Quarta-feira, Fevereiro 16, 2005
8 1/2:
Título:
8 1/2Realizador: Frederico Fellini
Ano: 1963

O cinema de Frederico Fellini é um cinema de autor tão específico e importante para a história da sétima arte, que ele próprio é um adjectivo. Hoje em dia é comum ouvirmos falar de ene filmes, aos quais são colados o epíteto de felliniano. Isto deve-se ao seu estilo fantasioso, introspectivo e pessoal, que o realizador transpunha para o grande ecrã.
Sabemos que um filme é especial quando o não conseguimos descrever por palavras. E o cinema de Fellini é impossível de expressar fielmente por escrito.
8 1/2 marca uma importante fase na vida do realizador italiano. Em 1963, Fellini atingia a estagnação criativa, uma altura em que o seu cinema parecia ter atingido o ponto máximo e que agora, ou avançava ou quebrava. Este ponto da vida era uma daquelas alturas em que Fellini, não só começava a pôr em causa o seu talento -
Serei apenas um mentiroso a quem acabou a sorte? - como a sua própria vida.
E que fez Fellini? Deu um passo em frente e reinventou-se, com um filme difícil, mas extremamente criativo, fantasista e inspirado.
Fellini transportou as suas frustrações para a personagem de Guido Anselmi (Marcello Mastroianni), um realizador numa crise criativa, mas já embrenhado no seu próximo filme. No entanto, os prazos a esgotarem-se, as deadlines a aproximarem-se e o dinheiro gasto na produção, começavam a ser pressões de mais para o cada vez mais frágil Guido, que começa a pôr em causa a sua vida: frustração profissional, problemas matrimoniais e dúvidas pessoais. A vida de Guido é uma panela de pressão em ebulição, uma bomba relógio prestes a estoirar.
8 1/2 é um exorcismo de fantasmas passados e o reabrir de feridas mal cicatrizadas, que se confundem entre as de Guido e as do próprio realizador.
O filme é assim um ensaio pessoal, sob a forma de cinema, numa combinação entre a interpretação fantástica de Mastroianni - um grande actor, a mostrar que já não há galãs como antigamente - flashbacks geniais e imagens de caleidoscópio muito boas, tudo ao som de uma banda-sonora clássica.
Neste
8 1/2 conseguimos identificar o caos dos diálogos e das cenas, que Woody Allen se apropriou no seu próprio cinema de autor, ou a folia da música e da dança, que é já uma imagem de marca de Emir Kusturica.
8 1/2 é, assim, um interessante paradoxo de um realizador, que não queria dizer nada e que acaba por dizer tudo, num filme sobre um realizador, que queria dizer tudo num filme, mas que não consegue dizer nada.
Fluído e coerente, apesar do ritmo alucinante de flashbacks, apontamentos e delírios, graças a uma montagem e edição exemplar, é quiçá, uma das obras do mestre Fellini. Para ver e rever.
E ao contrário do título, este não é um oito e meio, mas sim um McRoyal Deluxe redondo!
Posted by: dermot @
12:15 PM
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