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Royale With Cheese | ||
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É com consciência tranquila de quem fez o seu trabalho bem feito que o Royale With Cheese assiste ao final de mais um ano de fortuna e infortuna. Em termos gerais, 2004 foi um ano bastante activo, no que diz respeito ao cinema. Apesar das poucas expectativas apontadas a 2004, o balanço acabou por ser deveras positivo, com várias estreias de sucesso inegável, muitas das quais o Royale With Cheese teve o previlégio de acompanhar. Foi um ano com vários desaparecimentos de vulto, óbitos lamentáveis de Marlon Brando, Cristopher Reeves, Russ Meyer ou Janet Leigh. No entanto, muitas outras estrelas despontaram para o firmamento. Por isso, só podemos esperar coisas boas de 2005. Particularmente, 2004 também foi um ano deveras positivo para o Royale With Cheese. Com apenas alguns meses de vida, fomos convidados a integrar o elenco de fundadores da Academia de Blogs de Cinema de língua portuguesa, uma associação que pretende marcar posição no panorama cinematográfico luso-brasileiro. Depois de algum inércia, eis que a ABCine volta à actividade, com bastantes novidades num futuro próximo. Podem ir acompanhando os desenvolvimentos no site oficial, mas podemos adiantar que serão muitas as novidades. Particularizando ainda mais e centrando-nos agora na ABCine, temos o prazer de anunciar que decorrerá em 2005 a primeira entrega dos Prémios Luimière. Será um galardão que distinguirá o que melhor estreou nas salas de cinema portuguesas e brasileiras, em várias categorias. Os nomeados serão apresentados dia 18 de Janeiro e dia 30 serão anunciados os vencedores.
Por fim e antes de desejar um excelente ano de 2005, cheio de cinema, queria só garantir que o Royale With Cheese prosseguirá o seu trabalho como o tem feito até aqui, na crítica opinativa do maior e mais variado número de filmes que for possível. E quanto a surpresas podem ir contando com umas. Para já, apenas posso adiantar que na primeira semana de Janeiro, Nuno Markl será convidado para brincar connosco com os brinquedos do Happy Meal. Segunda-feira, Dezembro 27, 2004 RRRrrrr!!! Título: RRRrrrr!!! Realizador: Alain Chabat Ano: 2004
Alain Chabat é um nome com bastante interesse no mundo do cinema de humor, não só na sua França natal, mas em todo o mundo, graças ao sucesso da sua adaptação de Astérix E Obélix: Missão Cleópatra. Por isso, o seu nome no topo do cartaz do filme fazia antever um divertido serão na companhia de RRRrrrr!!! Desengane-se então. É verdade que Alain Chabat é creditado como o realizador do filme, mas RRRrrrr!!! é quase na exclusividade um produto do imaginário do grupo de comediantes Le Robin De Bois. Depois deste filme, poderá quase dizer-se, com uma ponta de maldade, que os Le Robin De Bois são os Monty Phyton's franceses, mas sem piada. Com efeito, RRRrrrr!!! apresentava desde início uma premissa interessante. Não era só o título curioso, mas também a ideia de satirizar a pré-história, com todas as suas limitações. Um tipo de filmes sem grandes ideiais, numa altura de indivíduos sem grandes ideias. Parecia perfeito e esperava-se algo a roçar um Onde Pára A Polícia ou um Top Secret. RRRrrrr!!! é a história de duas tribos da idade da pedra; a dos Cabelos Lavados, que detinham o segredo do champô; e a dos Cabelos Sebentos, que ansiava por essa mesma fórmula. No entanto, como a guerra ainda era algo obsoleto na mentalidade daquela gente, o confronto entre ambas as tribos resumia-sa a uma acesa rivalidade. Mas a ocorrência do primeiro crime da história, um misterioso assassinato dentro da tribo dos Cabelos Lavados, vai levar a uma série de recambolescas peripécias que, como não podia deixar de ser, vai desencadear uma história de amor proibida e um consequente happy ending. RRRrrrr!!! segue assim o imaginário de Flinstones, mas nunca consegue levantar voo. Esboça alguns sorrisos, consegue ter mesmo piada em alguns (raros) momentos, mas mantém-se pela mediania e pelo óbvio. A parte de maior destaque acaba por ser o imaginário pré-histórico resgatado a Flinstones, já que as referências a outros filmes (prática corrente neste tipo de sátiras) quedam-se por umas parcas e fracas chamadas a Sinais e a Apocalipse Now. Mesmo a presença de Gerard Depardieu é aborrecida, como se o próprio actor fosse um espelho do nosso estao de espírito enquanto assistimos o filme. RRRrrrr!!! é então uma grande desilusão, antes de ser aborrecido. Porque apresentava uma premissa que tinha tudo para ser engraçada, bons actores, uma excelente banda-sonora e um universo ainda pouco explorado. No entanto, na maior parte das vezes, não passaram das situações já exploradas noutras ocasiões. O que levou Chabat a aceitar participar no filme? O motivo é desconhecido. RRRrrrr!!! até faz sorrir de quando em vez, mas acaba por ser como a piada que tem graça, mas que a perde quando é exagerada em demasia e repetida vezes sem conta. Non sense esticado em demasia, em que é de elogiar, no entanto, a coragem de pisarem fora do politicamente correcto. O veredicto é um fraquinho Happy Meal, em que o brinquedo é melhor que a refeição.
