Quinta-feira, Março 24, 2005
VERA DRAKE:Título:
Vera DrakeRealizador: Mike Leigh
Ano: 2004

Vera Drake é uma velhinha amorosa, com uns olhos brilhantes de urso de peluche. Mãe exemplar de uma família de classe média-baixa na Inglaterra victoriana, Vera Drake é uma boa samaritana com um coração de oiro, que trabalha a dias em várias casas, trata de inválidos com poucas posses, ajuda raparigas que não se conseguem desenrascar e ainda tem tempo para fazer de cupido. É impossível não gostar dela.
Mas "ajudar raparigas que não se conseguem desenrascar" é outra forma de dizer "ajudar raparigas a abortar". E tal como hoje, também nessa altura o aborto era uma prática proibida por lei.
Vera Drake é um filme com semelhanças a
Mar Adentro - aqui, a eutanásia é substituída por outro tema tabu, o aborto, e Rámon Sampedro vê o seu luga rocupado por Vera Drake. No entanto, ao contrário de Alejandro Amenábar, Mike Leigh não faz uma abordagem imparcial. Não é que assuma uma posição, mas talvez inconscientemente, faz a balança pender para um dos lados. O que é certo é que os abortos focados, praticados pela velhinha amorosa, são sempre gritos de desespero inevitáveis, sejam os da jovem violada, os da mãe que não pode alimentar uma oitava boca, ou a da jovem emigrante, em busca de uma melhor vida. E Mike Leigh mostra ainda, em paralelo (e talvez a mais), o lado corrupto e menos honesto do aborto, em que médicos e enfermeiros, a troco de avultadas quantias de dinheiro, também praticavam o aborto na clandestinidade.
Mike Leigh não se resume ao aborto. No seu estilo preciso e meticuloso, de planos fixos e certeiros, filma também uma crónica de costumes dos anos 50 em Inglaterra - as festas, a música, o cinema, os hábitos culturais, as novas tecnologias e até a desconfiança por aqueles que se mantinham solteiros.
Mike Leigh é um realizador com créditos firmados, com grande experiência na sétima arte (que lhe permitiu disfarçar o infímo orçamento, que não lhe permitiu adquirir uma banda-sonora, e que teve de a subsituir pelo próprio cantarolar dos actores) e apologista de um cinema de actor, virado predominantemente para as interpretações.
Neste último caso, assistimos a um fantástico rol de actores, num registo teatral, em que todo o mérito vai para Vera Drake, aqui sob a forma de um parágrafo completo.
Quase que não acreditamos quando os créditos finais anunciam que Vera Drake é na realidade Imelda Staunton. Stauton, com carreira feita no teatro e na televisão, tem uma interpretação arrebatadora, realista e comovente, num underacting convincente demais, que deveria ter sido recompensado com o Óscar. Imelda Staunton parece que foi toda a vida Vera Drake, ou que se preparou durante anos para aquele papel.
O filme divide-se em duas partes: uma primeira, em que são apresentadas as personagens, num toada monótona quotidiana; e uma segunda, em que se transforma num filme de tribunal, que ganha em dramatismo o que perde na pouca intensidade do julgamento.
Vera Drake é um retrato histórico e é um drama realista e muito humano;
Vera Drake é sobretudo, Imelda Staunton, que merece todos os elogios possíveis. E só por ela, o McBacon do filme é substituído por um McRoyal Deluxe. Por Imelda Staunton e pelo mais interessante e excitante romance da história do cinema, entre a filha Ethel (Alex Kelly) e o vizinho Reg (Eddie Marsan).
Posted by: dermot @
3:09 PM
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