Segunda-feira, Abril 04, 2005
ENTREVISTA À PRODUTORA OLHO DE VIDRO:Olho de Vidro é o nome da nova produtora cinematográfica nacional, que nasceu no norte do país, com sede em Guimarães, com o objectivo de acabar com o marasmo que afecta o cinema português.
Rodrigo Areias, licenciado em Som e Imagem pela Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa e formado em Realização Cinematográfica pela Tisch School of Arts da Universidade de Nova Iorque, é quem encabeça este projecto e é o convidado do Royale With Cheese para falar sobre este projecto e não só.
Royale With Cheese – Rodrigo Areias, afinal o que é a associação Olho de Vidro?
Rodrigo Areias - A Olho de Vidro é uma associação cinematográfica voltada essencialmente para a produção de cinema. O nosso objectivo é capitalizar uma série de condições que hoje existem espalhadas por todo o país, e que são subaproveitadas. Pois existem hoje meios técnicos de ponta disponíveis, profissionais técnicos altamente qualificados, actores de qualidade com vontade de ver espelhada a sua arte, espaços técnicos, cénicos e naturais únicos, que não são explorados pelo cinema português. E hoje, dada a democratização com o cinema digital, quem quer fazer cinema, tem uma maior facilidade, mas existem muitos entraves para que as coisas evoluam.
RWC – Na sua opinião, o que corre mal no cinema nacional, que se traduz num último nível, numa fraca afluência de público às salas de cinema para ver filmes em português?
RA – O que corre pior no cinema português é a promoção, distribuição e exibição. As pessoas não se sentem atraídas a ir ver filmes portugueses, porque os filmes mais falados e com espaço de crítica, são normalmente “filmes de festival de cinema”, com os quais o público não se identifica. O problema é que o cinema cinzento à português, urbano-depressivo, deflagrou em força nos anos 90, devido a ser mais exequível fazer filmes em que entrem poucos actores, nos apartamentos dos amigos e sem guarda-roupa. É mais barato desta maneira, é verdade, mas há outras formas de fazer cinema que também deveriam ser apoiadas. Eu acho que a única solução para o problema do cinema português está na diversidade da produção, em que apesar de exígua que será sempre, possa agradar também ao público em alguns filmes. Há casos conhecidos de respostas dos júris do ICAM estilo: “muito próximo do gosto do público”, como razão para não apoiar um projecto que havia ficado em primeiro lugar nos concursos de desenvolvimento de argumento, de um realizador como o António Ferreira. Ou seja, não considero que se deva financiar um tipo especifico de cinema, mas sim diversificar, e que pelo menos não sejam sempre os mesmos a receber, e à quarenta anos.
RWC – O cinema português encontra-se limitado a géneros muito específicos, resumindo-se a algumas pedradas no charco, como as recentes apostas independentes de
Sorte Nula ou
I’ll See You In My Dreams. Podemos esperar da Olho de Vidro uma quebra neste marasmo, com a aposta em outras áreas?
RA – O
I’ll See You In My Dreams é um bom exemplo de aposta independente, dado que envereda por um género especifico, feito com grande profissionalismo, a que o cinema português não está habituado, mas é uma curta-metragem e com um orçamento altíssimo. E eu considero que apostas independentes são, por exemplo os filmes do Edgar Pêra, que faz longas metragens sem qualquer financiamento e estão em festivais de cinema à séria, e são propostas arrojadas de cinema. Por outro lado, mais independente e mais próximo do público que o
Sorte Nula, é o
Balas e Bolinhos, um filme de comédia absurda, um género que a mim não me apraz muito, mas que sem financiamento e sem críticas positivas, consegue fazer público e estar em sala dois meses. Este é um caminho possível, mas a Olho de Vidro não é a isso que se propõe, a nossa ideia é em liberdade criativa e sem género fazer com que seja possível a uma série de pessoas fazer cinema. Juntar gente das várias áreas do cinema e fazer com que se criem coisas, dar apoio, infra-estruturas, condições.
RWC – A internacionalização é um passo a conquistar pela Olho de Vidro?
RA – A internacionalização é um passo fundamental para o cinema português em geral, essa deveria ser a aposta do Estado Português, como toda a gente faz por esse mundo fora, investir à séria nesse âmbito. Em vez de se dar subsídios a filmes que nunca são exibidos, como acontece frequentemente, deveria dar-se maior importância à exportação do cinema português, que tem mais potencial do que se julga. A Olho de Vidro, está já nesse processo de internacionalização, aos poucos e estamos neste momento aliados a uma série de estruturas de produção nacionais e estrangeiras, e sabemos que não é assim tão difícil chegar lá. Os nossos dois primeiros projectos foram de facto duas curtas de produção francesa, e temos como aliado actualmente um produtor inglês que tem já um projecto de longa metragem com rodagem integral em Portugal e prevista para este ano.
RWC – Ao fim ao cabo, 2004 acabou por ser um ano positivo para o cinema nacional, pelo menos em questões de qualidade.
O Milagre Segundo Salomé foi o escolhido para a corrida aos Óscares. Concorda com esta opção ou a sua escolha teria recaído noutro filme?
