Quinta-feira, Março 03, 2005
MAR ADENTRO:
Título:
Mar AdentroRealizador: Alejandro Amenábar
Ano: 2004
Mar Adentro foi ansiado com grandes expectativas e recebido calorosamente em Espanha, um fascínio que se traduziu nos mais importantes prémios Goya do ano transacto (fascínio que se alargou além-fronteiras, culminando com o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro). As razões eram simples: Alejandro Amenábar, apesar da curta carreira, é já um dos realizadores mais promissores da nova vaga, com provas já dadas internacionalmente, seja com o espanhol
Abre Os Olhos, ou o hollywoodesco
Os Outros; depois o papel prinicpal estava entregue a Javier Bardem, um dos mais acarinhados actores espanhóis, cujo currículo justifica toda essa veneração; e por fim, talvez o mais importante, porque
Mar Adentro é baseado num caso recente que abalou a Espanha - o caso de Rámon Sampedro, um tetraplégico que procurou durante quase três décadas, a morte assistida.
A história de Rámon Sampedro dava um filme (e acabou por dar dois, um para a televisão e outro para o grande ecrã). Um jovem marinheiro, cheio de força e de vida, que aos vinte anos já tinha dado a volta ao Mundo. Em plena flor da sua vida, o jovem calculou mal um mergulho, embatendo violentamente contra o fundo do mar, partindo o pescoço e ficando confinado para o resto da sua vida a uma cama, dependente da ajuda dos demais - tinha ficado tetraplégico. Toda a sua vida aglomerou-se na sua cabeça, acoplada a um cadáver, que no entanto nunca o fez deixar de sorrir, escrever, pensar e, sobretudo, lutar. Lutar contra a Constituição espanhola, por
uma morte digna. Porque para alguém como Rámon Sampedro, aquilo não era viver.
O seu caso agitou Espanha há menos de uma década, que acompanhou calorosamente um homem, que queria morrer dignamente, um desejo com trinta anos de imobilidade. As opiniões dividiram-se e o Estado espanhol recusou-se sempre a ceder, devido à inconstitucionalidade do seu pedido. Rámon acabou por morrer, mas como um criminoso, às mãos dos seus amigos.
Em
Mar Adentro, Rámon Sampedro é Javier Bardem, que numa metamorfose fantásica, envelhece vinte anos e confina-se a uma cama. Bardem tem uma interpretação bigger than life, em que consegue ser tudo o que quer apenas numa cabeça: expressivo, comovente, divertido, consciente. E apaixonado. E a sua prestação merece por si só o visionamento do filme. Mas este tem muito mais.
Com efeito,
Mar Adentro é um drama convicto, com intenções lacrimejantes. É certo que o alterna com alguns momentos de diversão, mas não se esquiva ao melodrama. Rámon (Javier Bardem) quer morrer e precisa de ajuda para isso. No entanto, duas mulheres vão entrar na sua vida: a advogada Julia (Belén Rueda), que devido a motivos pessoais, faz sua a causa de Rámon; e a ingénua Rosa (Lola Dueñas), que vai tentar mostrar a Rámon tudo o que faz merecer viver.
Para Alejandro Amenábar tudo é simples. Não se contém na personagem de Rámon, transformando-o em mártir; filma-o, como se de uma personagem mais nos tratássemos, observamos o seu dia-a-dia e tiramos as nossas conclusões: se aquele homem deve ou não ver satisfeito o seu desejo. Aliás, Amenábar nunca tira partido de um lado da opinião, limitando-se a dar vida ao que aconteceu. Duas mulheres, uma de cada lado da facção e uma família, que apesar de dizer pouco, acaba por dizer tudo no filme. O sobrinho Marc (Francesc Garrido), que é o mais alienado de todos, mas que acaba por desejar
que a terra o engula por não ter percebido muita coisa antes; a resignada cunhada Manuela (Mabel Rivera), para quem
a opinião de Rámon é sufiecente; o inconformado José (Celso Bugallo), que ama tanto o irmão que não quer abdicar dele; e o pai (Tamar Novas), que apenas tem uma fala, que no entanto diz tudo -
pior que morrer um filho, é um filho que quer morrer.
Mar Adentro é por isto um drama pujante, sem martírios, que faz do realismo o prato forte. Com um grupo de actores impressionanetes, em personagens cheias de carácter, Alejandro Amenábar filma ainda um belo retrato da Galiza (que bem podia ser Portugal, tamanhas são as semelhanças) num portentoso filme técnico (com uma sequência vertiginosa, em que viajamos em voo rasante pela região), com uma comovente banda-sonora. E no entanto, no final quando devia, a lágrima que é puxada em todo o filme acaba por não cair. Ou terá sido esta a intenção, de apesar de tudo, de não termos de ter pena de Rámon? Eu acho que não.
Mar Adentro é um fantástico McRoyal Deluxe, que pode aumentar consoante a dispsição com que vimos o filme. E quase que o é só pela prestação de Bardem e pelo trabalho técnico de Amenábar. Mas é-o pelo resto também, pela história do marinheiro que ficou em terra.
Posted by: dermot @
12:18 PM
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