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11:45 PM Domingo, Dezembro 26, 2004 O FEITICEIRO DE OZ: Título: The Wizard Of Oz Realizador: Victor Fleming Ano: 1939
Uma mensagem escrita precede o início do filme, avisando-nos que esta é uma história com muitos anos de vida, que continua a fazer as delícias dos demais. Como se o aviso fosse necessário, tal é a reputação que O Feiticeito De Oz detém em todo o mundo. Adaptação de um dos mais célebres contos infantis norte-americanos, O Feiticeiro De Oz é uma história de crianças para adultos, que está para o cinema, assim como O Principezinho está para a literatura. Para entendermos a magia e a importância deste clássico intemporal, basta termos em conta o facto de ser um dos filmes com passagem televisiva obrigatória nos Estados Unidos. O Feiticeiro De Oz conta a história de Dorothy (Judy Garland) que, juntamente com o seu cão Toto, é transportada por um tornado para um mundo mágico e alternativo. Aí, a única forma de regressar a casa, no Kansas, é encontrar o poderoso Feiticeiro de Oz. Na sua jornada, vão-se-lhe juntar o Espantalho (Ray Bolger), que procurava por um cérebro; o Homem-de-Lata (Jack Haley), que ansiava por um coração; e o Leão (Bert Lahr), que almejava por coragem. Os estúdiso da MGM apostaram tudo neste filme e mesmo com a dança de realizadores, conseguiram tocar na vitória. Conseguindo alcançar a magia ímpar da Disney, O Feiticeiro De Oz era uma bela conjugação do imaginário de Alice No País Das Maravilhas, com Branca De Neve e Os Sete Anões e Peter Pan. Para isso, recorreram-se de uma fábula fantástica, estreando a técnica technicolor, para criar um universo colorido inesquecível, num belo contraste com o universo real em tons de sépia. O Feiticeiro De Oz é magia, mas é ainda mais que isso. É magia no folclore abordado, fabuloso e apaixonante, e é magia no misticismo e psicadelismo; para isso, atende-se às espantosas "coincidências" com a posterior obra-prima dos Pink Floyd, Dark Side Of The Moon. O Feiticeiro De Oz é ainda mais do que isso. É uma mensagem moral, recheada de simbolismos e crítica social. Se de um lado é a bonita história de quatro companheiros de viagem, que afinal são um só, e que tomam consciência dos importantes valores da vida, por outro lado é a crítica de uma jovem do povo, muito terra-a-terra (Dorothy), que trava contacto com a indústria (Homem-de-Lata), a política (Leão) e a actividade rural (Espantalho), e que para atingir os seus fins, terá que percorrer a Estradas Dos Tijolos Amarelos, ou seja, o ouro como caminho e motivo. Mas O Feiticeiro De Oz ainda não fica por aqui. É uma belíssima jukebox de canções memoráveis, ou não fosse Somewhere Over The Rainbow a mais bela canção do cinema. E é aind aum espectáculo visual cativante, de efeitos especiais arcaicos, mas eficazes. Uma última referência ainda ao elenco: Judy Garland deslumbra, apesar de muito jovem, à semelhança do que acontecera um ano antes, com Shirley Temple; os seus três companheiros de viagem são excelentes nos maneirismos e na caracterização dos bonecos que encarnam e extremamente convincentes na expressividade sentimental; e Margaret Hamilton será sempre a mais genial bruxa da sétima arte - estará para a figura de bruxa, assim como Bella Lugosi estará para a de Drácula e Boris Karloff para a de Frankenstein. Arrepiante, a maneira como ameaça I'm gonna get you my pretty and your little dog Toto, too. Se este filme não é um Royale With Cheese, não sei o que será. Um universo à parte, que utiliza o cinema enquanto máquina de sonhos. Mas para os que não são jovens de coração, compreendo que possa ser um Le Big Mac.
Sexta-feira, Dezembro 24, 2004 HOMEM-ARANHA: Título: Spider-Man Realizador: Sam Raimi Ano: 2002
Homem-Aranha foi um dos pioneiros da nova vaga de super-heróis que invadiu Hollywood há um par de anos atrás e um dos que ficou para trás após a primeira experiência dos anos 90. No entanto, o seu sucesso mediático tornava-o num herói que não podia ser tratado de forma leviana e Hollywood tinha noção disso. Assim, após James Cameron ter abandonado um projecto que arrastava desde 1995, Sam Raimi, um mestre da fantasia e realizador de culto de um público de série B, graças à sua triologia Evil Dead, foi o escolhido. A sua escolha foi quase unânime e o resultado final provou que não foi errada. Um dos públicos mais difíceis de agradar nestas adaptações são os fãs das bandas-desenhada; um seguidor e admirador das aventuras desenhadas de um super-herói não vai deixar passar impune qualquer incoerência ou algum facto truncado da história em causa. Por isso, o trabalho de Raimi, que fez valer a sua faceta de admirador de banda-desenhada, centrou-se em primeiro lugar nessa vertente. Claro que adaptar quarenta anos de história de comics em apenas um filme é uma tarefa hercúlea, para não dizer impossível, de se fazer fielmente; no entanto, há que saber trabalhar a adaptação. E apesar de alterar alguns (muitos?) factos - alguns deles mesmo dispensáveis, como a armadura ordinária do Duende Verde, qual Power Ranger, ou o pormenor de as teias do Homem Aranha serem resultado do seu próprio corpo - Sam Raimi acaba por ganhar a aposta dos trunfos que fez. O Homem Aranha foi desde o princípio um dos super-heróis mais mediático e com maior aceitação por parte do grande público devido a dois factos importantes: primeiro, devido ao facto da maioia dos leitores se identificarem com a personagem de Peter Parker - um adolescente com problemas na escola, timido demais para convidar para sair a rapariga dos seus sonhos, Mary Jane, problemas em arranjar emprego e dificuldades em pagar a renda mensal de casa. O outro facto, reside no facto de o Homem-Aranha não ser um herói comum. Ou seja, os problemas pessoais de Peter Parker afectam a vida do Homem Aranha e vice-versa. Sam Raimi soube então usar estas premissas como o ponto fulcral do seu filme, resistindo à violência gratuita e desenfreada, à pirotecnia abundante e os confrontos épicos entre sobre-humanos. Foi este o trunfo de Batman, de Tim Burton e é este o trunfo de Homem-Aranha. Sam Raimi não se resignou a registar a origem e as aventuras do herói aracnídeo; trabalhou também a vida de Peter Parker, os amores e desamores, a sua vida profissional e a sua vida emocional. E focou uma premissa importantíssima: grandes poderes trazem grandes responsabilidades. Foi um trio interessante de actores que encarnaram os papéis principais. Se no caso de Kirsten Dunst e James Franco, foi um retorno à adolescência, depois de Virgens Suicidas e Freeks And Geeks, respectivamente, e tal não provocou grande surpresa, já a escolha de Tobey Maguire foi uma agradável surpresa. È certo que nenhum dos três deslumbra, mas actuam numa base de grande segurança, perspectivando um bom futuro pela frente. Kirsten Dunst mostra que não é só uma cara linda, em vésperas da sua prova de fogo, às mãos da sua madrinha Sofia Coppolla, no papel de Maria Antonieta; James Franco mostra todas as suas apetências como o novo James Dean, pelo menos em temros físicos; e Tobey Maguire é um excelente colegial, o retrato perfeito do miúdo de óculos que há em todas as escolas, a quem roubam sempre o dinheiro do almoço. Só é pena não haver a química entre Peter Parker e Mary Jane que devia haver, assim como há entre Clark Kent e Lois Lane em Super-Homem. E depois há Willem Dafoe no papel do némesis do Homem Aranha, provando que é um grande actor, mas que não sabe escolher, na maioria das vezes, os papéis certos - e que grande cena a sequência em que fala com o seu alter-ego através do espelho. Homem-Aranha é assim uma adaptação bastante competente do universo aracnídeo da Marvel. Uma introdução bastante segura de Sam Raimi, a preparar mais uma triologia, onde promete retratar um Peter Parker em primeiro lugar, em detrimento de um Homem Aranha. Não esperem jorros de adrenalina e combates épicos (tanto para mais que a interacção entre o Homem Aranha e o Duende Verde não é o mais convicente do filme), mas esperem sempre um agradável blockbuster que não deixa enjoar as pipocas. E o McBacon justifica-se, nem que seja pela cena do beijo, com o Homem Aranha de cabeça para baixo, que promete ficar na história das cenas românticas da sétima arte.
