Terça-feira, Abril 26, 2005
ENTREVISTA A JOSÉ BARAHONA:A XII edição do festival
Caminhos do Cinema Português teve como destaque um jovem realizador português, de seu nome José Barahona, que se apresentou com três filmes a concurso – o documentário
Buenos Aires Hora Zero e as curtas
Quem É Ricardo? e
Pastoral – arrecadando mesmo o prémio para Melhor Curta Metragem – Película com este último.
A rematar a sua cobertura por dentro da edição deste ano do certame, o Royale With Cheese tem o prazer e a honra de entrevistar este promissor realizador português.
Royale With Cheese – José Barahona foi um dos destaques desta edição do festival Caminhos do Cinema Português, ao apresentar-se a concurso com três obras [
Buenos Aires Hora Zero,
Quem É Ricardo? e
Pastoral]. É a desmistificação de que afinal não é tão difícil fazer em cinema em Portugal como dizem ou foi o reflexo de um ano de muito trabalho?
José Barahona - Não sei se Portugal é um pais onde é muito difícil fazer cinema, é difícil fazer cinema em todo o mundo e Portugal tem os seus problemas específicos, mas também não devemos ser demasiado críticos em relação a nós próprios. Existe um sistema que funciona com as suas perversões, e que é preciso combater, mas também existe uma liberdade de expressão e criação que muitos realizadores de outros países invejam. No meu caso pessoal o facto de ter terminado três filmes em 2004, é em parte coincidência, mas também fruto de alguma perseverança.
Buenos Aires Hora Zero foi filmado no verão de 2002, mas teve um processo de montagem e pós-produção muito longo e atribulado. Quanto aos meus dois filmes de ficção tenho de confessar que fui beneficiado por uma política com a qual não estou à partida de acordo: a objectividade de critérios do júri de selecção fez com que no mesmo concurso do ICAM tivesse dois subsídios atribuídos. Não senti no entanto que fosse injusto de um ponto de vista pessoal, pois há mais de sete anos que concorria e não conseguia resultados. Toda esta conjuntura resultou de facto num ano de muito trabalho, mas do qual tirei um prazer imenso, pois é o tipo de situação que não me importaria que fosse permanente. No fundo é o sonho de qualquer cineasta: filmar o mais possível. O que me assusta é não poder ser sempre assim.
RWC – Como é ser realizador de cinema em Portugal?
JB - Existem poucos realizadores de cinema em Portugal a tempo inteiro. A maior parte de nós tem uma carreira paralela como técnico ou no ensino, uma que vez que não é possível sobreviver com os orçamentos de curtas metragens ou documentários, e mesmo realizadores de longas metragens que não filmam todos os anos, ou seja a grande maioria, têm essa dificuldade. Isso implica uma grande disciplina uma vez que há que gerir o tempo livre para escrever e preparar os projectos. No fundo é uma escolha que implica sacrifícios e da qual nunca temos certeza das recompensas. Mas para mim é a única possível.
RWC – Vamos falar agora dos seus filmes a concurso.
Quem É Ricardo? é uma história intensa com Portugal salazarista como pano de fundo. O seu filme anterior era sobre a guerra da
Guiné [Anos de Guerra – Guiné 1963]. A repressão e a tortura é uma temática recorrente na sua obra ou apenas uma coincidência?
JB - Na prática existe alguma coincidência, mas teoricamente podemos sempre dizer que elas não existem.
A Guiné foi um filme que me foi proposto por um produtor, o mesmo se passando com o
Ricardo, mas por alguma razão isso aconteceu. E foram filmes que abracei como meus, pois é a única forma de os levar a bom termo.
É-me difícil analisar o meu próprio trabalho, mas talvez um dos temas presentes em alguns dos meus filmes seja a luta pela liberdade. Não é a repressão e a tortura que me interessam particularmente, mas sim aqueles que contra ela lutaram, e os que ainda hoje lutam, e seria bom que o meu trabalho pudesse fazer parte dessa luta. Claro que mesmo
Buenos Aires Hora Zero é um filme que passa por estes temas e até a
Pastoral é um filme político e de luta pela liberdade, só que nesse caso, não se tratando de um filme histórico, mas sim de uma reflexão contemporânea, trata-se de uma luta contra um inimigo invisível materializado em pequenos objectos, ou metaforizado pelo medo, do qual não se conhece o motivo, da personagem interpretada pela Micaela Cardoso. No fundo ambos os personagens estão á procura de uma alternativa.
RWC – Em
Buenos Aires Hora Zero propôs-se a encontrar o último dos descendentes da única cidade uruguaia fundada por portugueses – Colónia de Sacramento. O que o levou a se interessar por este motivo?
JB - Há uma temática recorrente no documentário português, que é quase uma imposição política nas directivas do estado e na lei do cinema referente aos concursos do ICAM para documentários, que faz com que muitos filmes tenham temas relacionados com as “pedras” que os portugueses deixaram espalhadas pelo mundo. Para alguns só isso é a cultura portuguesa, não entendendo que qualquer obra feita por um português sobre uma temática que para nos, à partida é aparentemente estranha enquanto país, é não só uma obra de cultura portuguesa, como reflecte sempre a nossa realidade mais não seja através do nosso olhar particular.
