cinema, num ponto de vista humanista, que fazia do seu ponto forte o realismo. Para além disso, teve ainda o privilégio de rodar com Brando e com James Dean, dois dos maiores prodígios da representação e símbolos de uma geração.
Depois de
Um Eléctrico Chamado Desejo e antes de
A Lesta Do Paraíso, o realizador turco dirigiu aquele que é, quiçá, o mais notável filme da sua década. O facto pode ter sido uma coincidência, mas não deixa de ser um sinal, de que foi o único filme não-musical que contou com a banda-sonora do magistral Leonard Bernstein.
Talvez a prever um futuro inassociavel à realidade da mafia, Marlon Brando é o dínamo neste thriller de moldes clássicos, sujo com o pior que há nos portos por esse mundo fora: o lodo (leia-se corrupção).
Kazan filma com mestria a realidade portuária e dá a liberdade suficiente a Brando para birlhar. No entanto, o actor norte-americano rouba para si todo o filme, numa prestação magnífica naquele seu jeito tão característico e que fez as delícias dos cinéfilos ao longo dos anos.
Se o cinema tivesse estacado na década de 60,
Há Lodo No Cais seria o seu exemplar mais perfeito; no entanto, acabou por ser vítima da evolução e da modernização do próprio cinema. Só assim se compreende o Le Big Mac final, uma vez que o próprio nome de Brando (e de Terry Malloy) se confunde com um Royale With Cheese.
Posted by: dermot @
5:47 PM
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