Quarta-feira, Novembro 24, 2004
BOM-DIA, NOITE:
Título:
Buongiorno, Notte
Realizador: Marco Bellocchio
Ano: 2003
Ano: 1978. Em Itália, o primeiro-ministro Aldo Moro era raptado depois de um sangrento confronto, pelas auto-proclamadas Brigadas Vermelhas. Depois de mais de trinta anos de rivalidade política entre o Partido Democrata Cristão e o Partido Comunista Italiano, Moro assomava-se como a face de uma nova etapa de cooperação entre os dois partidos, mudança essa que caiu mal no seio do grupo terrorista das Brigadas Vermelhas. Após cinquenta e cinco dias de negociações falhadas, onde até o próprio papa interveio, Aldo Moro era assassinado.
Bom-Dia, Noite é o retrato ficcionado deste trágico acontecimento que paralisou, em 1978, não só a Itália, como o Mundo. Marco Bellocchio recria os cinquenta e cinco dias de cativeiro do primeiro-ministro (interpretado em muito bom nível por Roberto Herlitzka), sob o ponto de vista da única mulher do grupo, Chiara (Maya Sansa). Esta vai sentir a força das palavras e convicções de Moro e vai cair numa luta interior, entre salvar o primeiro-ministro da morte ou trair os seus companheiros das Brigadas Vermelhas.
É difícil distinguir se Marco Bellochio realiza um retrato parcial ou imparcial, sobre convições políticas. No entanto, é provável que a segunda opção seja a correcta, uma vez que o realizador se desmarca desde início, de cair na tentação de fazer apenas um filme político. É claro que todos os indícios estão lá, mas todos eles incontornáveis para o decorrer da narrativa - as doutrinas de Marx, a convicção no proletariado e no comunismo e a música de intervenção, são tudo marcos do sistema político convicto do grupo terrorista.
Numa altura em que o Mundo se confronta com o terrorismo, Bellochio consegue realizar um filme acerca do terrorismo, sem nunca falar dele. A sua intenção é mostrar como a opinião de cada um pode mudar, ou alterar-se com o decorrer do tempo, sejam qual for as condicionantes: a imaturidade, a idade, ou até mesmo, diferentes pontos de vista, que estranhamente, passam a convergir. É quase como que uma mensagem a todos os que semeiam a guerra e discordância actualmente, mostrando até que ponto o terrorismo e o radicalismo podem ser prejudiciais, mesmo a nível pessoal.
A realização é extremamente aliciante. Filmado sobre cores ocres e amareladas,
Bom-Dia, Noite adquire aquele ambiente da década de 70, que é colorido pelos constantes registos reais que vão passando pela televisão - aqui, Bellochio não se limita a fazer desfilar os blocos noticiosos da altura; intercede-os com programas de entretenimento e talk-shows. Este procedimento é a intenção de tornar a televisão um próprio meio de propaganda, o qual já nos passa despercebido hoje em dia, devido aos malefícios de alguns conceitos que nos são tão vulgar actualmente, como a globalização ou a grande quantidade de informação que circula pelo Mundo.
A construção das personagens é igualmente magistral, não só da figura central de Chiara, mas também do dilema amoroso de Primo (Giovanni Calcagno), ou da estranha obsessão pelos canários de Mariano (Luigi Lo Cascio). Tudo simbolismos que o realizador vai espalhando ao longo da narrativa.
E depois há a banda-sonora, realmente poderosa, pela imperialidade da música clássica; no entanto, o ponto alto é quando o realizador recorre aos Pink Floyd, transformando os dois momentos chaves do filme em algo surreal.
Bom-Dia, Noite é um drama não só descritivo, mas sobretudo intencional. Bastante bem editado, é capaz de nos fazer sentir em cada momento, as emoções a que se propôs, fazendo-nos desfilar por um carreiro de sentimentos em relação a todos aqueles acontcimentos e intevenientes, todos sob a égide de anti-heróis - mesmo o primeiro-ministro, Aldo Moro.
Bellochio escorrega quando cai na tentação de tentar puxar para o drama lacrimejante explícito, com a figura da consciência de Chiara, sob a forma do seu colega de trabalho Enzo (Paolo Briguglia), porque todas as outras cenas implícitas são muito mais poderosas e verdadeiras.
Menos conseguido são ainda, os sonhos de Chiara, retalhos a preto-e-branco sob o molde de flashbacks, que parecem despropositados.
Fora isto,
Bom-dia, Noite é um dos grandes filmes políticos dos últimos tempos, sobretudo por não focar directamente sob este tema.
Se para os apreciadores deste tipo de tramas este filme é um regalo, para os outros também não fica atrás. E ficamos totalmente convencidos disto, após o filme chegar ao fim sem notarmos o tempo a passar, quando tinhamos estabelecido que um filme deste tipo seria inevitavelmente moroso.
Intenso, marcante e intncional, são três adjectivos que definem este exercício cinematográfico italiano. E não tivesse o realizador escorregado e
Bom-dia, Noite seria mais que um McRoyal Deluxe.
Posted by: dermot @
9:31 AM
|