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11:03 PM OCEAN'S ELEVEN - FAÇAM AS VOSSAS APOSTAS: Título: Ocean's Eleven Realizador: Steven Soderbergh Ano: 2001
Raramente, um remake é superior ao filme original. No entanto, este Ocean's Eleven - Façam As Vosas Apostas é uma clara excepção à regra. Steven Soderbergh, um dos grrndes realizador da actualidade, readaptou o original Os Onze Do Oceano, de 1960, um aborrecido filme acerca de um assalto, num dos mais profícuos filmes cool da última década. E o truque residiu em grande parte aqui! Se em 1960, Lewis Millestone contava com Frank Sinatra e Dean Martin nos principais papéis, Soderbergh foi mais longe ao recrutar uma panóplia de actores de alto gabarito: George Clooney, Brad Pitt, Andy Garcia, Matt Damon e Julia Roberts. O resultado foi o recuperar de uma mística bem própria dos anos 60, do charme e carisma dos grandes heróis dessa década, uma mistura de James Bond, o Santo e Steve McQueen. Ocean's Eleven - Façam As Vossas Apostas é assim um filme bastante cool, com aquela áurea especial. Uma amálgama de Pulp Fiction, mas com o espírito de Jogos Quase Perigosos, acerca do submundo do crime dos Estados Unidos. E essa áurea é conseguida não só com a presença de Clooney ou Pitt, mas também com a banda-sonora, original do próprio 'Rei', Elvis Presley e com o próprio background do filme, ou não se passasse este no 'recreio da América', Las Vegas. Danny Ocean (George Clooney) é um assaltante profissional, que mal acaba de pisar o solo da liberdade, após quatro anos preso, decide pôr em prática o maior golpe da história - roubar simultaneamente, os três maiores (e consequentemente, os mais bem guardados) casinos de Las Vegas, propriedade de Terry Benedict (Andy Garcia). Para isso, vai precisar não só da cumplicidade do seu parceiro Rusty Ryan (Brad Pitt), mas de uma extensa equipa de profissionais. Estes onze golpistas vão então pôr em prática uma série de esquemas que vai determinar o sucesso ou o insucesso da missão. Façam as vossas apostas! Para transformar a golpada em algo de fabuloso e de expectativa até ao último segundo, Soderbergh vai recorrer constantemente a flashbacks, a reconstituições e a alguns twists, para manter o ritmo e a dinâmica até ao fim, recorrendo mesmo à técnica do meste Hitchcock, do mcguffin, espalhando algumas pistas ao longo do filme (mas sem a mão segura do mestre). O resultado é perfeito - tudo fica em aberto até aos últimos instantes, muitos pormenores vão sendo revelados ao longo da narrativa e muitos contratempos vão-se atravessando no caminho, proporcionando um assalto complexo e sem furos de argumento (pelo menos, notáveis). Do rol de actores, não se poderia pedir mais. Estão todos em grande nível: um George Clooney a fazer uso de todo o seu charme e carisma; um Brad Pitt em grande forma; um Andy Garcia no papel de playboy, aquele que faz de olhos fechados; Julia Roberts no papel de femme fatale; e o resto da equipe numa divertida adopção de maneirismos que transformam cada personagem num boneco com alma e matéria. Apenas um senão para a montagem e edição de algumas cenas, através de truques gráficos, uma opção algo duvidosa. Ocean's Eleven - Façam As Vossas Apostas é assim um excelente e divertido filme, destinado a fazer passar um belo serão de entretenimento a qualquer pessoa. Tem todos os ingredientes para agradar a qualquer um e não desfrauda expectativas. O final em aberto para a sequela, apenas pede que não baixe o nível. Um Royale With Cheese muito cool e um martini... shaked, not stirred.
