Quarta-feira, Abril 06, 2005
NOTHING:Título: Nothing
Realizador: Vincenzo Natali
Ano: 2003

Vincenzo Natali apresentou-se ao Mundo com
Cubo e ficou, instantaneamente, na retina do panorama cinematográfico internacional. Agora, ao terceiro filme, depois de
Cypher, Natali já confirmou todos os seus créditos e já convenceu até os mais cépticos.
Nothing, que novamente valeu ao realizador canadiano, o prémio de melhor filme na secção oficial do certame deste ano do Fantasporto, é até à data, o seu registo mais experimental, mas também mais descntraído
E se Vincenzo Natali se tivesse juntado aos criadores do South Park e a Wes Anderson para criarem uma comédia genial? O resultado seria
Nothing; mas mesmo sozinho, Natali saiu-se muito bem. Aproveitando a demência (leia-se non-sense) juvenil de Trey Parker e Matt Stone e a subtileza alienada de Wes Anderson, Natali deu o seu cunho experimental a esta comédia, levando ao extremo todo aquele seu minimalismo de Cubo. Assim, pode-se dizer que
Nothing é o primeiro filme absolutamente niilista da história do cinema.
O filme divide-se em duas partes. Antes de mais, começa com um prólogo magnífico, numa edição divertidíssima de colagens e sobreposições, que introduz as personagens de Dave (David Hewlett) e Andrew (Andrew Miller), dois amigos de infância e dois falhados completos. Fazendo juz à máxima “quando as coisas parecem não poder piorar, vão piorar”, os dois amigos conseguem, em pouco mais de dez minutos, ver-se envolvidos numa série de problemas catastróficos que os fazem desejar que o Mundo desaparecesse. E se esse desejo se concretizasse?
Nothing é um filme assente nessa premissa e é uma história sobre nada. Literalmente! Ausentes do mundo,
Nothing é uma antítese de
Cubo; se neste, a claustrofobia era provocada pelo encerramento das personagens num cubo misterioso, em
Nothing a claustrofobia é provocada pela total ausência do que quer que seja: o cenário é totalmente branco e nem há linha do horizonte como linha para nos agarrarmos – uma vertigem constante.
Natali dá esta possibilidade aos dois personagens e dota-os com o poder divino de fazer desaparecer o que bem entendessem. E o que de início parecia uma brincadeira, rapidamente se torna num martírio, quando maiores questões se começam a levantar. O filme é mais do que uma lição de moral: é uma lição de psicologia, que Freud não faria melhor.
Numa amálgama de estilos, Natali realiza uma comédia divertida e experimental sobre o nada, em que a atenção recai totalmente sobre os actores; e ambos respondem à chamada, em interpretações sólidas e brilhantes.
E mesmo rodeado de nada, conseguimos encontrar no filme, o cunho pessoal de Natali, no modo como ele cria os ambientes de tensão, num estilo minimalista e extremamente eficaz. È precisamente este o ponto alto do filme, em contraste com o lado mais juvenil, mais South Park, do filme, que tem como espelho o confronto final, que é para riscar completamente da memória.
Vincenzo Natali ao seu terceiro filme já marcou posição no cinema fantástico e no cinema de ficção-científica pensado; e por aqui, já se tornou mesmo num dos realizadores de eleição.
Nothing é um filme fantástico, uma experiência que correu bastante bem. E como é difícil fazer um filme sobre nada, que o diga Gus Van Sant e o seu
Gerry. Nada difícil, contudo, é atribuir um saboroso Le Big Mac a esta original criação.
Posted by: dermot @
1:18 PM
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