Sábado, Outubro 09, 2004
SPARTACUS:
Título:
Spartacus
Realizador: Stanley Kubrick
Ano: 1960
Há não muito tempo, os filmes históricos assumiam um compromisso de qualidade com o público. As grandes produções históricas implicavam inúmeros meios e elevados custos, o que por si era quase um selo de qualidade garantido.
Actualmente, os filmes históricos não são, necessariamente, sinónimo de qualidade. São realizações de grandes custos, orientadas segundo as leis básicas do mercado, que procuram visar as grandes massas consumistas, o que faz deturpar a qualidade dos filmes. Temos o caso recente de
Tróia, em que muitos dos factos são alterados de maneira a corresponder a determinados parâmetros pré-definidos, ou até mesmo o caso dos mais recentes êxitos como
Gladiador, onde certos pormenores são descurados para glorificar alguns aspectos.
Spartacus teve desde início, um parto difícil. Kirk Douglas, actor principal, mas também co-produtor, desentendeu-se com Anthony Mann e despediu o conceituado realizador a meio, recrutando para o seu ligar Stanley Kubrick, com quem já tinha trabalhado em
Horizontes De Glória. Há o rumor de que, apesar do filme ter sido creditado por inteiro a Kubrick, úma grande parte tenha sido realizada ainda por Mann (e o que é certo é que após a revolta dos escravos, o filme adquire outro estilo cinematográfico, mais distante da realização característica de Kubrick.
Spartacus (Kirk Douglas) é o nome de um escravo da Trácia, um visionário no seu tempo, que vinte séculos antes, já ambicionava a abolição da escravatura. Em pleno império romano, Spartacus, corajoso escravo gladiador, vai revoltar-se contra os romanos e vai comandar um numeroso exército de escravos rumo à liberdade fora de Itália.
Falar de
Spartacus é como que falar simultaneamente de
Braveheart e de
Gladiador. Uma épica jornada de ambição da liberdade; se em
Braveheart, William Wallace era o rosto de um povo em busca da sua identidade própria, aqui Spartacus é o rosto de uma numerosa classe social, que ambiciona a liberdade, o mais preciso dos bens.
Paralelamente, o filme desenvolve um interessante retrato social de Roma e do seu poderoso império, que apesar de algumas lacunas e falhas, não deixa de ser um fiél e interessante retrato histórico da cultura clássica.
Spartacus é ainda uma grande história de amor. Um épico romance entre Spartacus (Kirk Douglas) e a linda Vaniria (Jean Simmons), que vai implicar ainda outros vértices, nomeadamente o nemésis de Spartacus, o general romano Crassus (Lawrence Olivier) e Batiatus (Peter Ustinov).
Se
Spartacus está impregnado de estúpidas lições de moral, como Kubrick classificou (e que o fez desentender-se com Douglas e nunca mais realizar nenhum filme em que não tivesse controle total sobre o argumento), tal não o faz deixar de ser o grande filme histórico que é um dos melhores de sempre dentro do género - apenas equiparado por
Ben-Hur, talvez - e um dos grandes clássicos da sétima arte.
A representação fantástica de Douglas, envergando a capa de um grande herói, verdadeira personificação de liderança, coragem e carisma, e uma magnífica realização de Kubrick, que filma toda aquele épico numa escala reduzida (à semelhança do que faria depois com o Vietname, em
Nascido Para Matar), aumentando o realismo e a nossa cumplicidade com aquela jornada, culminam em verdadeiras cenas clássicas, como a magnífica sequência final, ou a famosa cena da identificação do escravo Spartacus.
Kubrick brilha ainda na fotografia e nas estrondosas coreografias das sangrentas batalhas, após o filme ganhar uma escala maior, tudo isto aliada a uma composição clássica de tragédia grega, na planificação do filme, e a uma banda-sonora deveras competente.
Spartacus é um épico de liberdade, um grito de rebeldia contra o poder instaurado e contra as injustiças, e uma inegualável história de amor.
Um clássico de culto e um fabuloso filme histórico, de qualidade garantida, ou não fosse realizado pelo grande Stanley Kubrick e representado pelo não menos grande Kirk Douglas.
Um Le Big Mac, servido com muito vinho, numa orgia dedicada a Baco e a Atena.
Posted by: dermot @
10:05 AM
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