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12:01 PM Quarta-feira, Dezembro 22, 2004 SORTE NULA: Título: Sorte Nula Realizador: Fernando Fragata Ano: 2004
Fernando Fragata, realizador do blockbuster Pesadelo Cor-de-rosa, voltou aos filmes ao assinar este Sorte Nula, uma produção independente de baixo orçamento. Rapidamente se percebia que o filme fugia ao característico filme português, longe dos retratos poéticos e morais do Portugal profundo e Fragata, para contornar a falta de apoio por parte do ICAM, refugiou-se entre uma massiva campanha publicitária na internet e recrutou um elenco mediático para a suportar. O resultado foi que as opiniões se extremaram: de um lado, os críticos conservadores que arrasaram o filme; e do outro, os mais liberais que elevaram Sorte Nula como um dos melhores filmes nacionais de sempre. A verdade é que nenhuma destas facções está certa. Sorte Nula não é um grande filme, mas também está longe de ser o fracasso que muitos vaticinaram. Para quem viu Pulsação Zero, Sorte Nula é quase uma sequela em formato longa-metragem. Alberto (Hélder Mendes) é um jovem empresário que na véspera de partir secretamente para o Brasil, é ameaçado e confrontado pelo seu ex-sócio, Chico (António Feio). No entanto, quando este aparece misteriosamente morto, as peripécias começam a suceder-se a um ritmo alucinante, envolvendo polícia (Rui Unas e Bruno Nogueira), a esposa de Chico (Adelaide de Sousa) e muitos outros. Quando pensas que nada pode piorar, eis que acontece. É esta a máxima de Sorte Nula. Longe do esteriótipo do filme português, Fernando Fragata assina uma narrativa dinâmica e cheia de ritmo, rcheada de twists, cambalhotas à frente e cambalhotas à rectaguarda. Não se pode acusar o filme de ser chato, mas Fragata estica a corda até ao limite, parando porém antes de partir. Se a qualidade de imagem é deveras pobre, os actores são por sua vez geniais. António Feio brilha num curto espaço de tempo; Rui Unas cimenta uma carreira curta, mas séria, que se inciou em Os Imortais; Bruno Nogueira aparece numa prestação bastante segura; Adelaide de Sousa volta aos nossos ecrãs da melhor amneira; e Hélder Mendes encarna bastante bem o protagonista. Apenas Tânia Miller parece estar abaixo da média. No entanto, é Carla Matadinho a protagonista do pior momento do filme, mas sem ser culpa sua. Uma cena de striptease ridícula, despropositada, que aterra no meio do filme como um objecto estranho - situação completamente gratuita, com o intuito de mostrar corpos desnudados. Apesar deste lamento e da pouca exploração da banda-sonora - que podia ser um interessante trunfo nesta situação - Sorte Nula é um divertido e agradável filme, que não ofende ninguém. Para se ver agarrado ao balde de pipocas e ao McBacon, num domingo à tarde.
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12:05 PM Terça-feira, Dezembro 21, 2004 DIÁRIOS DE CHE GUEVARA: Título: Diarios De Motocicleta Realizador: Walter Salles Ano: 2004
Che Guevara é um dos maiores ícones do nosso tempo, símbolo máximo não só da revolução cubana, mas personificação da luta contra a globalização, contra o capitalismo e a favor da unificação dos povos. Che Guevara lutou durante a sua vida pelos ideiais em que acreditava e morreu sobre eles. Diários De Che Guevara não é, no entanto, um filme político, nem tenta passar qualquer mensagem política, seja ela de que espécie for. Por isso, a tradução do titulo, foi um dos momentos mais infelizes do cinema português deste ano, numa tentativa fácil e ridícula de conquistar espectadores através do nome do revolucionário argentino. Ernesto Guevara de la Serna (Gael García Bernal) e Alberto Granado (Rodrigo De la Serna), estudante de medicina e bioquímico respectivamente, eram dois jovens argentinos que nos anos 50 decidiram empreender uma viagem de mota, que baptizaram de A Poderosa, pelo continente sul-americano, qual inter-rail, com o intuito de conhecerem melhor a América do Sul. Os acontecimentos pelos quais passaram os dois jovens marcaram-nos profundamente e mais tarde, quando o jovem Ernesto passou a ser conhecido como Coronel Che Guevara, talvez esta jornada explicasse alguma coisa. Diários De Che Guevara não é um relato de acontecimentos épicos. Como o próprio escreveu, é apenas a história de dois amigos, cujas vidas correram paralelamente em determinada ocasião, com objectivos e ideias comuns, numa busca e numa introspeção pessoal e ímpar. É um filme desprovido de qualquer pretensão, sem narrativas corriqueiras e lugares-comuns. Um relato verídico de uma viagem inesquecível, que o próprio Alberto Granado confirmou, de lágrimas nos olhos, após assistir à ante-estreia do filme. Walter Salles assina assim uma mistura de road-movie com bio-pic retrospectivo, com grande mestria de câmara, assente numa fotografia e edição estrondosa e uma banda-sonora bastante segura. Despindo qualquer ideologia política, Salles limita-se a mostrar com uma crueza realista o que o par de amigos passou, numa tomada de consciência da vida e do mundo. Não podes conhecer o homem, se não o conheceres por dentro, diz o adágio. E a melhor maneira de conheceres o homem, é conheceres a sua cultura, atesta o bom-senso. Estas duas máximas assentam como uma luva nesta jornada aventureira. E o resultado não foi falhado. Um relato dramático da realidade sul-americana, nomeadamente da beleza e do humanismo do Perú. Gael Garcia Bernal e Rodrigo de la Serna são dois jovens de créditos firmados, principalmente o primeiro. Encarnando duas personagens coerentes, os dois complementam-se perfeitamente com uma química perfeita e apesar dos pozinhos de humor que o segundo espalha pelo filme, é o primeiro que arrebata o filme para si, a maior parte o tempo. Mais uma grande prestação de Bernal, provando que é um dos mais promissores actores da actualidade, senão já uma confirmação absoluta. Diários De Che Guevara arrisca-se assim a entrar para a galeria dos grandes clássicos do cinema, pela sua simplicidade, a sua força e a sua carga dramática, pelo realismo de cada situação. Walter Salles prova aos mais cépticos que não é um realizador vulgar e o ícone Che Guevara ganha consistência física nos seus ideiais fortes. Uma grande aventura que nos faz desejar empreender numa jornada igual, esperando que um dia as nossas rugas tenham algum sentido. Até lá, contentemo-nos com um Royale With Cheese, que é o máximo que podemos dar.
