Sexta-feira, Fevereiro 04, 2005
ENTREVISTA A SOLVEIG NORDLUND:
Solveig Nordlund nasceu na Suécia, mas tornou-se portuguesa por casamento. Assim, o seu trabalho tem-se divido entre os dois países.
É uma das mais interessantes realizadoras a trabalhar em língua portuguesa e o lançamento em DVD do seu último filme,
A Filha, serviu de mote para encetarmos esta conversa.
O Royale With Cheese tem assim o prazer a honra de entrevistar Solveig Nordlund.
Royale With Cheese – Tenho de começar com uma pergunta que é quase obrigatória nesta situação. Quais as diferenças entre trabalhar na Suécia e trabalhar em Portugal? É verdade que é muito difícil fazer cinema em Portugal?
Solveig Nordlund - Eu casei-me muito nova com o realizador português Alberto Seixas Santos e comecei a fazer cinema em Portugal. Só comecei fazer cinema na Suécia depois de me divorciar. Pode-se dizer que há poucos caminhos para fazer cinema em Portugal e a televisao não é uma janela para um cinema jovem e alternativo, como, apesar de tudo, é na Suécia.
RWC – O seu trabalho tem-se pautado ao longo do tempo por várias adaptações de obras literárias, quer no teatro, quer no cinema. Especializou-se também no retrato de alguns escritores para a televisão, como o caso de António Lobo Antunes. Qual a influência da literatura na sua vida e no seu trabalho?
SN - Eu gosto de ler e gosto de me identificar com um escitor/escritora. Nunca tive ambicões literárias mas gosto de participar na escrita dos meus guiões.
RWC – Em
A Filha assinou um drama obessivo entre pai e filho, mostrando ser uma excelente realizadora intimista. Já tinha também abordado anteriormente a temática infantil de abandono e maus tratos em
Dina e Django. No entanto,
Aparelho Voador A Baixa Altitude é um filme fantástico, na área da ficção científica. É então a versatilidade a grande faceta da Solveig Nordlund, ou descreve-se de outra forma?
SN - O conflito entre pais e filhos, entre adultos e crianças é um tema que me toca. Também no
Aparelho Voador A Baixa Altitude o personagem principal é uma criança, embora ausente.
RWC – Focando ainda
Aparelho Voador A Baixa Altitude, a adaptação de um retrato pós-apocalíptico, um género a que não estamos habituados a ver no cinema nacional. É uma admiradora da ficção científica, onde tem algumas referências a apontar, ou foi apenas um caso singluar de amor pela história?
SN - Eu sou uma admiradora da ficção científica, embora me limitando a certos autores. O meu primeiro filme de ficção
Nem Pássaro Nem Peixe foi uma leitura de Lovecraft. Fiz duas curtas metragens baseadas em novelas de J.G.Ballard, cujas histórias admiro muito.
RWC – Voltando a
A Filha. Aqui, Nuno Melo é um pai obcecado pela filha. Este amor obsessivo não pode deixar de lembrar um filme muito particular, do mestre Alfred Hitchcock,
Vertigo. Esta semelhança é propositada, ou não passou de uma coincidência?
SN - Não pensei em
Vertigo quando fiz o filme, mas há semelhanças.
RWC – Trabalhou também no inicío da sua carreira com dois grandes mestres do cinema nacional: Manoel de Oliveira e João César Monteiro. Quer falar destas experiências?
SN - Trabalhei com Manoel de Oliveira em
Amor de Perdição e gostei muito de trabalhar com ele. Admirei a elegância com que resolveu as cenas e a beleza dos seus enquadramentos.
Amor de Perdição foi feito num período difícil da sua carreira profissional, acho que ficámos amigos para sempre.
Trabalhei com João César Monteiro mesmo no início da sua carreira e da minha.
Gosto da sua irreverência e do seu humor. É (tenho dificuldade de dizer foi) um poeta.
RWC – Presumindo que acompanha o cinema nacional, que tem a dizer acerca da escolha de
O Milagre Segundo Salomé para a corrida aos Óscares? Foi a escolha ideal ou a sua teria recaído sob outro filme?
SN - Infelizmente não vi
O Milagre Segundo Salomé. Vou ver em DVD.
RWC – Quanto ao cinema em geral, que influências e referências aponta?
SN - Acho que tento fazer um cinema que toca o espectador tanto pela história como pela
maneira como é realizada. Gostaria de fazer filmes que se assemelham aos romances de Ian McEwan. Gosto de filmes que nos surpreendem intelectualmente e formalmente.
RWC – Agora que terminou o ano, que balanço faz do cinema no Mundo em geral e em Portugal e na Suécia em particular? Tem alguns títulos a apontar?
SN - Acho que o cinema mundial vai bem – o cinema americano, o cinema asiático, o cinema latino-americano, o cinema espanhol, o cinema alemão. Na Suécia os títulos nacionais têm grande sucesso público, mesmo não sendo fáceis ou para rir. Este ano um filme sueco teve 1 milhão e duzentas mil entradas o que é fantástico para um país com 9 milhões de habitantes. Em Portugal
Os Imortais que foi um grande sucesso comercial, teve 50.000 espectadores. Tenho pena que o público português não se identifique mais com o cinema portugues.
RWC – Agora que estamos no final, não posso de deixar de fazer outra pergunta obrigatória: projectos para o futuro? Onde poderemos ver o seu nome num futuro próximo?
SN - Tenho vários projectos de longa metragem tanto em Portugal como na Suécia. Mas tanto em Portugal como na Suécia está a ser difícil conseguir os fundos necessários para uma longa-metragem. Enquanto espero faço curtas-metragens. Fiz em 2004 duas: uma na Suécia outra em Portugal e tenho uma por fazer. Em 2005 espero poder fazer, ou SEDUÇÃO baseado no romance de José Marmelo e Silva, ou ESTOU DE PÉ, uma história de uma mãe e um filho em viagem pelas Ilhas Bijagôs.
RWC – Antes de terminar, gostaria só da fazer um conjunto de perguntas de resposta rápida:
- Um filme especial?
The Night of the Hunter
- Um realizador marcante? Jean Rouch
- Uma cena inesquecível? A cena final de
Solaris de Tarkovski
- Um dos filmes do ano?
Mystic River
- Um actor e uma actriz com que gostaria de trabalhar no futuro?
Portugueses com que ainda não trabalhei - Beatriz Batarda e Nuno Lopes
- O livro que gostaria de adaptar para a grande tela?
Além de
Sedução de Marmelo e Silva,
Os Cús de Júdas de António Lobo Antunes e
Concrete Island de J.G. Ballard
Obrigado pelo tempo dispendido connosco e felicidades para o seu trabalho no futuro, são os desejos do Royale With Cheese e dos seus leitores.
Posted by: dermot @
9:20 PM
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