Terça-feira, Março 08, 2005
RAY:
Título:
RayRealizador: Taylor Hackford
Ano: 2004

Apresentando Ray Charles:
Ray Charles queria ser um músico maior que a música.
A sua vida poderia muito bem tratar-se do guião de algum caso da vida fictício: nascido no seio de uma família pobre e sem pai, no centro dos Estados Unidos racista dos anos 40, Ray Robison Charles teve que aprender a lidar com as adversidades da vida desde muito cedo. Aos sete anos uma doença ceifa-lhe a visão, mas o destino já lhe tinha pregado outra partida: anos antes, assistira sem capacidade de reacção à morte do irmão mais novo, facto que o fez passar toda a sua vida amarrado ao fantasma passado e a um sentimento de culpa.
Preto, pobre e cego, teve que subir e lutar na vida, para conseguir vencer. E que vitória! Rapidamente se evidenciou no boogie woogie do piano, que tinha aprendido a tocar antes da cegueira, o que lhe permitiu saltar das bandas country locais para os clubes de Seattle. Daí até ao seu primeiro contrato com a Atlanta foi um pequeno salto. E depois foi sempre a subir, nunca estagnando e sempre evoluindo: primeiro, agitando o rock n’ roll e o rythm n’ blues, ao aperceber-se que
ninguém queria outro Nat King Cole; depois, revolucionando a música, com o sacrilégio de fundir o gospel com o rock n’ roll, transformando o amor em sexo; e por fim, orquestrando o jazz e o country, numa carreira recheada de sucessos.
Ray Charles foi um músico ímpar, que chegou a ter um contrato superior ao do próprio Sinatra. Mas foi também um militante activo contra a segregação racial – que lhe valeu o banimento vitalício do estado do Georgia – um mulherengo, um viciado em heroína e um homem obstinado pela fama, a carreira e o dinheiro.
Ao fim ao cabo, Ray Charles foi maior que a própria vida.
O veredicto: royale with cheese.
Apresentando Jamie Foxx:
Apesar de não ter vivido o suficiente para ver o resultado final de
Ray, o filme sobre a sua vida, Ray Charles aprovou o guião, esteve envolvido na produção e fez questão de escolher o protagonista. Quando o realizador Taylor Hackford lhe levou Jamie Foxx, contam as histórias que Ray Charles o levou até a um piano, onde o fez brilhar. Com a aprovação do mestre, Jamie Foxx tornou-se Ray. Literalmente.
Não é só uma grande interpretação; é uma metamorfose. Jammie Foxx absorve o músico completamente, os seus tiques, a sua maneira de falar, os seus maneirismos, o seu virtuosismo ao piano... Só não se atreveu a cantar.
O veredicto: le big mac.
Apresentando
Ray:
Taylor Hackford estava desde 1987 com o projecto nas mãos, mas só conseguiu leva-lo adiante quase duas décadas depois. Na sua curta carreira, já apontava no currículo duas experiências com músicos: primeiro, com Ritchie Valens, ao produzir o sucesso
La Bamba; e depois com Chuck Berry, no não menos interessante
Hail! Hail! Rock n’ Roll! Pelo meio, alguns pastelões insonsos e um filme fantástico –
O Advogado Do Diabo.
Há duas formas de fazer um biopic musical: ou transformar o filme num teledisco de longa metragem, como
De-Lovely; ou transformar o filme numa narra cronológica de factos da vida do músico em causa, qual documentário televisivo. E depois há uma outra, que é cruzar a história com a magia do cinema. Hackford aventurou-se nesta última possibilidade. O truque foi não fazer um filme para a música. Esta é um pretexto, um fio condutor e simultaneamente, uma banda-sonora estrondosa.
Ray não se esquiva a mostrar um génio tresloucado (como todos os génios), mulherengo e heroinómano. Mas cai na tentação do engrandecer das virtudes de Ray Charles, que fazem tudo o resto não parecer tão benigno – Ray Charles podia ser drogado, mas evitava que todos os demais caíssem na mesma tentação, é mais ao menos este o espírito. Além disso, há um certo endeusamento do músico negro, como num dos flashbacks constantes, em que é mostrado como um super-herói, metade Van Damme cegado em
Força Destruidora, metade
Demolidor.
É certo que Ray Charles era Deus, num certo ponto de vista. Mas isto devia ser o que iríamos concluir no final.
Veredicto: mcbacon.
O veredicto final – McRoyal Deluxe.
Posted by: dermot @
6:10 PM
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