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12:13 AM Segunda-feira, Dezembro 20, 2004 BARBARELLA: Titulo: Barbarella Realizador: Roger Vadim Ano: 1968
Em 1968, Jane Fonda era elevada a ícone sexual, à semelhança do que iria ser Brigite Bardot ou Marylin Monroe, à custa das suas longas pernas e à exposição pelo panfleto pró-sexo de Roger Vadim, Barbarella, adaptação da banda-desenhada de enorme sucesso. Apesar do imaginário fantasioso semelhante ao do outro super-heróis Flash Gordon, Barbarella não era mais que uma metáfora alegórica de uma característica época, os selvagens anos 60, a favor da liberação do sexo e acerca da salvação do corpo e da mente através do amor. Era o flower power, a paz e o amor, mas também os ácidos, os alucinogéneos e o psicadelismo. Barbarella (Jane Fonda) é uma agente espacial num futuro longíquo em que o universo se encontra mergulhado em paz e harmonia. No entanto, o desaparecimento de um cientista, de seu nome Durand Durand (Milo O'Shea), num planeta recôndito faz a heroína procurar o seu resgate, uma vez que a sua invenção, uma poderosa arma futurista, pode desencadear a guerra geral. No entanto, o que a heroína não esperava era encontrar SoGo, uma cidade de preversão e depravação moral, ou não fosse o seu nome uma referência a Sodoma e Gomorra, que tal como na história bíblica, acaba por perecer às mãos do seu criador. Mas Barbarella não é só isto. A sua nave é cor-de-rosa com o interior forrado a veludo. O computador central é gay. E os humanos fazem amor através de uma pílula e sem contacto físico. É assim o universo retro-futurista do filme, um delírio de entretenimento kitsch, em que qualquer oportunidade é pretexto para fazer valer as virtudes de uma Jane Fonda em tempos de glória. Numa época de revoluções culturais, políticas e sexuais, nada melhor do que utilizar a tão em voga ficção-científica para propular os anseios do presente num futuro metafórico, mas sob a forma de veículo de entretenimento de imaginação sem limites. Barbarella é assim um acid-film, resultado de um universo psicadélico, ou não estivesse o próprio David Gilmour na compisção da fabulosa banda-sonora. Barbarella é uma deambulação por peripécias sexuais de impulsos incontroláveis, como que um Austin Powers cosmológico de um futuro afogado em ácidos. Com uma abertura de deixar qualquer um de boca aberta, num strip sensual de Jane Fonda, Barabarella tem o seu clímax quando a própria heroína quase morre numa máquina de tortura de prazer, instrumento que no entanto não resiste à sensualidade da bela Barbarella. Um filme fora do baralho, numa época em que tal era permitido e compreensível, que se tornou facilmente um filme de culto, à semelhança de exercícios parecidos como The Rocky Horror Picture Show, como um bom espólio de lixo pop. Um McBacon para devorar com abertura e sentido de humor.
Domingo, Dezembro 19, 2004 NAPOLEON DYNAMITE: Título: Napoleon Dynamite Realizador: Jared Hess Ano: 2004
O selo da MTV apresenta este filme que, contra todas as previsões, fez furor por todos os festivais de cinema por onde passou, nomeadamente o de Sundance, o que originou uma acesa disputa entre produtoras pela distribuição de Napoleon Dynamite, o qual foi ainda acrescentado um epílogo, de forma a reestrear o filme nos cinemas. No entanto, parece um pouco irónico aparecer a MTV como uma das parceiras de um filme que dobra e vinca a América por um grupo social de fraca formação, quando a própria estação televisiva acaba por ser uma das marcas que esteriotipam a sociedade actual. Napoleon Dynamite (Jon Heder) é um jovem norte-americano do interior dos Estados Unidos, que parece coleccionar todos os esteriótipos do jovem inadaptado amante de artes marciais e guerreiros medievais. No entanto, quando reparamos no seu irmão Kip (Aaron Ruell) ou no seu tio Rico (Jon Gries), apercebemo-nos que afinal Napoleon é o mais normal daquela casta. Napoleon Dynamite é assim um circo de bizarraria, uma colecção dos mais variados cromos, aqueles que são sempre os mais difíceis para completar a caderneta. Não é a primeira vez que é abordado no cinema, o tema dos chamados geeks que acabam por sair vencedores na vida pela sua pureza de coração e ingenuidade - foi assim em American Pie e, principalmente, em Namorada: Aluga-se. Também já foi abordado esse mundo de dentro para fora, como a adaptação de Mundo Fantasma. No entanto, nunca tal foi filmado como Napoleon Dynamite. O estreante Jared Hess conseguiu juntar um rol de jovens debutantes actores que fazem a diferença, numa sociedade das mais assustadoras aberrações, mas que ao contrário de Parada de Monstros, assusta por serem muito mais reais - e Michael Moore já provou que essas pessoas existem mesmo, nos seus dois últimos documentários. Essa sociedade, misto de anos 80 com temáticas ninja, antropomórficas e encontros virtuais, podia muito bem ser habitada por um certo grupo de miúdos de South Park. No entanto, Napoelon Dynamite é apenas uma sequência de acontecimentos na vida do jovem baptizado com o pseudónimo de Elvis Costello. Argumento pouco ou nada existe e por vezes, as situações parece caídas do nada, como objectos estranhos que pairam entre cenas. A única intenção é apenas a crítica social, um apontar do dedo à América interior, os geeks e os rednecks, que parecem fazer a civilização regredir em inteligência. De humor mordaz e acutilante, Napoelon Dynamite esgota todos os seus trunfos no grupo de personagens absurdas e nas situações mais surreiais que se possam imaginar. Não esperem algo superior ou um golpe de asa capaz de deixar de boca aberta. Tudo é feito sem cerébro e até os clichés estão lá. No entanto, se deixar o cérebro à porta do cinema, o Double Cheeseburguer saberá a caviar. E divertir-se-á certamente. Ao fim ao cabo, é sempre superior a qualquer teen moovie tão em voga nos cinemas americanos e que tanta lavagem cerebral continuam a fazer.
