Quarta-feira, Fevereiro 02, 2005
O CÃO, O GENERAL E OS PÁSSAROS:
Título:
Le Chien, Le General Et Les Oiseaux
Realizador: Francis Nielsen
Ano: 2003
Numa altura em que o cinema de animação tem vindo a aumentar a importância que dispensa à aparência técnica do filme,
O Cão, O General E Os Pássaros é como que uma pedrada no charco, num regresso à animação tradicional. E que agradável é essa pedrada.
O Cão, O General E Os Pássaros não é, no entanto, uma animação de aspecto convencional; a sua aparência faz lembrar os desenhos-animados europeus dos anos 80, num expressionismo a guache e pastel, que faz recordar as pinturas de Marc Chagall. Apesar de bastante interessante, é uma técnica que tem melhores resultados na ilustração.
É de lamentar que este filme não tenha tido uma maior divulgação entre os media nacionais, ainda para mais, quando teve tantos portugueses envolvidos, na fase inicial da produção.
O Cão, O General E Os Pássaros é a adaptação cinematográfica de Francis Nielsen à fábula infantil de Toninho Guerra,
O General E Bonaparte. E apesar de ser uma curiosa fábula francesa passada na Rússia, não deixa de transparecer várias características francesas: o traço do desenho, quase como um
Belleville Rendez-vouz esquissado, ou o ponto de vista tradicional e poético de Jaques Tati, perante a condição dos animais e dos Homens.
O filme conta então a história de um general russo, um herói nacional esquecido pela história, que salvou Moscovo da invasão francesa, às mãos de Napoleão Bonaparte. No entanto, tal salvamento teve um preço: o sacrifício dos pássaros, um preço demasiado alto que o então jovem general não estava à espera de ter de pagar. Agora, já reformado, o general, viúvo, passa os seus dias sozinho e aborrecido, sem nada para amar além de um retrato da sua falecida esposa, assaltado por pesadelos e fantasmas do passado, para além de ser constantemente atacado pelos pássaros sempre que sai à rua, quais vagas de ataque ao som de A Cavalgada Das Valquírias. No entanto, o general vai encontrar um simpático cão – Bonaparte, em homenagem ao seu amigo – e com ele vai travar a sua última e mais nobre batalha.
O Cão, O General E Os Pássaros é assim, uma fábula poética, de contornos naive, com todo aquele simbolismo subliminar pendente, qual La Fontaine, em que os animais vão marcar a sua posição, lembrando aos Homens os seus erros, as suas injustiças e faltas de consideração.
Depois de uma primeira parte de filme competente,
O Cão, O General E Os Pássaros solta as rédeas, rumo à imaginação, em mundos oníricos de humor e poesia, conseguindo finalmente acender a chama da magia, que teimava em permanecer apagada. E depois, até a banda-sonora passa a fazer sentido.
O Cão, O General E Os Pássaros é uma animação bastante interessante e obrigatória numa altura em que temos poucas histórias como esta.
Com uma nostálgica técnica de animação, é um poético McBacon que perde alguma cor, pela tardia fagulha de magia, tão indispensável a tais histórias.
Posted by: dermot @
2:17 PM
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