Sexta-feira, Setembro 10, 2004
TERMINAL DE AEROPORTO:
Título:
The Terminal
Realizador: Steven Spielberg
Ano: 2004
Steven Spielberg parece ter voltado às raízes, abandonando as megas produções, como
A Lista De Schindler ou
Amistad (em que nem sempre eram condizentes do seu real valor, embarcando por moralismos exagerados), para se dedicar aquilo em que é especialista - humildes pérolas cinematográficas, com entretimento garantido e muitas doses de compaixão, solidariedade, humanismo e mais uma mão cheia de nobres sentimentos.
Depois do genial
Apanha-me Se Puderes, Spielberg volta à carga com mais um grande filme de fait-divers -
Terminal De Aeroporto.
Tom Hanks encarna o papel de Viktor Navorski, um turista do leste europeu que ao chegar aos Estados Unidos vê o impossível acontecer - Krakhovia, o seu país, acabara de implodir num golpe de estado e consequente guerra, deixando de ser reconhecido legalmente. Logo, o seu passaporte deixa de ser válido. Como a deportação não era possível e a entrada na América também não, Viktor Navorski passa a ser aquilo a que chama de "uma falha no sistema": um cidadão sem país, vivendo no limbo existencial traduzido no aeroporto de Nova Iorque.
O que pode então fazer um homem sozinho num aeroporto, com um coração do tamanho de uma montanha e doses inesgotáveis de compaixão para dar e com um ligeiro conhecimento de bricolage? A resposta é: muita coisa!
Tom Hanks volta a ter um filme centrado em si, depois de
O Náufrago, mas desta vez não está sozinho. Há sua volta ergue-se o aeroporto de Nova Iorque, um mundo fechado dentro de outro mundo, que lhe dá a liberdade de improvisar e crescer como personagem, começando como um simples turista de leste que não sabia falar inglês, para terminar como o próprio aeroporto em si.
Se por um lado, Spielberg afasta de todo a ideia de um atentado ou insegurança, que poderia estar relacionado com o aeroporto, com uma comédia em tons de drama assumida, por outro lado ironiza todo os Estados Unidos, com aquela enorme metáfora, tal como Sofia Coppola fez em
Lost In Translation - O Amor É Um Lugar Estranho, mas de forma muito mais subtil.
E se já todos sabiamos que Tom Hanks é um grande actor e está em grande forma, também Catherina Zeta-Jones (Amelia Warren) encanta sempre que aparece, naquele estilo trapalhão e ingénuo, o complemento feminino de Viktor Navorski.
Steven Spielberg é unânimamente o Senhor Cinema da actualidade. E fazendo juz a esse título que ostenta, as influências de todos os Senhores Cinemas do passado estão lá. Se as referências a Capra são impossíveis de não nomear, desta vez também o são as de Jacques Tati - com a cena que promete tornar-se clássica de Hanks a fugir à câmara de vigilância (o que não teria feito o francês com um cenário com aquelas potencialidades) e as referências ao universo burlesco de Keaton e Chaplin. Hanks é mesmo uma junção destas duas influências, adoptando mesmo o
trampwalk de Charlot e a representação física de Buster Keaton.
Spielberg volta a surpreender em
Terminal De Aeroporto. E se no final acaba por deixar o filme resvalar um pouco, devido às exageradas tentativas de lágrima, por outro lado tem um ponto fortíssimo que é o de atirar para plano secundário o amor, como acção motivadora da acção. Porque também o jazz é uma coisa bela! Porque tal como diria David Murray,
when I die I don't wanna go to heaven! I wanna go to jazz!
Um McRoyal Deluxe, versão dieta - sem batatas fritas, bebida, mas com muitos molhos.
Posted by: dermot @
8:14 PM
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