Sábado, Dezembro 18, 2004 O AMOR ACONTECE: Título: Love Actually Realizador: Richard Curtis Ano: 2003
A poucos dias da quadra natalícia, nada melhor do que acompanhar a mais louca contagem decrescente até ao dia de Natal. Para isso, revisitamos O Amor Acontece, a comédia româmtica de Richard Curtis, mascarada de história de Natal. Ou será ao contrário? O Amor Acontece tem tudo para ser umá comédia romântica, estigma desde logo capaz de afastar das salas de cinema uma grande falange de público: é assinado por Richard Curtis, o guionista de Quatro Casamentos E Um Funeral ou de Nothing Hill e até conta com Hugh Grant. No entanto, para os que se aventuram pela jornada de assistir ao filme, apercebe-se ao fim dos primeiros vinte minutos que O Amor Acontece é mais do que uma banal comédia romântica. Assim, o filme é uma encruzilhada de histórias cruzadas de relações agri-doces, das mais variadas espécies. Partindo do paradigma de que o amor acontece em todo o lado, assistimos a uma panóplia de relações amorosas das mais variadas formas, como se fossemos um cupido sem mãos a medir em vésperas de Natal, ou não fosse esta a quadra do amor. Assim, cruzam-se histórias desde paixões angustiantes juvenis, triângulos amorosos improváveis, relacionamentos internacionais que saltam a barreira linguística, traições e desamores conjugais e até as tristezas de amor do próprio primeiro-ministro da Inglaterra (Hugh Grant), que o faz entrar em conflito com os poderosos Estados Unidos da América. E o elo de ligação entre todas estas peripécias é um tal de Billy Mack (Bill Nighy), uma ex-rock star que tenta voltar à ribalta, com a adaptação de um clássico Christmas Is All Around. O filme inicia-se com quinze minutos fantásticos, divertidos e empolgantes, que nos fazem crer que o início será o melhor do filme. No entanto, rapidamente percebemos que aquilo já não é o início, mas sim o próprio filme. O Amor Acontece são oito histórias extremamente bem estruturadas, impregnadas de ritmo, que consegue manter a mesma toada até ao final, sem perder fulgor, mesmo quando descai para o xarope e para a lacrimejação fácil. Com momentos hilariantes, com destaque para o próprio Hugh Grant (no único papel que sabe desempenhar em condições) e sobretudo, para Bull Nighy, no papel de uma degradante rock-star em busca do regresso, com clara influência de Keith Richards, O Amor Acontece conta com um rol de actores notáveis que se fazem notar, desde Liam Neeson, Emma Thompson, Alan Rickman, ou a própria Lucia Moniz (além da spresenças agradáveis de Rowan Atkinson e do cameo de Billy Bob Thorton). Aliás, a actriz portuguesa é um dos motivos de interesse do filme, uma vez que proporciona um retrato divertido de Portugal e da língua de Camões. E como nós nos gostamos de ver nos ecrãs internacionais! Com uma banda-sonora bastante positiva, O Amor Acontece é um fabuloso filme de Natal, uma história de amor ímpregnada de espírito natalício, que nos faz rir e chorar, conseguindo pôr de lado todas as lacunas fáceis em que Richard Curtis deixa-se resvalar, como o patriotismo exagerado ou os clichés hollywoodescos. Talvez porque o espírito de Natal anda aí, um Royale With Cheese não será vergonha para esta canção de Natal. Porque o Natal está em todo o lado.
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12:07 PM Domingo, Dezembro 12, 2004 SKY CAPTAIN E O MUNDO DE AMANHÃ: Título: Sky Captain And The World Of Tomorrow Realizador: Kerry Conran Ano: 2004
Se antes o circo era uma parada de aberrações, o cinema veio a tomar o seu lugar como máquina de sonhos. A sua possibilidade de nos fazer transportar para os mais diversos sítios de forma realista, rapidamente fez do cinema a sétima arte. Antes de mais, Sky Captain e o Mundo De Amanhã é uma máquina de sonhos; um filme que nos transporta para um mundo heróico de vilões e heróis, de heroínas indefesas e monstros gigantescos, como nos nossos sonhos de infância. Sky Captain e o Mundo de Amanhã é completamente filmado em fundo azul, ou seja, é totalmente construído digitalmente, como um Final Fantasy com actores de carne e osso, de forma a satisfazer toda a imaginação fértil do estreante Kerry Conran - lembram-se de Major Albega? É tal e qual isso, mas com melhores efeitos visuais. È assim um tributo de Conran a todas as suas influências e gostos pessoais; e enquanto Tarantino vai buscar as suas referências a filmes de segunda categoria ou a clássicos do fundo do baú, Conran repesca as pulps dos anos 40, o cinema dos anos 30 e a banda-desenhada norte-americana. Por isso, Sky Captain E O Mundo De Amanhã é um desfile de referências a filmes como King Kong,A Guerra Dos Mundos ou Destination Moon, passando pela Guerra Das Estrelas e por James Bond; das pulps norte-americanas de Dan Dare, O Piloto do Futuro, Dick Tracy ou Nick Fury; da banda-desenhada de Super-Homem e de Capitão América; ou mesmo, do próprio Major Alvega. Por tudo isto, a história decorre em uma Nova Iorque disconexa, nos anos 30, e rapidamente escorre para sítios como o Nepal. Graças à manipulação digital, tudo é recriado a uma escala gigantesca: os prédios, as montanhas, as próprias divisões. Jude Law é o Capitão Sky, herói ímpar e defensor do Mundo, com direito a um próprio esquadrão de aviadores e a um companheiro cientista inseparável (Giovanni Ribisi), qual Q. Quando monstros robóticos gigantescos invadem a cidade, Sky Captain vai ser o salvador de serviço; e as ocasionalidades vão faze-lo mover-se entre a sensualidade da jornalista Polly Perkins (Gwyneth Paltrow) e da capitã Franky Cook (Angelina Jolie), até chegarem ao encalce do mega-vilão, o dr. Totenkopf, nada mais nada menos que (pasme-se) Laurence Olivier, recuperado do além através da manipulação digital. Se esta forma de fazer filmes é acertada ou não, é uma discussão para além destas linhas. O que é certo é que, para algo deste género, não podia ser melhor. Jude Law é o esteriótipo do heróismo, qual fusão entre Roger Moore e Steve McQueen, ou não tivesse sido ele já, Gigolo Joe ou Alfie; ao seu lado, move-se Gwyneth Paltrow, a frágil mas decidida jornalista, capaz de fazer abalar o inabalável Capitão Sky; e Angelina Jolie é a fria e sensual capitã Cook, e mesmo de pala no olho, não deixa de ser a Angelina Jolie. Apenas Laurence Olivier parece uma escolha infeliz, uma vez que o universo resgatado do filme não passa pela obra do falecido actor. Quanto ao trio de protagonista, o destaque vai para Gwyneth Paltrow, que parece um decalque de um clássico de há 60 anos atrás. Sky Captain e O Mundo de Amanhã aposta tudo no espectáculo visual; um discorrer de acção e fantástico, com monstros gigantescos, figuras fantásticas e máquinas destrutivas. No entanto, quando a imaginação do realizador Kerry Conran parece começar a fraquejar e os tiros começam a ser de pólvora seca, o filme começa a ir abaixo, frágil demais para se aguentar sobre o argumento óbvio e sem surpresas. Ou seja, quando as sequências deixam de nos deixar de sorriso nostálgico na boca, começa a ser tudo seguido segundo os cânones e o final parece feito em cima do joelho, decidido numa tarde de café. Uma pena, visto que Sky Captain E O Mundo De Amanhã tinha tudo para ser um álbum de fotografias da sétima arte. No entanto, não deixa de ser um filme divertido, para passar um bom bocado, numa amálgama de referências pintadas a sépia, num embrulho deveras interessante. O trio de actores, Jude Law, Gwynelth Paltrow e Angelina Jolie prometem regressar numa sequência de sequelas, dignas da adejectivação de blockbuster de verão, para regalo dos cinéfilos e dos amantes dos filmes de acção. Esperemos que a imaginação não falte a Kerry Conran. Um McBacon, mas com uma satisfação final igual a quando ficamos com o brinquedo do Happy Meal. E o cinema volta a ser cinema.