No fundo a busca do personagem do
Buenos Aires não é mais do que um pretexto, um fio condutor, que me serviu para falar de uma cidade que conhecia, mostrando um ponto de vista pessoal. Daí a minha presença no filme e não por qualquer pretensão narcisística. É importante para mim realçar este dado, uma vez que por vezes o documentário tende a ser confundido com a realidade, e por vezes é mesmo trabalhado nesse sentido, quando a mim o que me interessa é precisamente o contrario: sublinhar que aquilo que o espectador vê no écran é um ponto de vista de alguém, o autor, sobre uma realidade que cada um pode ver de distintas maneiras. Já é suficientemente perigoso que aquilo que a televisão nos mostra seja muitas vezes tomado como a realidade.
RWC – Com
Pastoral, uma história de medo afectivo, recebeu o prémio para melhor curta-metragem de película. Que significa esta distinção para si?
JB - É sempre bom receber um prémio, ainda mais com um trabalho que nos agrada particularmente e que é talvez o mais pessoal dos três que passaram no festival.
É obvio que o reconhecimento é sempre agradável, dá-nos força para continuar e ajuda a que seja mais fácil conseguir concretizar o próximo projecto. E talvez mais importante que tudo isto, o prémio pode contribuir para que o filme seja visto por mais pessoas, que é afinal de contas o objectivo principal de todos os cineastas.
RWC – São três filmes bastante distintos e eclécticos; é esta a principal característica do José Barahona enquanto realizador?
JB - Não sei bem, mas como já antes referi, são três filmes com uma génese diferente. O
Buenos Aires é um filme que segue uma linha diferente talvez porque estamos dentro de um domínio mais próximo do documentário, (se é que existe uma fronteira distinta entre documentário e ficção), onde eu talvez possa encontrar pontos de contacto evidentes com outros documentários que fiz. A
Pastoral está dentro de um estilo mais pessoal, que tem seguimento no projecto que tenho neste momento entre mãos, e com muitos outros que estão ainda por sair do computador. Já o Ricardo, sendo um guião que me foi proposto, requeria outro tipo de aproximação da minha parte. Acho que é isso que os faz de alguma forma serem bastante distintos. Além disso, para mim, cada filme contém em si mesmo a sua própria linguagem. Seja na fase da escrita, ou numa primeira leitura de um guião terminado, cada um de nós vê imediatamente qual a forma que o filme deve tomar. Se bem que cada realizador veja o mesmo guião de uma forma distinta e particular, para essa pessoa, a linguagem, a forma, já lá está. E por isso cada filme acaba por ter a sua vida própria, e mesmo as suas imposições perante o seu autor.
RWC – Quem são as suas referências cinematográficas?
JB - Pergunta complexa, pois a lista pode tornar-se interminável, mas vou tentar referir só os primeiros que me vierem à cabeça, mas devo sublinhar que não sou “fanático” por nenhum realizador em particular.
Ford pelo tratamento dos grandes espaços, exteriores e interiores, principalmente o de
A Desaparecida, e pela própria desmistificação do Western em
O Homem que matou Liberty Wallence. Welles pelos excessos geniais e pela violentação da câmara. Bergman, por tudo o que nos faz descobrir sobre nós próprios e pelo rigor da encenação. Scorsese, até ao
Tudo Bons Rapazes. Lynch pelo universo surreal. E Almodovar pela imaginação formal e narrativa.
Há ainda uma série televisa que revejo de dois em dois anos, e que é para mim o equivalente no cinema aos dez volumes de
À Procura Do Tempo Perdido de Proust:
Reviver o Passado em Bridshead, onde tudo está no lugar certo.
RWC – Num futuro próximo onde vamos poder ver o seu nome referenciado? Para quando uma aventura pelo domínio das longas-metragens?
JB - Estou neste momento a trabalhar na montagem de uma curta metragem intitulada
A Cura, que espero puder mostrar no inicio do próximo ano, e com vários outros projectos no papel, mas sobre os quais é melhor só falar quando há a certeza de puderem ser concretizados.
RWC – Antes de terminar queria apenas fazer umas perguntas de resposta directa, que de certa forma já se tornaram hábito aqui no Royale With Cheese.
- Um filme de eleição?
Difícil…
A Desaparecida?
Reviver o Passado em Bridshead?
- As referências cinematográficas nacionais?
Fácil: Oliveira, Rocha e António Reis – como cineasta, professor e companheiro de descobertas na cinemateca.
- Com que actores portugueses gostaria de contar num projecto seu?
Com todos os grandes actores que existem em Portugal.
- Que filme quer fazer antes de morrer?
Como espero que ainda falte algum tempo, muitos. Todos os que tenho na cabeça. E um filme de aventuras, com piratas.
RWC – Obrigado pelo tempo disponibilizado. Muitas felicidades para o futuro e que possamos continuar a acompanhar o seu trabalho. Quer deixar uma mensagem a todos os jovens que sonham com um futuro de câmara de filmar ao ombro?
JB - A maneira com põe a sua questão faz-me imediatamente pensar na famosa frase do Glauber Rocha: Uma câmara na mão e uma ideia na cabeça. Apesar de todos estes anos que passaram, acho que hoje em dia ela se aplica cada vez mais. E a subversão é também um factor importante nestas coisas, por isso talvez: Uma ideia na mão e uma câmara na cabeça.
Posted by: dermot @
1:32 PM
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