Sexta-feira, Outubro 22, 2004
O MEU TIO:
Título:
Mon Oncle
Realizador: Jacques Tati
Ano: 1958
Jacques Tati há muito que já garantiu um lugar no topo da montanha dedicada aos grandes realizadores de sempre.
Realizador notável, com um tratamento espacial fabuloso e sem igual na história do cinema, Tati foi a evolução natural do cinema mudo, com influências directas de Charlie Chaplin e Buster Keaton.
Aproveitando o que a cor e som lhe permitiam de novo, Tati foi o passo seguinte do cinema mudo, o qual homenageou com a criação da personagem do senhor Hulot, encarnado por si próprio.
O Meu Tio é a segunda incursão do realizador francês pelo universo do senhor Hulot. Depois de o ter apresentado em
As Férias Do Senhor Hulot, Jacques Tati realizou mais um périplo do gentil e desastrado Hulot, desta vez rodado entre o seu meio social natural e o do seu cunhado, o senhor Arpel (Jean-Pierre Zola). O elo de ligação entre esses dois universos díspares é o seu sobrinho, Gerald (Alain Bécourt), que vai ser a ponte entre as diversas peripécias.
O Meu Tio é uma comédia genial, com um humor mordaz, acutilante e inteligente. É um filme que não nos faz rir à gargalhada, mas sim sorrir constantemente. Isto acontece também devido ao carácter crítico de Hulot, cujo objectivo de crítica social é bem evidente.
Jacques Tati realizou então um filme em que apresenta dois universos sociais bastante diferentes: o tradicional, de Hulot, mais afectivo e pessoal e o da classe alta, mais impessoal e frio, devido à evolução e ao progresso, onde o senhor Hulot é um autêntico peixe fora de água.
O Meu Tio é ainda um fantástico exemplo do cinema arquitectónico de Tati, uma característica no qual foi pioneiro e na qual ninguém chegou sequer perto do seu nível, pelo menos até à data.
Com efeito, o realizador recorre à arquitectura como um meio activo nos seus filmes, quase como mais uma personagem. Os actores interagem com o espaço físico de forma magistral e divertida. Se em
Vida Moderna Tati aborda Paris, enquanto metrópole, em
O Meu Tio fica-se por uma abordagem em menor escala: a casa do sr. Hulot e a do sr. Arpel.
Esta última é um dos mais interessantes cenários da sétima arte; Tati cria uma habitação fantástica, jogando com o minimalismo e o pós-modernismo, para justificar a não-funcionalidade daquele ambiente, em que o senhor Hulot vai interagir. A própria casa representa um papel activo no filme: é uma casa que respira, vive e sobretudo, que vê.
O único senão da obra de Jacques Tati (e que de certo modo o levou a ser um cineasta incompreendido durante bastante tempo) era o facto de ser um profissional extremamente rigoroso e metódico. Estas características tornam os seus filmes extensos, o que não é uma vantagem num filme não-argumentativo, o que torna o filme de difícil abordagem por parte do grande público, o que não acontecia com Chaplin, por exemplo. E
O Meu Tio não é excepção.
O Meu Tio é uma das melhores comédias da história do cinema. É uma crítica social ao progresso e à consequente desumanização do Homem não tão eficaz e acutilante quanto
Tempos Modernos, mas acaba por ser mais bem-disposta; e é certo que Tati enquanto Hulot não tinha a mesma destreza representativa de um Buster Keaton, mas o senhor Hulot não pode deixar de ser uma referência do humor internacional.
Tudo isto são razões mais que suficientes para encomendar um McRoyal Deluxe.
Posted by: dermot @
8:45 AM
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