Sexta-feira, Janeiro 07, 2005
PEEPING TOM:
Título:
Peeping Tom
Realizador: Michael Powell
Ano: 1960
Em 1960, o grande público chocava-se com a estreia de
Peeping Tom, um thriller de suspense hitchcockiano, rapidamente banido dos escaparates, considerado gratuitamente repulsivo. Hoje, meio século depois, é um clássico seguido com interesse por muitos cinéfilos, que o apelidam de essencial e inspirador. No entanto,
Peeping Tom deve muito mais à segunda palavra do que à primeira.
O filme conta a história do jovem Mark Lewis (Karlheinz Böhm), um jovem inglês obcecado não só com o cinema, mas com o voyerismo, resultado de traumas de infância de um pai pesquisador das reacções nervosas provocadas pelo medo. Esta estranha ligação de obsessões faz Mark Lewis almejar pelo filme perfeito e para isso, procura filmar um documentário acerca da face da morte. Mas a entrada em cena de Helen (Anna Massey) pode fazer alterar as coisas. Ou será esta mais uma vítima?
Peeping Tom explora duas vertentes num só golpe. Porque se directamente é um olho vivo ameaçador e perturbador, numa época em que o único Grande Irmão era um vilão terrível, fruto da novela de George Orwell,
1984, é também um filme sobre o próprio filme, uma história intrincada nos processos técnicos da realização.
Numa época de tabus e pouca tolerância,
Peeping Tom não era quase um filme, mas um testemunho de um crime na primeira pessoa, algo inédito na altura e demasiado perturbador e revelador. Se
1984 já tinha alertado para os perigos da total falta de privacidade,
Peeping Tom era um explícito ataque à privacidade, ao qual o púbico não estava preparado. Neste ponto, foi uma grande influência e totalmente inovador, quando Michael Powell tem a ousadia de filmar na primeira pessoa. Hoje, podemos apontar vários filhos seus, desde
Sexo, Mentiras E Vídeo, de Soderbergh a
Câmara Indiscreta, de Mark Romanek. Até mesmo o jovem cinéfilo de
Beleza Americana é um descendente directo deste
Peeping Tom.
No entanto, algo faz esta exploração pessoal tão descarada manter-se no quase anonimato, quando por muito menos se aposta nos remakes, por exemplo. E a razão pode ser o fraco resultado final, aquém do esperado.
Peeping Tom é um thriller psicológico visualmente cativante. Filmado bastantes vezes na primeira pessoa, conta com uma fotografia e, especialmente, uma edição e montagem magistral. No entanto, ao contrário dos clássicos de Hitchcock, de que não se escusa de ir buscar muita da inspiração (alguém mencionou
Psycho?), acaba por pecar em diversos pontos. E o principal é o do protagonista. Karlheinz Böhm foi sem dúvida uma má escolha. Um jovem inglês com forte sotaque alemão é uma pecha tremenda em qualquer situação que só podia ser ultrapassada com uma magnífica representação. Mas apesar de ter algo de Norman Bates e até de Rutger Hauer, em
Terror na Auto-Estrada. não passa daí. Sem passar do registo de lunático psicopata obsessivo, é um jovem anti-social, incapaz de se relacionar com os demais, muito pouco convincente.
Depois há um argumento com momentos disparatados, como por exemplo a senhora Stephens (Maxine Audley), que podia ter sido uma personagem bastante interessante, mas que acaba perdida entre um dilema existencial duvidoso e a garrafa de whisky; e uma banda-sonora, que apesar dos altos e baixos, prima pelo timing certo, mas nunca sem deslumbrar.
Peeping Tom é um clássico. Uma premissa forte, numa época em que tal era impensável. Revelador e perturbante, foi apenas um clássico mal explorado, que pedia ter sido pegado por outras mãos.
Um McBacon que vale pelo seu carácter inspirador e não tanto pelo seu resultado final enquanto filme.
Posted by: dermot @
9:58 PM
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