Segunda-feira, Março 28, 2005
BLUEBERRY:Título:
BlueberryRealizador: Jan Kounen
Ano: 2004

Ano 1964: dois anos após o canto de cisne do western norte-americano, com o clássico de John Ford
Quem Matou Liberty Valance, os olhares centravam-se do outro lado do Atlântico, nos western spaghettis. Em França, este género ganhava uma extensão literária, através da mente de Jean-Michel Charlier e do lápis do génio de Jean Giraud, vulgo Moebius, que criaram a fantástica banda-desenhada do tenente Blueberry.
Ano 2004: depois de décadas de espera, o ícone da banda-desenhada
Blueberry é adaptado ao cinema, para gáudio dos admiradores (geupo no qual eu me incluo), pela mão do francês Jan Kounen. Os fãs ansiavam ao ver que, para além da estrela francesa Vincent Cassel no papel principal, o elenco contava ainda com o carniceiro Michael Madsen e a bela e rebelde Julliete Lewis. Aparentemente, era o elenco perfeito para uma das mais intensas histórias de acção do cinema.
No entanto, qualquer semelhança entre o tenente Blueberry da banda-desenhada e o do filme é pura coincidência. Jan Kounen quis filmar uma história de misticismo e para tal recorreu à personagem de Moebius menos propícia a isso. Assim, o tenente rebelde e indisciplinado Mike Blueberry é substituído por um gigantesco problema existencial de fantasmas passados, xerife de Palomito e amigo íntimo dos índios; o pó dos westerns spahettis de Sergio Leone (ou mesmo a lama dos western spaghettis de
Django) é substituído pela noite; a corrida ao ouro do oeste americano é substituída por um tesouro místico índio; e as histórias de menos sucesso do cowboy francês, em que este flirta com cogumelos alucinogéneos, são adaptadas livremente a uma fusão entre
Delírio Em Las Vegas e
2001: Odisseia No Espaço, de misticismo shamântico.
Blueberry é um western que nada deve aos outros westerns. Foi essa a intenção do realizador e conseguiu-a plenamente. No entanto, imaginar uma aventura de Blueberry sem tiros, mortos e corridas ao ouro, é o mesmo que imaginar um drama psicológico com o
Exterminador Implacável como protagonista.
Mas mesmo assim, o trabalho de Jan Kounen não é de todo conseguido.
Blueberry faz como Jim Morrison e busca uma inspiração shamântica no deserto; no entanto, ao contrário das alucinações de Oliver Stone no bio-pic
The Doors, Kounen abusa do CGI, em algo indicifrável que nada abona o filme. Aliás,
Blueberry alterna entre o óbvio e o indistinto, em que muitas coisas não são explicadas ou percebidas.
Vincent Cassel é um esforçado Blueberry, mas raramente reconhecemos no actor francês, o rebelde ex-tenente do exérxito sulista. Michael Madsen deambula num registo mediano, que faz lembrar tempos menos bons do actor, perdido em filmes de terceira categoria. E Juliette Lewis acaba por ter os dois melhores momentos do filme, primeiro ao interpretar uma versão da tradicional
Danny Boy e depois numa cena lindíssima de nu debaixo de água.
Fora isto, tudo o resto é indicifrável e experimental. Até o duelo final entre Blueberry (Vincent Cassel) e o seu inimigo, o assassino Wallace Sebastian Blount (Michael Madsen), é decidido através de uma batalha contra os fantasmas interiores(!).
Como ainda não estão disponíveis menus de hamburgas com molho alucinogénico, o veredicto final é um Cheeseburger, que mesmo assim não é castigo suficiente para o que foi feito a um dos grandes ícones da banda-desenhada.
Posted by: dermot @
6:25 PM
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