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12:01 PM Quinta-feira, Dezembro 09, 2004 ENTREVISTA A FERNANDO FRAGATA:
Sorte Nula, que estreia hoje em todo o país, é o mais recente filme de Fernando Fragata, realizador nacional que assinou o sucesso Pesadelo Cor-de-rosa. O Royale With Cheese tem a honra e o prazer de publicar uma entrevista com o realizador sobre o seu último filme, onde vamos poder assistir a um elenco de luxo, acidentes espectaculares e a muita má sorte , tentando apagar o estigma que pende sob o cinema português. Antes de começar queria agradecer a sua disponibilidade para esta entrevista, o que é um grande motivo de orgulho para o Royale With Cheese. Royale With Cheese – Sorte Nula parece vir a ser uma pedrada no marasmo que é o cinema nacional. Que expectativas podemos aguardar? Podemos classificar Sorte Nula como o primeiro blockbuster português? Fernando Fragata - Nunca seria o primeiro blockbuster português, pois o Tentação, Adão e Eva, Jaime, Zona J e Pesadelo Cor de Rosa já o foram. Estes filmes fizeram números de espectadores equivalentes ou maiores ainda que muitos blockbusters Americanos fizeram em Portugal. RWC – É sabido que Sorte Nula não contou com o financiamento total por parte do ICAM, foi quase uma produção independente. Ainda há pouco tempo, tivemos o exemplo de outra produção independente, I’ll See You In My Dreams, que alcançou relativo sucesso. Acha que o futuro do cinema português passa por aí? FF - Passa por apostar mais em cineastas que se preocupem com o publico e menos com os críticos e festivais europeus, que são controlados por elites pseudo-intelectuais. RWC – Aposto que destruir automóveis novos e caros lhe deu um prazer especial, não foi? FF - Não tenho prazer em destruir nada. Essa cenas são sempre as mais complicadas de fazer e só causam dores de cabeça e noites em branco. Mas vale a pena se o publico gostar. Sendo que, sem uma boa historia em que essas cenas estejam inseridas, de nada servem. RWC – Neste filme contou com um elenco bem mediático na área do humor nacional – Rui Unas, Bruno Nogueira, António Feio. Foi uma aposta pessoal, ou foram as pessoas certas para os papéis certos? FF - Foi a conjugação de ambos os factores. RWC – A presença de Zé Pedro [guitarrista dos Xutos & pontapés], bem como da banda-sonora por parte dos Xutos & Pontapés, foi apenas uma aposta mediática, ou os Xutos têm um lugar especial no seu gosto musical? FF - Sou fan dos Xutos e fiquei muito satisfeito pelo Zé Pedro ter aceite participar como actor, para além do tema musical que está no filme. RWC – Se lhe colocassem à disposição recursos financeiros ilimitados para uma mega-produção – se fosse contratado por uma grande produtora de Hollywood – que história gostaria de filmar? E que actores escolheria? FF - Um Thriller de Ficção Cientifica. Actores não tenho preferências especiais. RWC – Que influências – realizadores e filmes – pode referir, não só no Sorte Nula em particular, mas no seu cinema em geral? FF - Gosto bastante do trabalho de James Cameron. RWC – E fazendo já uma abordagem aos Óscares, quem são as suas grandes apostas para a edição deste ano, tendo em conta os que já assistiu? FF - Não vi ainda nenhum dos candidatos. Há um ano que trabalho non-stop no Sorte Nula. Espero ver os filmes todos de seguida depois da estreia do Sorte Nula. RWC – Concorda com a escolha de O Milagre Segundo Salomé, ou teria escolhido outro filme, para a corrida nacional ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro? FF - Ainda não vi o filme, não faço ideia. RWC – Antes de terminar, não posso deixar de fazer uma pergunta obrigatória nestas situações: depois de Sorte Nula, quais são os projectos para o futuro? FF - Depende. Se o filme não tiver sucesso, provavelmente vou filmar casamentos. Obrigado Fernando Fragata pelo seu tempo dispendido nestas linhas. Felicidades para o seu novo filme e para o futuro do Royale With Cheese e dos seus leitores.
