Quarta-feira, Dezembro 08, 2004
A COSTA DOS MURMÚRIOS:
Título:
A Costa Dos Murmúrios
Realizador: Margarida Cardoso
Ano: 2004
Depois da leve irreverência que foi
Noite Escura, de João Canijo, eis que estreia um novo filme nacional,
A Costa Dos Murmúrios, que como não podia deixar de ser, é a adaptação para o grande ecrã do romance de sucesso de Lídia Jorge.
Margarida Cardoso estreia-se assim na realização de longas-metragens, recriando na tela uma das mais realistas histórias da guerra do Ultramar da literatura portuguesa.
A história desenrola-se assim em plenos anos 60, numa altura difícil para as colónias portuguesas africanas, que procuravam a independência. É durante esta instabilidade política e no auge da guerra colonial que Evita (Beatriz Batarda) vai chegar a Moçambique, para casar com Luís (Filipe Duarte II), um promissor estudante de matemática, que ali se encontra a cumprir serviço militar. No entanto, Evita vai encontrar um homem completamente diferente, marcado pela guerra e espelho do seu capitão, o estigmatizado Jaime Forza Leal (Adriano Luz). No entanto, a frustação e a perturbação deste são assimiliadas pela reprimida esposa, Helena (Monica Calle), com quem Evita vai tentar escapar aquele mundo que não é o seu.
Margarida Cardoso aproveita a possibilidade para fazer um excelente retrato de Moçambique colonial, dos anos 60 e da guerra ultramarina, dos factos que raramente são lembrados; no entanto, exagera na fotografia, ao querer rentabilizar ao máximo as paisagens naturais africanas, que faz os planos do filme parecerem simples postais de viagem, ao fim de vinte minutos. Teria tido muito mais sucesso, se tivesse apostado mais nos decórs maginíficos da arquitectura da época.
No rol de actores, apresentam-se todos num trabalho certinho, sem compromoter, mas também sem deslumbrar. Do quarteto principal, Mónica Calle é talvez quem se apresenta em pior forma, parecendo por vezes apenas uma casca, sem conteúdo. Por sua vez, Beatriz Batarda, uma das promessas do cinema nacional, aparece no plano principal fazendo juz ao papel de protagonista. Margarida Cardoso aproveita bem o seu estatuto de diva, em que Beatriz Batarda enche o ecrã - a cena da actriz na praia, de fato de banho vermelho, chega inclusive a fazer lembrar Brigite Bardot. No entanto, a actriz não tem a força desta, o que a faz não aguentar a personagem em certos momentos. Beatriz Batarda, em
Noite Escura, prova que é mais condizente para o papel da ingenuidade.
A Costa Dos Murmúrios é assim um mapa de sentimentos, frustraçõs, cicatrizes e feridas abertas. A realizadora trabalha como pode estes condimentos, num filme que prima pela fotografia que tira da conturbada época, quando no entanto, o principal devia ser a história de duas figuras femininas (por isso, aquele beijo final é como um objecto estranho caído no meio do filme). No entanto, arrisca-se a ser ostracizado pelo grande público, tal como a maioria do cinema português, porque também ele não consegue fisgar a atenção do espectador, deixando o filme cair em zonas de monotonia passiva.
Alguém classificou
A Costa Dos Murmúrios como
um interessante filme português falhado. Não concordo que tenha sido falhado. Faltou-lhe um golpe de asa, algo que desse o soco que o filme exigia.
Mas Margarida Cardoso recebe todo o crédito para uma segunda experîência.
Mais um McChicken, mas desta vez com uns pozinhos e umas batatas fritas a mais.
Posted by: dermot @
11:40 AM
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