Sábado, Novembro 13, 2004
DELICATESSEN:
Título:
Delicatessen
Realizador: Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro
Ano: 1991
Anos anos de ter assinado uma das maiores fábulas do cinema, -
O Fabulo Destino De Amélie - já Jeunet tinha criado um dos mais fantásticos e originais filmes da história do cinema, numa parceria com Marc Caro, que viria ainda a dar outro fruto,
A Cidade Das Crianças Perdidas.
Com efeito, Jeunet é um criador de fábulas nato, e sendo Caro uma mente doentia (no bom sentido), a colaboração entre ambos só podia ser inesperada. O resultado foi uma fantástica fábula invertida, um
O Fabulo Destino De Amélie versão gore.
Não é que
Delicatessen seja um filme gore. Tem a sua vertente, é verdade, mas o seu grande trunfo é o humor negro. E não só.
Delicatessen denota todas as suas grandes influências directas: o humor tradicional francês de Tati e de Louis de Funès, o impressionismo de Henry Miller (
O Sorriso Aos Pés Da Escada é uma enorme referência, não fosse a personagem de Dominique Pinon, um palhaço errante) e a manipulação alucinante de David Lynch.
A dupla Jeunet e Caro montam um microcosmos fantástico, um prédio ímpar, sem referências geográficas ou temporais, com inquilinos singulares e caricaturais - mais uma vez referência a Tati. E quem viu
Belleville Rendez-Vouz, decerto que irá notar que as semelhanças entre ambos na vertente musical (e humorística, porque não) não são mera coincidência.
Delicatessen é um retrato pós-apocalíptico satirizado, onde os recursos essenciais escasseiam. No entanto, se em
Mad Max - O Guerreiro Da Estrada, era a gasolina o bem mais precioso, aqui é a carne (e a comida em geral) que faz mover o Mundo e as guerras, com carnívoros de um lado e vegetarianos do outro.
Este universo encerra outro muito particular; o de um prédio perdido algures na França, qual café do René Artois em plena Segunda Grande Guerra. Aqui, é o talhante (Jean-Claude Dreyfus) que organiza as refeições de carne entre os seus inquilinos, através de meios canibais. E o próximo alvo é um recém-alojado palhaço, Louison (Dominique Pinon).
Delicatessen é um dos mais originais filmes que foram realizados, apesar das inúmeras influências, - que aliás, são a única maneira directa de tentar descrever o filme - ou não fosse este uma comédia negra que mistura amor e canibalismo. Com um humor mordaz e subtil, tem mesmo momentos hilariantes, como as variadas tentativas de Aurore (Silvie Laguna).
E como se todo o ambiente daquele prédio disfuncional não fosse já deveras cativantes, Jeunet e Caro pintam o retrato a verde e amarelo, como que se o pintando a fome e desespero.
E além disso, ainda tem uma sequência inicial deliciosa e uns dos créditos iniciais mais fantásticos de sempre.
Jeunet é um dos maiores contadores de histórias da actualidade cinematográfica, a par de Tim Burton, mas conserva em seu poder dons que o realizador norte-americano não possui: humor e subtileza. E Caro tem toda a demência de um Lynch bem-humorado ou de um Terry Gillian menos rígido.
Difícil de descrever, apenas me posso referir a
Delicatessen como um filme único, que faz da originalidade o seu grande trunfo, baralhando inúmeros registos num resultado final fabuloso.
E não fosse ele um filme acerca do canibalismo, para nos deliciarmos com um saboroso Royale With Cheese.
Posted by: dermot @
5:32 PM
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