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10:48 AM Quarta-feira, Dezembro 08, 2004 A COSTA DOS MURMÚRIOS: Título: A Costa Dos Murmúrios Realizador: Margarida Cardoso Ano: 2004
Depois da leve irreverência que foi Noite Escura, de João Canijo, eis que estreia um novo filme nacional, A Costa Dos Murmúrios, que como não podia deixar de ser, é a adaptação para o grande ecrã do romance de sucesso de Lídia Jorge. Margarida Cardoso estreia-se assim na realização de longas-metragens, recriando na tela uma das mais realistas histórias da guerra do Ultramar da literatura portuguesa. A história desenrola-se assim em plenos anos 60, numa altura difícil para as colónias portuguesas africanas, que procuravam a independência. É durante esta instabilidade política e no auge da guerra colonial que Evita (Beatriz Batarda) vai chegar a Moçambique, para casar com Luís (Filipe Duarte II), um promissor estudante de matemática, que ali se encontra a cumprir serviço militar. No entanto, Evita vai encontrar um homem completamente diferente, marcado pela guerra e espelho do seu capitão, o estigmatizado Jaime Forza Leal (Adriano Luz). No entanto, a frustação e a perturbação deste são assimiliadas pela reprimida esposa, Helena (Monica Calle), com quem Evita vai tentar escapar aquele mundo que não é o seu. Margarida Cardoso aproveita a possibilidade para fazer um excelente retrato de Moçambique colonial, dos anos 60 e da guerra ultramarina, dos factos que raramente são lembrados; no entanto, exagera na fotografia, ao querer rentabilizar ao máximo as paisagens naturais africanas, que faz os planos do filme parecerem simples postais de viagem, ao fim de vinte minutos. Teria tido muito mais sucesso, se tivesse apostado mais nos decórs maginíficos da arquitectura da época. No rol de actores, apresentam-se todos num trabalho certinho, sem compromoter, mas também sem deslumbrar. Do quarteto principal, Mónica Calle é talvez quem se apresenta em pior forma, parecendo por vezes apenas uma casca, sem conteúdo. Por sua vez, Beatriz Batarda, uma das promessas do cinema nacional, aparece no plano principal fazendo juz ao papel de protagonista. Margarida Cardoso aproveita bem o seu estatuto de diva, em que Beatriz Batarda enche o ecrã - a cena da actriz na praia, de fato de banho vermelho, chega inclusive a fazer lembrar Brigite Bardot. No entanto, a actriz não tem a força desta, o que a faz não aguentar a personagem em certos momentos. Beatriz Batarda, em Noite Escura, prova que é mais condizente para o papel da ingenuidade. A Costa Dos Murmúrios é assim um mapa de sentimentos, frustraçõs, cicatrizes e feridas abertas. A realizadora trabalha como pode estes condimentos, num filme que prima pela fotografia que tira da conturbada época, quando no entanto, o principal devia ser a história de duas figuras femininas (por isso, aquele beijo final é como um objecto estranho caído no meio do filme). No entanto, arrisca-se a ser ostracizado pelo grande público, tal como a maioria do cinema português, porque também ele não consegue fisgar a atenção do espectador, deixando o filme cair em zonas de monotonia passiva. Alguém classificou A Costa Dos Murmúrios como um interessante filme português falhado. Não concordo que tenha sido falhado. Faltou-lhe um golpe de asa, algo que desse o soco que o filme exigia. Mas Margarida Cardoso recebe todo o crédito para uma segunda experîência. Mais um McChicken, mas desta vez com uns pozinhos e umas batatas fritas a mais.
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11:40 AM Segunda-feira, Dezembro 06, 2004 TOP 5: Há muito tempo arredado destes assuntos, o Royale With Cheese volta hoje às famosas listas temáticas. E como a praga se aproxima a passos largos, ameaçando inundarnos mais uma vez através de tudo o que seja meio de comunicação, eis que apresentamos o TOP 5 DOS FILMES DE NATAL: 5º Lugar - Sozinho em Casa (1990) - porque é impossível não referir este título, quando se pensa em cinema de Natal (ou não passasse ele na televisão todos os Natais) 4º Lugar - Scrooge (1970) - Charles Dickens conseguiu transcrever o espírito natalício em obra literária. E esta é a aproximação à sétima arte. 3º Lugar - O Anti-Pai Natal (2003) - Pelas razões opostas ao anterior. Porque o Pai Natal também tem dias de mau humor. 2º Lugar - Gremlins - O Pequeno Monstro (1984) - Terror e cinema xunga foram conceitos que nunca combinaram com o conceito Natal. Mas Joe Dante provou o contrário com este clássico. 1º Lugar - O Estranho Mundo De Jack (1993) - Tim Burton é o maior contador de histórias do cinema. E esta é a maior história de Natal do cinema. Domingo, Dezembro 05, 2004 AS INVASÕES BÁRBARAS: Título: Les Invasions Barbares Realizador: Denys Arcand Ano: 2003
O cinema francês tem uma tradição assente no chamado 'cinema de prestígio', obras com alicerces no humanismo e na sensibilidade académica. Talvez por isso, os franceses gostem tanto do Manoel de Oliveira. Esta produção franco-canadiana, As Invasões Bárbaras, parte desta parábola, para no entanto divergir num dos mais sensíveis filmes dos últimos tempos, que lhe valeu o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. As Invasões Bárbaras é a história de Remy (Rémy Girard), um catedrático bon-vivant, que não mantém uma boa relação com o filho Sébastien (Stéphane Rousseau), entrando em choque com o seue stilo de vida capitalista. No entanto, a doença marca um prazo na vida de Remy e este período vai promover o reencontro entre os dois. Mas o filme não é só isto, como aparenta ser. As Invasões Bárbaras é ainda uma abordagem ao ser humano, à fragilidade da vid, ao sentido da mesma, ao relacionamento entre as pessoas e a muitos temas tabu: a droga, a eutanásia, a corrupção e a liberação sexual. Falar de As Invasões Bárbaras, não é só falar da sequela de O Declínio do Império Americano; implica falar de três filmes: O Grande Peixe, pela relação pouco saudável entre pai e filho, cuja proximidade da morte vai ocupar-se de resolver; Magnolia, pela abordagem à peracidade da vida e a reacção à morte anunciada; e a Felicidade, pela crítica social de hábitos e costumes, não se esquivando aos tabus, mas sem recurso ao humor negro e subliminar. Se todo o elenco está formidável, Rémy Girard está enorme, numa prestação de encher o olho, não se esquivando de arcar com a responsabilidade de ser o elo de ligação e, ao mesmo tempo, o ponto de charneira entre as personagens e os binómios: a sua alegria de viver a desilusão pela vida de Nathalie (Marie-Josée Croze), ou a sua filosofia literária contra o modo de vida capitalista do seu filho. As Invasões Bárbaras é um excelente captar do relacionamento humano, que faz da sensibilidade e simplicidade, os seus pontos fortes. No entanto, não se esquiva dos pontos fracos, uma vez que o canadiano Denys Arcand parece filmar em fast forward, o que nos deixa com a sensação de estarmos de viagem num comboio e que perdemos mesmo algumas estações. São filmes como este que tornam ingrata a tarefa da classficação. Porque se eu atribuíse o Double Cheeseburguer que estava a pensar, ia parecer que estava a subvalorizar o filme. Talvez disfarce isso com um McBacon.
Posted by: dermot @
11:43 PM |
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