Domingo, Abril 24, 2005
BIRTH - O MISTÉRIO:
Título:
BirthRealizador: Jonathan Glazer
Ano: 2004

Imagine que, após ultrapassar dez anos de luto, é confrontado em vésperas de um novo casamento, com a presença de um rapaz de dez anos, que afirma ser o seu marido reencarnado. Em quem e em que iria acreditar?
Bith - O Mistério respira Kubrick por todos os poros. É uma história acerca do amor enquanto fé, mas numa intriga bifurcada; tal como em
Lolita, há um triângulo amoroso, em que um dos vértices é um adolescente; tal como em
Barry Lyndon, a banda-sonora é requerida nos momentos de catarse; e tal como em
De Olhos Bem Fechados, quase que nos sentimos a violar a privacidade dos personagens, naqueles incomodativos grandes planos, demorados e fixos. Com o filme a respirar tanto Kubrick, não conseguimos evitar um suspiro de desilusão no final, ao percebermos que o realizador norte-americano faria-o muito mais intenso e sombrio. Enfim, faria-o melhor...
No entanto, é impossível falarmos de
Birth - O Mistério sem falarmos de
A Semente Do Diabo. Não é só por Nicole Kidman estar num registo em tudo semelhante ao de Mia Farrow, quer fisico, quer psicologicamente, numa interpretação minimalista e frágil; é porque também é um filme psicologicamente perturbador, que Polanski expressa magistralmente na sua obra - uma aura de misticismo, com uma pinga de claustrofobia e uma grande dose de confronto de identidades num ciclo fechado de familiares e amigos.
Birth - O Mistério não é um mau filme, antes pelo contrário. Mas perante o que já foi feito, dentro do mesmo campeonato, não pode ser encarado da mesma forma.
É, contudo, um filme bastante artístico e intenso; apesar de orientado para uma revelação final, a história esquiva-se ao twist, permancendo na reflexão e na ambiguidade. É certo que o final desaponta, não tanto pela opção argumentativa, mas pelo comportamento das personagens.
Apesar de ser o seu segundo filme, Jonathan Glazer mostra que sabe o que faz. É fantástica a perspicácia com que distribui alguns pormenores que são de grande importância para o desenlace da intriga - para quem ainda o vai ver, aconselho a tomar atenção aos atacadores desapertados na cena inaugural do filme - ou a promiscuidade cúmplice com que coloca Nicole Kidman a tomar banho com o petiz Cameron Bright, numa cena memorável e clássica.
É, no entanto, de uma irritação tremenda o facto de os microfones aparecerem em mais de cinquenta por cento do filme. Espero que não seja geral e que tenha sido só na fita que eu vi, mas assistir a um filme em que os actores quase que chegam a dar cabeçadas nos microfones é assustador.
Assim, ponderados os devidos altos e os baixos do filme,
Birth - O Mistério acaba por receber um McBacon, temperado e acompanhado.
Posted by: dermot @
9:15 PM
|