RA – As escolhas para os Óscares não são só politicas em Hollywood, começam logo por sê-lo cá. Não concordo de todo que 2004 tenha sido um ano positivo para o cinema nacional, não saiu nada com força desse ano. Mas a escolha do filme português que irá ingressar numa pré-escolha para se ser candidato aos Óscares é decidido no ICAM, e quase sempre mal escolhido. Em 2001 estavam quatro filmes nessa escolha, o
Vou Para Casa do Manoel de Oliveira, que foi excluído da corrida por ser falado em francês, o
Quarto da Vanda do Pedro Costa que por opção do Produtor foi também retirado e sobraram dois,
A Janela Marialva Mix do Edgar Pêra, e o
Camarate do Luis Filipe Rocha. O filme escolhido pelo ICAM foi o
Camarate, um filme à americana, linear e que em nada pode representar o cinema português. Destes filmes, apenas o Costa ou o Pêra deveriam ter sido considerados, porque são filmes com atitude e são geniais, apesar de estarem nos antípodas um do outro.
RWC – Que nomes nacionais gostaria de ver envolvidos em futuros projectos da Olho de Vidro?
RA – Para já estão envolvidos o João Trabulo, com
Sombras, uma longa metragem sobre o Teixeira de Pascoaes e o Edgar Pêra com
Português à Força, uma longa baseada no livro Amadeo do Mário Cláudio; estas duas são produções da Periferia Filmes de Lisboa com quem iremos ter mais colaborações no futuro. Iremos colaborar em
667 O Vizinho da Besta de Eduardo Condorcet, e temos uma série de produções de curtas e documentários a avançar de novos autores que irão estar a fazer uma série de coisas no futuro connosco. Mas creio que o grande nome do cinema que eu gostaria de ver envolvido com a nossa associação é mesmo o Edgar Pêra, o que estou já muito contente de estarmos a trabalhar juntos em vários projectos. Obviamente que gostaria de ver outros nomes associados, como o João Canijo, o Joaquim Pinto, o António Ferreira ou o Pedro Costa, que são realizadores de quem gosto bastante, bem como do seu trabalho, sendo no entanto, todos bastante diferentes entre si.
RWC – É sabido que o primeiro “filho” da Olho de Vidro será uma longa-metragem inspirada em
O Rei Édipo, de Sófocles, realizada pelo próprio Rodrigo Areias. Que pode adiantar acerca do filme? Que podemos esperar? E para quando poderemos encontra-lo nas salas de cinema?
RA – O Rei é uma versão da tragédia clássica de Sófocles, mas com uma série de particularidades, é uma versão actual, onde um filho de emigrantes portugueses nos arredores de Paris, parte em busca das suas origens e se depara com um universo de valores distante do seu e da realidade. É uma incursão particular num universo de democracia paralela. É uma longa metragem de ficção, sem financiamento do ICAM, que irá ter distribuição em cinema, dvd e exibição em televisão, garantida já em Portugal, Inglaterra, França e Brasil; numa escala reduzida e especifica obviamente.
Damos muitos passos para muitos lados, mas passos pequenos de cada vez...
Estrear comercialmente só em 2006. É um filme que conta com Nuno Melo, David Almeida, Paula Guedes, Manuel João Vieira, Paulo Furtado, entre outros.
RWC – Paulo Furtado será o responsável pela banda-sonora do filme. É uma aposta singular, ou é uma experiência a repetir, para revitalizar também a música portuguesa?
RA – Com o Paulo especificamente, é sempre uma experiência a repetir, temos trabalhado bastante juntos, escrito e realizado trabalhos em conjunto, e é alguém com quem me identifico bastante. Não me parece que esta relação revitalize propriamente a música portuguesa, existe sempre uma exportação de ambos os produtos que ajudam na divulgação do outro.
RWC – Enquanto realizador, já colaborou com nomes importantes da área, como Edgar Pêra e Paulo Rocha. Quem são as suas referências/influências cinematográficas?
RA - Toda a história do cinema é a minha influência, não tenho uma identificação directa com nenhum realizador especifico, tenho com vários. Das últimas décadas, Alex de la Iglesia, Jim Jarmusch, Wim Wenders, John Waters, David Lynch, antes dos anos 80 Fellini e Godard, antes ainda Tati, e os clássicos são poços de sabedoria, Vertov, Eisenstein; não sei responder a isto...
RWC – Para terminar, deixo uma série de perguntas curtas para respostas directas:
- O filme da sua vida?
A lista é enorme...
- Um actor e uma actriz que deram sentido ao cinema?
A história do cinema está repleta de óptimos actores.
- O que melhor já se fez em Portugal, dentro da área cinematográfica?
Para além do Edgar Pêra, o
Tráfico do João Botelho.
- Hollywood ou o circuito indie?
Poucos blockbusters e odeio saber quem vendeu mais bilhetes, acho um atraso mental.
- Cinema digital ou tradicional?
É indiferente, as inovações tecnológicas no cinema coincidiram sempre com mudanças radicais na forma de se fazer e ver cinema, esta é apenas mais uma.
RWC – Obrigado pelo tempo dispendido. Muitas felicidades e boa sorte para a associação Olho de Vidro, são os votos sinceros do Royale With Cheese e dos seus leitores. Espero que possa visitar com frequência o Royale With Cheese.
Posted by: dermot @
6:44 PM
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