Quarta-feira, Abril 27, 2005
TARNATION:
Título:
TarnationRealizador: Jonathan Cauoette
Ano: 2003
Tarnation não é um filme. Quer dizer, é e não é. Pelo menos, não é um filme comum.
Não é cinema na verdadeira acepção do termo, ou seja, não é um filme orientado para o espectador, alinhavado por um argumento e representado por actores; também não se encaixa bem dentro do cinema experimental, porque é um filme que está do lado de lá da linha invisível que traça o experimentalismo; mas também não chega ao patamar do cinema enquanto arte, como o era, por exemplo, o ciclo
Cremaster. É por isso uma experiência nova e original; e o seu visionamento nem se deve limitar à militância cinéfila.
Tal como o já tinha referido, aquando da crítica ao ciclo
Cremaster,
Tarnation também é um filme ao qual não consigo dar uma classificação no final. Por isso, o que vou fazer, é apenas opinar sobre a sua validade enquanto projecto.
O que é então
Tarnation? Primeiro que tudo é Jonathan Cauoette. E depois é a sua vida.
Habituado a filmar muita da sua vida ao longo das três décadas que leva, Jonathan Cauoette decidiu contar a sua história ao mundo, ao invés de a esconder num recôndito buraco longíquo, que era o que muita gente na mesma posição faria; e fê-lo sobre a forma de cinema documentarial, colando home videos, fotografias, telediscos, excertos de televisão, mensagens do atendor de chamadas e uma banda-sonora genial.
Para além da originalidade e deste exercício experimental, qual é o outro trunfo de
Tarnation? A própria vida de Jonathan. Numa época em que cada vez mais nos habituamos à vida alheia, através dos cada vez mais comuns reality shows, Jonathan Cauoette conta uma história dentro de uma família disfuncional, com uma mãe psicótica, esquizofrénica e alterada psicologicamente, um pai ausente, um avô activo demais e uma avó com problemas mentais; uma história de abusos, violência, roubos, homossexualidade e toxicodependência; a sua história!
O filme começa com uma sequência encenada, em que Jonathan e o seu parceiro recriam o momento em que recebeu a notícia que a sua mãe tinha apanhado uma overdose de lítio. Curiosamente, é a pior sequência do filme e a única que não resulta.
Tudo o resto é manipulado a seu bel-prazer, apenas com o intuito de criar emoções. E Jonathan Cauoette consegue-o exímiamente: perturba e incomoda. Mas também faz sorrir e deixa transparecer o amor familiar, por entre tantas cenas macabras e arrepiantes.
Sensacionalismo? Claro, o próprio Jonathan não tem pejo de filmar demoradamente a sua avó completamente muribunda, num estado quase terminal, ou a sua mãe num ataque psicótico, verdadeiramente demente. Mas não era essa a sua vida? Há que pague por menos, muito menos...
Tarnation é como uma revisão da sua vida. Cauoette tem uma consciência tremenda de tudo o que viveu (e foi muito, acreditem), e mesmo que manipulado, disseca todos aqueles fantasmas de forma exemplar, mesmo que abuse do experimentalismo ou das possibilidades gráficas do computador.
O ponto chave do filme é quando a sua mãe, inquirida perante a câmara de filmar afirma que
pais doentes criam filhos doentes.
Tarnation é uma novela da vida real doentia.
Encha o peito de ar e prepare-se para uma experiência que pode ser perturbadora. E prepare-se para redifinir o seu conceito de sensacionalismo.
Tarnation resulta plenamente nesse contexto, no de estimular sensações e estados de espírito e claro, não resulta no contexto cinematográfico. Mas
Tarnation não é um filme...
Posted by: dermot @
8:44 AM
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