Terça-feira, Outubro 26, 2004
NOITE ESCURA:
Título:
Noite Escura
Realizador: João Canijo
Ano: 2004
O cinema português não está de boa saúde; é um facto consumado, que todos sabem, mas que alguns preferem ignorar por não ser politicamente correcto. O cinema nacional assenta em dois pressupostos: ou é a adaptação de um romance de sucesso de um famoso escritor lusitano ou é um drama, recheado de tristeza e miséria familiar.
Quando um filme como
O Milagre Segundo Salomé é aclamado pela crítica como o melhor filme português do ano e é o escolhido para representar o país na corrida aos Óscares, tudo o que venha depois tem de ser olhado com desconfiança.
Noite Escura é um filme português que se insere no segundo grupo já citado. E o truque é ir vê-lo sem qualquer e sem nenhum tipo de expectativas, sejam elas boas ou más.
E ainda bem! De facto,
Noite Escura foi uma agradável surpresa dentro do panorama quase deserto do cinema nacional. João Canijo assina uma interessante adaptação contemporânea de uma tragédia grega, de perdição e decadência.
Noite Escura é a história da família Pinto, proprietários de uma casa de alterne, algures na noite portuguesa. O pai, Nélson (Fernando Luís), contrai uma dívida para com a mafia de leste e a sua única saída vai ser vender a sua filha mais nova, Sónia (Cleia Almeida). De um lado, vai ter Celeste (Rita Blanco), a sua ingénua e mesquinha mulher; e do outro, Carla (Beatriz Batarda), a sua filha mais velha e o elo de ligação entre aquele antro de perdição e o mundo "real".
João Canijo, que ganhou notariedade com
Sapatos Pretos, filma o sórdido e violento universo do submundo, sob a forma de uma casa de alterne, onde a vida não tem preço. No entanto, valores como o amor e a esperança continuam a sobreviver por entre a sordidez extrema.
Noite Escura é a tragédia de uma família portuguesa, que afinal não é assim tão incomum.
O filme apresenta um conceito bastante interessante, em que a acção e a intriga decorrem por inteiro numa única noite, quase em tempo real. João Canijo constrói um fantástico ambiente claustrofóbico, de planos bastante pessoais, num cenário não menos fantástico, pintado a cores berrantes, a condizer com a atmosfera ordinária que se respira no filme.
Se por um lado é magistral a forma como o realizador cruza diálogos e sequências, pressionando aind amais o botão da claustrofobia, por outro lado a técnica de planos cortados e de montagens bruscas justapostas são pouco conseguidas. Pouco conseguido para ser também o final; Canijo parece não aguentar o drama e cai na tentação da catarse fácil. Mas não é o filme uma tragédia?
Do naipe de actores é Rita Blanco quem se destaca (apesar das boas prestações das duas jovens), interpretando a mãe de família, ingénua, limitada e irritante, capaz de levar qualquer um a perder a cabeça. Por sua vez, Fernando Luís, cujas faculdades não me fascinam por ali além, tem momentos quase sofríveis. Não é que seja mau actor, mas falta-lhe credibilidade. Aliás, Fernando Luís vestido de palhaço tem mais credibilidade de que quando representa sem o traje. Não devia ser ao contrário?
Noite Escura é até ao momento, o filme nacional mais interessante do ano. Não chega perto de
Pulp Ficition, mas a menção não pode deixar de ser referida. Nem que seja pelo uso abusivo da linguagem brejeira (ou será que, por não estarmos habituados a ouvir tal linguagem no nosso dia-a-dia, achamos exagerado?).
O filme é sinónimo de McBacon, o que para as circunstâncias tem o dobro do sabor. Para meio entendedor, meia-palavra basta...
Posted by: dermot @
6:44 PM
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