Segunda-feira, Janeiro 17, 2005
CICLO CREMASTER:
Título:
Cremaster
Realizador: Matthew Barney
Ano: 1995 a 2002
Pela primeira vez em Portugal, o ciclo
Cremaster andou em digressão pelo país, em versão completa, ou seja, na transmissão dos cinco filmes integrantes, em sessões divididas por três dias.
Antes de continuar, há no entanto que explicar para quem não sabe, o que é o ciclo
Cremaster.
No poster promocional que acompanhava a digressão, sobressaía um parágrafo citando o jornal The Guardian, que dizia
o belíssimo ciclo Cremaster de Matthew Barney é a primeira grande fusão entre a arte e o cinema desde o Um Cão Andaluz de Buñuel. É verdade, mas limitar o ciclo a esta definição é o mesmo do que definir
O Feiticeiro De Oz como um filme acerca de uma jovem que é transportada para um mundo alienígena, onde mata uma mulher por engano, indo mais tarde, conspirar com mais três colegas, a morte de outra mulher.
Ou seja, o ciclo
Cremaster é mais do que isto, é mais do que cinema; o ciclo
Cremaster é o que se pode chamar de "arte total", uma fusão de várias formas de arte, desde o bailado até à escultura, passando pela música ou pela fotografia, condensado sob a forma de cinema. Por isso é um engano tomar o ciclo
Cremaster como um conjunto de filmes, ou até mesmo, como cinema. O ciclo
Cremaster é arte, introspectiva e surreal.
Esclarecido este ponto, passemos para os filmes em geral. Dividido em cinco partes, o ciclo
Cremaster é um conjunto de cinco peças, sempre em linguagens diferentes, mas com uma essência semelhante. Cremaster não é só o músculo que estimula os testículos; é também desejo, testosterona e transcendência. É delírio visual e tempestade mental!
Tal como
Um Cão Andaluz, também este conjunto é uma fusão entre cinema e arte. No entanto, enquanto que o primeiro se limitava ao surrealismo, este abraça o minimalismo, o abstracionismo e até o dadaismo. E porque não o brutalismo?
Cremaster é o mais belo exemplo de arte contemporânea e um piscar de olho ao pós-modernismo.
Tentar pôr o ciclo
Cremaster em comparação com algo é uma tarefa quase hercúlea. No entanto, arrisco a dizer que talvez possamos chegar a uma ideia, se imaginarmos uma fusão de um David Lynch alucinado e encharcado em ácidos, com os desenhos-animados do saudoso Vasco Granja, com
Um Cão Andaluz e com
Fantasia.
Cremaster não é um filme; não conta uma história, apesar de ter intenções narrativas. Junta personalidades famosas de várias áreas, como Ursula Andress, Richard Serra ou Dave Lombardo, em cenários arquitectónicos ou naturais belíssimos, como a Ilha de Man ou o Museu Gugganheim de Nova Iorque, para dar vida e tom a fotografias visuais e musicais.
Por isso, o ciclo
Cremaster não pode ser avaliado e abordado como cinema vulgar.
Para quem pensa em assistir, aconselho a condensar muita coragem, paciência e uma grande abertura de espírito. E para quem acha que pode arriscar, aconselho ainda a dissecar o máximo de sinopses antes de enfrentar o filme.
Por tudo isto, o ciclo
Cremaster não se vai sujeitar a uma avaliação de hamburgas. Apenas tombará sobre uma aprovação ou uma não aprovação. E no meu caso pessoal é o segundo caso.
Não que seja mau; é uma excelente obra artística, com um inegável valor. No entanto, sob a condição de cinema, é uma experiência morosa. O valor cativante e as sequências interessantes não justificam cinco filmes. Acredito que os cinco condesados num fariam algo extremamente agradável.
Mas isto sou eu...
Posted by: dermot @
6:46 PM
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