Terça-feira, Outubro 05, 2004
O TEMPO DO LOBO:
Título:
Le Temps Du Loup
Realizador: Michael Haneke
Ano: 2003
Depois de ter realizado
A Pianista, Michael Haneke volta às luzes da ribalta com mais uma obra perturbante. Desta vez, Haneke foca o pesadelo humano quando abalado os alicerces das mínimas condições sociais e pessoais.
Nem sempre a rigidez alemã combina na perfeição com o minimalismo, mas Haneke aposta as suas primeiras cartas nesse quase niilismo. O seu segundo trunfo é o abstraccionismo, focando-se na condição humana, onde é melhor sucedido.
O Tempo Do Lobo decorre num futuro conturbado, qual armagedão, como se tivessemos avançado até ao futuro degradado de
Mad Max. Uma sólida célula familiar é confrontada com a tragédia e vai ter que sobreviver nesse conturbado mundo.
O fim do mundo visita a humanidade. Há os que colocam a sua esperança na fé divina, há os que se agarram aos familiares e amigos e há os que se viram para as forças interiores. Há os que se conseguem aguentar e há os que vacilam. É a lei do mais forte, mas antes ainda, a lei do mais apto. Haneke joga com todos. E transforma o espectador num deles. Para isso não poupa a esforços de transformar qualquer tarefa mais dura em pesadelo, não poupando qualquer realismo e até imagens explícitas desnecessárias.
Com uma vincada e indisfarçável influência de "Ensaio Sobre A Cegueira", o livro de José Saramago,
O Tempo Do Lobo desenvolve-se em dois momentos: se numa primeira parte nos convencemos estar perante o retrato daquela família confrontada com acontecimentos trágicos numa sociedade trágica, numa segunda parte descobrimos que o filme não se centra apenas naquelas três pessoas. O âmago do filme aborda a condição humana no geral e quando o universo mais ou menos limitado da célula familiar se transforma numa numerosa comunidade, somos confrontados com os mais diversos temas humanistas: solidariedade, traição, violação... Uma catarse de acontecimentos que culmina com uma tentativa de redenção por imolação, que o cartaz atesta numa bela fotografia.
Se é nesta segunda parte que
O Tempo Do Lobo ganha pontos, a verdade é que a abstração minimalista da primeira metade fá-lo dar alguns socos no ar - apesar de os encaixar em cheio nas sequências nocturnas, verdadeiramente arrepiantes.
Haneke consegue mais uma vez ser perturbador, desta vez confrontando-nos com a dureza da realidade da perenidade humana. E uma das grandes virtudes de
O Tempo Do Lobo é o facto de ser um filme fechado, virado para si próprio, onde todas as explicações ficam por dar.
Para os fãs do realizador, será sem dúvida uma obra a ver a curto prazo; para os outros, poderá ser uma desilusão. No entanto, tanto para uns como para outros, nunca deverá ser visto de estômago vazio. E para contornar essa lacuna, o aconselhado é um McBacon.
Posted by: dermot @
11:18 PM
|