Quinta-feira, Março 17, 2005
UM LONGO DOMINGO DE NOIVADO:
Título:
Un Long Dimanche De FiançaillesRealizador: Jean-Pierre Jeunet
Ano: 2004

Jean-Pierre Jeunet relegou, em poucos anos, Jean-Luc Godard para o banco de suplentes, assumindo a titularidade na frente de ataque na equipa internacional de realizadores franceses. Para isso, fez-se valer de um cinema de autor muito característico, cheio de bizarrarias, personagens complexas e intrincadas e muita atenção aos pormenores. Apesar de ser um algo inconfundível, Jeunet conseguiu sempre reinventar o seu cinema, com passagens entre universos tão distintos, como o de
Delicatessen, o de
A Cidade Das Crianças Perdidas, o de
Alien 4, ou o de
O Fabuloso Destino De Amélie.
Jeunet atingiu o reconhecimento internacional de um público mais vasto com o genial
O Fabuloso Destino De Amélie. Percebia-se que, por isso, o seu sucessor -
Um Longo Domingo De Noivado - seria de certa forma, um remake da simpática e gentil Amélie Poulain, uma vez que no papel principal voltava a estar a bela Audrey Tatou. Quem assim quis crer, enganou-se completamente. É certo que
Um Longo Domingo De Noivado poderia ser a história de Amélie, se esta tivesse vivido no início do século XX; mas fiél a si próprio, Jeunet reciclou o seu anterior filme e assinou mais um refrescante e fantástico filme.
Audrey Tatou é Mathilde, uma jovem coxa que perdeu o seu noivo Manech (Gaspard Ulliel, na Primeira Guerra Mundial. No entanto, fazendo valer-se da sua intuição, Mathilde vai empreender uma busca épica pelo seu amado, vasculhando as mais ínfimas e rebuscadas pistas que conseguiram chegar até si.
Jeunet, neste circo de bizarrarias, junta numa só, uma fabulosa história de amor, mas sobretudo de esperança, entrelançada com um retrato espectacular da Primeira Grande Guerra, tudo sob a forma de um mistério de Sherlock Holmes, em que as deduções mirabolantes são substituídas por um puzzle complexo de peças perdidas e de formas esquisitas.
Parece tudo muito estranho, mas não o é. Ou melhor, Jeunet fá-lo parecer que não é. Aliás, como na sua anterior filmografia, Jeunet transforma esta história humanista em pinceladas de humor crítico subtil e em poesia, em que cada plano é uma fotografia cativante, de pormenores apaixonantes em tons outonais, de sepias e ocres.
Um Longo Domingo De Noivado é uma caricatura de
Cold Mountain, mas dá uma lição de cinema a Anthony Minghella; e as sequências nas trincheiras são o mais espectacular retrato da Primeira Guerra Mundial, realistas e horripilantes, que nada ficam a dever ao spilberguiano
O Resgate Do Soldado Ryan, onde Jeunet critica aquela primitiva guerra que dizimou uma geração inteira de jovens franceses.
Audrey Tatou volta a ser sublime, naquela pureza angelical que irradiava em
O Fabuloso Destino De Amélie; no entanto, aqui conta com um leque fantástico de actores secundários, onde sobressai uma americana sem sotaque - Jodie Foster, que numa curta aparição, tem uma interpretação marcante e dramática.
Um Longo Domingo De Noivado peca sobretudo pela sua extensão, mas tal era impossível de contornar, uma vez que a informação é servida em doses maciças, seja ela naive, non-sense, ingénua, ou romântica. No entanto, pede obrigatoriamente uma segunda vistoria do filme para encaixar certas peças do puzzle, que no meio de tanta movimentação, deixamos por vezes soltas.
Jean-Pierre Jeunet é um fantástico realizador, com um currículo invejável de grandes obras.
Um Longo Domingo De Noivado não é o seu melhor momento, mas certamente é um digno sucessor na sua filmografia. Um McBacon repartido em dois, uma metade para cada vistoria do filme.
Posted by: dermot @
9:54 AM
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