Quinta-feira, Janeiro 13, 2005
DE-LOVELY:
Título:
De-Lovely
Realizador: Irwin Winkler
Ano: 2004
Aproveitando a boleia de recentes sucessos como
Moulin Rouge e
Chicago, Irwin Winkler apostou na vida e obra de um dos maiores compositores de sempre, Cole Porter, um biopic em formato musical, antevendo a nova vaga de filmes à volta de estrelas da música, que se aproxima.
O resultado foi
De-Lovely, um original musical que faz juz ao legado de Porter, numa abordagem original, divertida e mágica, como se fosse mais um dos seus espectáculos.
Ao contrário dos comuns mortais, Cole Porter não respirava para viver, mas sim, compunha, algo só ao alcance dos génios e iluminados. No entanto, ao contrário de outros génios, como
Pollock por exemplo, Porter não era um génio imcompreendido. Antes pelo contrário, até era compreendido demais.
Porter vivia do amor, para dar e receber, todos os tipos de amor. Por isso, a sua vida não se resumiu a Linda Cole, a grande paixão da sua vida e fiél companheira até aos últimos momentos: os flirts constantes com outros homens era algo bem presente na sua vida e isso passa bem explícito no filme. Porque fazia parte da sua vida; assim como a música, o entretenimento e a boa-disposição.
Cole Porter era assim um showman, um homem extrovertido, aberto e abnegado. E assim também o é Kevin Kline. Num grande papel, talvez o melhor da sua carreira desde
Um Peixe Chamado Wanda, Kevin Kline tem todas as possibilidades de dar liberdade à sua explosão representativa, que faz lembrar o à-vontade de Jim Carrey, mas sem o overacting.
No entanto, não é só Kevin Kline que brilha, no papel andrógena de Cole Porter. Também Ashley Judd irradia glamour, numa belíssima Linda Porter, provando que o seu último filme não foi mais que um acidente de percurso e que é uma grande actriz.
A química entre os dois é perfeita e não podiamos imaginar um par mais indicado para um filme tão mágico.
Irwin Winkler assina assim um musical deveras original, que apesar de seguir os cânones tradicionais do cinema académico, na golden age norte-americana, mas com resquícios da belle epoque francesa, acaba por surpreender pela novidade. Porque Porter não era um indivíduo comum, ao contrário do comum filme que foi
Noite E Dia, o anteiror biopic de Cole Porter.
No início, Porter despede-se da vida afirmando que se acreditasse em Deus, este seria um dançarino-cantor, provavelmente, com uma das suas canções nos lábios. É este o espírito de
De-Lovely - um espectáculo musical, visual e auditivamente cativante, orientado para a música, onde a história e os momentos mais marcantes são contados pelas canções, em originais e pertinentes coreografias.
De-Lovely é a biografia de Cole Porter em musical, revisistada pelo próprio, qual fantasma do Natal, com os seus comentários como banda-sonora, ao ver a sua vida discorrer naquele palco, que não é nada mais que o palco da vida.
Kevin Kline e Ashley Judd não só estão sublimes na representação, como ainda estão bastante bem nas representações vocais; no entanto, as aparições de grandes artistas desde Robbie Williams até Diana Krall, passando por Alanis Morrissette, dão o toque final.
De-Lovely é uma mágica biografia musical de um homem que cantava a vida, um dos mais importantes rostos da música contemporânea.
É um filme cronológico, que se inicia na maturidade de Porter e vai até aos seus últimas dias, com um Kevin Kline envelhecido e de cabelo platinado, de grande qualidade. E tal como a sua vida, também o filme vai baixando a chama, com a música a sofrer interrupções, tal como a sua vida sofreu. E apesar dos hiatos históricos, nunca nada fica por contar e tudo parece extremamente bem encaixado, numa edição fantástica, em que não há cortes de imagens, apenas mudanças de cena, em planos desvancentes.
É certo que há histórias truncadas e alterações à realidade devido a motivações narrativas, mas faz parte do espírito do filme. E aceita-se completamente, uma vez que servem para manter a magia no ar, quais fadas esvoaçantes em clima de festa. Se nem os filmes históricos obedecem à realidade literal, porque o exigir num biopic musical mágico de liberdade artística? Porque exigir que as canções discorressem em ordem cronológica, se elas colorem tão bem acontecimentos anteriores à sua composição?
Cole Porter foi um génio e um homem admirável. E se a sua vida não foi assim, pelo menos devia ter sido. Por isso, que a nossa última sua recordação seja como
De-Lovely: mágica!
Um McRoyal Deluxe, versão super menu, mas que para admiradores de musicais e, principalmente, de Cole Porter - mas abertos de espíritos e jovens de coração - será um Le Big Mac.
Posted by: dermot @
9:57 AM
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