Terça-feira, Maio 10, 2005
CRÓNICA DOS BONS MALANDROS:Título:
Crónica Dos Bons MalandrosRealizador: Fernando Lopes
Ano: 1984

Nos anos 80, Portugal conseguiu apanhar o autocarro cultural que lhe tinha escapado na década anterior, um pouco à semelhança do que sempre aconteceu na sua história.
Vivia uma geração socialmente activa, obcecada com as novas possibilidades da liberdade recém-conquistada ao fascismo em 1974, aquando da revolução dos cravos, que lhes permitia um contacto com a cultura pop que estava tão em voga.
Não foi só altura do chamado rock potuguês, dos GNR, dos UHF ou dos Táxi; foi altura também do novo cinema português, que tal como a música, também se perfilava como salvador cultural.
O sucesso de um certo livro ligeiro que marcava a estreia do jornalista Mário Zambujal na literatura,
Crónica Dos Bons Malandros, serviu de pretexto para esta nova vaga. Fernando Lopes foi o escolhido para a adaptação e não se fez rogado, exteriorizando toda a sua liberdade criativa.
O resultado final, com o mesmo título do livro -
Crónica dos Bons Malandros - foi, quiçá, um dos melhores filmes ligeiro português das últimas décadas. Mas daí até à opinião positiva, ainda vai um bom pedaço.
Revisitava-se então os clássicos heist movies, com um bando bem português de assaltantes, a quadrilha de Renato, O Pacífico (João Perry); ao seu lado perfilavam-se uma série de novas estrelas do cinema nacional: Nicolau Breyner, Lia Gama, Duarte nuno e Maria do Céu Guerra. Estes preparavam-se para o seu golpe final, aquele que lhes preparava um resto de vida agradável, sem preoucpações financeiras, talvez num qualquer paraíso perdido no Pacífico. Um mafioso italiano havia encomendado o roubo da colecção Lalique, do museu da fundação Gulbenkian e Renato magicava um mirabuloso plano, que envolvia uma cadeira de rodas e abelhas.
O filme é uma amálgama de ideias originais numa tentativa de modernizar o cinema português. No entanto, Fernando Lopes cai no paradoxo de exagerar nos planos longamente arrastados e nos planos fixos de carácter introspectivo, que são umas das principais características do cinema tradicional nacional.
Bem-disposto e descomplexado,
Crónica Dos Bons Malandros é um excelente retrato de Portugal dos anos 80, dos penteados espampanantes, das roupas espalhafatosas, da Coca-Cola e dos cartazes a apelar ao voto a Eanes. Tentava-se fazer as coisas sem ser
à português, fazer as coisas à pequenino. Mas era um passo que se devia dar um de cada vez e não logo um longo salto.
Apesar de ser um heist movie,
Crónica Dos Bons Malandros vive das suas personagens e do retrato destas e só depois há o assalto. Mas nem Fernando Lopes é Quentin Tarantino, nem
Crónica dos Bons Malandros é
Cães Danados, e por isso, fazer um heist movie sem um assalto, é quase como dar facadas no próprio fígado por diversão.
Aqui, o assalto - catarse e essência do filme - é substituído por uma animação de tradição nórdica, das quais Vasco Granja fazia o favor de nos atormentar as tardes da nossa infância.
Crónica Dos Bons Malandros vinga assim pela contextualização socio-cultural que viveu e marcou; pelo retrato de época e pelo estilo do novo cinema português. Um divertido filme ligeiro, que se adequaria perfeitamente a um Dpuble Cheeseburger se na altura já se consumisse junk food; se procura no entanto, uma refeição mais saudável, é preferível ficar pelo livro de Mário Zambujal.
Posted by: dermot @
7:53 PM
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