Terça-feira, Março 22, 2005
PARADA DE MONSTROS:
Título:
FreaksRealizador: Tod Browning
Ano: 1932

Tod Browning foi um dos mais admirados realizadores dos anos 30, que atingiu o ponto alto da carreira com o clássico
Drácula, da Universal. No entanto, talvez influenciado pela sua fuga de casa, ainda adolescente, para um circo, veio a assinar em 1932 um dos mais controversos filmes de sempre, que permence mesmo banido de alguns países, sete décadas depois -
Parada De Monstros, um filme de bizarrarias e emoções fortes, que lhe valeu a descida vertiginosa que vai do paraíso ao inferno em pouco tempo.
Basicamente, o que Tod Browning fez não foi mais do que realizar um filme de monstros, na sequência do que a Universal vinha a fazer com enorme êxito, com filmes como
Frankenstein,
Drácula, ou
O Monstro Da Lagoa Negra; no entanto, o choque estava na atitude do realizador, que subsituiu os monstros fictícios por verdadeiros, de carne e osso. E numa época em que os deficientes e os aleijados continuavam a ser vistos como a encarnação do mal ou de algum malefício de uma vida anterior, realizar um filme com anões, hermafroditas, decepados e gémeos siameses unidos, era um choque e um insulto. O estranho não está em o filme ter sido banido; está sim, no facto de ter sido distribuído pela MGM (apesar desta o ter retirado das salas em poucas sessões e de ter renunciado à paternidade do mesmo para o resto dos seus tempos).
Apesar de perturbador,
Parada De Monstros não é um filme de terror. É antes uma gigantesca metáfora, numa história de (des)amor, traição e vingança, imbuída rede de choques e confrontos, entre os personagens de um circo. Os problemas de relacionamento são explorados entre os diversos personagens, com predominância para o anão Hans (Harry Earles), que se apaixona pela bela trapezista Cleópatra (Olga Baclanova). No entanto, esta só tem em vista a sua avultada fortuna e o seu plano, juntamente com o seu amante Hércules (Henry Victor), para se apoderar do dinheiro alheio vai despoletar a ira dos restantes
freaks do circo, fiéis a um código interno assente na premissa “metes-te com um de nós e metes-te com todos”.
Parada De Monstros é um daqueles filmes cuja primeira visualização é sempre uma experiência inapagável, mesmo que depois o revejamos vezes sem conta; e por mais avisos ou pré-indicações que possamos ter, a primeira vez será sempre perturbadora, mesmo que saibamos do que estamos à espera.
Tod Browning choca o espectador ao permutar o estatuto dos personagens: aqui, os monstros são as pessoas normais, imagens do preconceito, inveja e desconsideração, em oposição aos
freaks, que apesar de
aberrações, sentem e sangram como qualquer um de nós. Esta enorme metáfora é ainda uma possível crítica do realizador aos estúdios de Hollywood, que na altura começavam a fabricar as primeiras estrelas de cinema, dando predominância ao aspecto exterior em detrimento da qualidade artística do actor.
Não é um filme exclusivo aos amantes de bizarrarias; é um excelente filme, que apesar de não contar com representações acima do normal, tem o condão de apresentar um casting fora de série. E depois, conta com duas cenas poderosas: a fantástica sequência da festa de noivado, onde os
freaks são reprimidos por Cleópatra depois de tentarem torna-la uma deles; e a sequência final, da catarse desta tragédia, primeiro com a inesquecível cena em que Cleópatra é ameaçada, numa caravana, ao som duma harmónica (que bem podia pertencer a um qualquer western spaghetti) e depois com o assustador massacre de Hércules, à chuva: arrepiante!
Sem dúvida, o que melhor se pode chamar de filme de culto e uma obra ímpar na sétima arte, com poucos exemplos que se lhe comparem. E se conseguirem ver isto e não uma forma gratuita de exploração por parte de Tod Browning, verão que merece um recheado Le Big Mac.
Posted by: dermot @
7:44 PM
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