Terça-feira, Fevereiro 01, 2005
BARREIRA INVISÍVEL:
Título:
The Thin Red Line
Realizador: Terrence Malick
Ano: 1998
Um dos problemas dos filmes de guerra é que caem, na maioria das vezes, na tentação de se limitar às explosões, aos tiros, ao número incontável de mortos e a todo o espectáculo visual do circo de guerra, facilmente apelativo a melodramas lacrimejantes. Com raras excepções, como o caso de Cercados, os filmes de guerra raramente conseguem sobreviver apenas com isto.
Por isto, o desafio é grande e torna-se ainda maior, uma vez que já vimos quase tudo acerca das grandes guerras, seja ela a Segunda Guerra Mundial ou o Vietname, em clássicos como
Patton ou
Tora! Tora! Tora!.
Barreira Invisível foge claramente ao primeiro grupo e insere-se dentro de um segundo grupo dos filmes de guerra, encabeçado por
Apocalipse Now: o lado psicológico desta.
Barreira Invisível é então uma história acerca da desumanização da guerra, algo que raramente vemos escrito nas revistas, ou nas imagens que passam na televisão. Um drama psicológico intenso, sobre os motivos bárbaros de uma atitude injustificável que é a guerra, sobre os conflitos humanos, o binómio vida e morte, a honra e o respeito pelo ser humano.
Mascarado de épico de três horas, é no entanto um poema vestido de novela, ou não fosse o seu realizador o mesmo que assinou
Dias Do Paraíso. Mas o que não podemos esquecer, é que também foi Terrence Mallick quem escreveu o violento e de culto
Badlands.
Depois de ter andado envolvido numa complicada enxurrada de adiamentos, cortes e dúvidas,
Barreira Invisível acabou por ver a luz da vida com cerca de três horas de duração, metade do que o previsto. Este pormenor não era bom agoiro.
Ao fim dos primeiros dez minutos, quase que nos assustamos, ao tomarmos consciência de que o filme parece descambar num sensacionalismo fácil à Bruckenheimer. No entanto, com o desenvolver do filme, começamos a reconhecer a obra de Malick.
Qual é o problema então?
Barreira Invisível é um filme mosaico, sobre algumas vidas que têm em comum o facto de estarem envolvidas na Segunda Guerra Mundial. No entanto, nem todos combatem os mesmos inimigos; cada um destas personagens combate a sua própria guerra. O veículo da história é assim o inconsciente de cada um dos soldados e a guerra é apenas o cenário de um outro conflito mais violento, o interior. É aqui que começam a surgir os primeiros problemas, em que muitas das dissertações pessoais, acabam por ser questões filosóficas de aspecto poético, de qualidade duvidosa, apesar de ter belos momentos - genial o diálogo entre o soldado Witt (James Caviezel) e um cadáver japonês.
Os próprios japoneses aparecem aqui como uma entidade omnipresente, um inimigo opressor sem rosto, tal como as batalhas internas que cada um trava. No entanto, quando a identidade destes é revelada, o opressor para a oprimido, e os fantasmas de uns passam a ser os fantasmas de outros. A conclusão? Somos todos homens,
somos todos carne, como alguém replica no filme, e a guerra é algo sem sentido, que desumaniza, arrasa e até destrói o amor!
Este mosaico de histórias e divagações psicológicas é pincelado com imagens de uma cinematografia exemplar, verdadeiros quadros instantâneos, carregados de um forte carácter simbólico.
E se cada mosaico corresponde a uma personagem que se vai atravessando no filme, os cortes a que o filme foi sujeito na sua edição, acaba por os transformar em algo oco, que não se seguram por vezes. Conseguimos ver a batalha entre a rebeldia da juventude de Witt (James Caviezel) em contraste com a sensatez da veterania de Edward Welsh (Sean Pean) ou o respeito pela vida de Staros (Elias Koteas) com a pouca consideração pela vida do Coronel Tall (Nick Nolte). Fora isto, parecem fantasmas vagabundos, como as personagens de Cusack, Brody, ou mesmo os cameos de Travolta ou Clooney (excepção a Woody Harrelson, cujo aspecto carniceiro, transforma-o num soldado bastante apelativo, credivelmente assaltado por fantasmas).
O experimentalismo não é então um conceito estranho a este filme, que não dispensa mais uma excelente banda-sonora de Hans Zimmer. Terrence Malick não queria estrelas nos papéis principais e por isso,
Barreira Invisível teve o condão de revelar dois homens que, de momento, são dois dos mais respeitáveis actores em Hollywood: Jim Caviezel e Adrien Brody.
Numa mistura de
Apocalipse Now e
O Resgate Do Soldado Ryan,
Barreira Invísivel também mostra ainda um toque de realizador bastante interessante, seja nas intensas cargas dramáticas conseguidas pelos grandes planos, no soçobrar da câmara ao impacto das balas, ou na razia arepiante dos tiros ao espectador.
Barreira Invisível ressentiu-se então das adversidades com que se degladiou, sendo o resultado final apenas um interessante filme sobre a guerra (e não um filme de guerra), sobre a linha invisível que separa o Homem do seu carácter.
E como filme de mosaicos, falta-lhe uma adequada argamassa que conseguisse fixar bem essas peças. Tal falta de consistência é traduzida no McChicken final.
Posted by: dermot @
7:18 PM
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