Segunda-feira, Setembro 27, 2004
PARA ONDE O VENTO SOPRA:
Título:
Any Way The Wind Blows
Realizador: Tom Barman
Ano: 2003
O cartaz promocional é bem explícito ao publicitar bem por baixo do nome de Tom Barman, o seu lugar como vocalista da banda dEUS. Necessário ou não, o que é certo é que resultou; gerou-se um razoável hype à volta do filme e até a afluência à sala de cinema aumentou ligeiramente. A questão coloca-se: seria necessário enfatizar o nome Tom Barman? Obviamente que não, uma vez que o filme por si só, tem toda a força para criar todo um hype e uma legião de fiéis admiradores. Por outro lado, não deixa de ser positivo, visto permitir uma maior expansão mediática.
Uma coisa é certa -
Para Onde O Vento Sopra é um filme que tem de figurar na lista dos melhores do ano transacto!
Tem sido mencionado o
Magnolia vezes sem conta quando se fala de
Para Onde O Vento Sopra; ao assistirmos ao filme, é sem dúvida uma referência que nos assalta em primeiro lugar. Mas incrivelmente, quando tentamos estabelecer os porquês desta comparação, vimos que tal é impossível.
Tom Barman quis realizar um filme. Pura e simplesmente, porque quis. E conseguiu! Sem pretensões artísticas, de ego inflado, ou objectivos megalómanos de conquistar a indústria cinematográfica. Ou então esconde-os muito bem.
Para Onde O Vento Sopra é isso mesmo: um filme, etéreo e fluído, como uma brisa, ligeira demais para incomodar, mas forte o suficiente para não passar despercebida.
Durante o filme é dito algo que, de uma maneira geral, define todo o conceito de
Para Onde O Vento Sopra. É dito às tantas por uma personagem, que
a coisa que gosto mais do que observar pessoas, é observar pessoas observando outras pessoas. Ou seja, durante aqueles momentos do filme, somos transformados em simples observadores de algumas personagens escolhidas quase que aleatoriamente.
Para Onde O Vento Sopra é um filme cosmopolita, não fosse ele passado em Antuérpia, numa sexta-feira qualquer. E apesar de não ser Amesterdão, não deixa também de ser sinónimo de cocaína, erva, festas, sexo, álcool e música. Como se isto interessasse alguma coisa para o filme; quer dizer, importa, tanto como o trabalho, a família, enfim, a vida.
Para Onde O Vento Sopra é um filme sobre a vida, sobre o dia-a-dia. Vidas aleatórias, bizarras e caricatas, mas que podiam perfeitamente ser a minha ou a vossa.
Tom Barman filma assim um mosaico de histórias, quais fios dispersos ao sabor do vento, que se entrelaçam, desatam e enrolam-se, sem nunca darem um nó completo. É um mosaico demasiado belo, de paisagens arquitectónicas, uma disposição bastante interessante, pincelado de diálogos inteligentes e soberbos - de arte, dos anos 80, de Warhol, de música, de Bowie, de tudo e de nada - e adornada com uma banda sonora perfeita.
Se se por vezes vemos a Manhattan (leia-se Antuérpia) de Woody Allen ou parecemos observar Jacques Tati a passear pelos passeios de Paris, o facto é que a maioria das vezes estamos a ver o estilo de Tom Barman. Esse mesmo que fala com a câmara ou interrompe a música como se fosse a coisa mais natural do mundo. E depois há a banda sonora: magistral, não fosse ele vocalista dos dEUS. É quase uma fusão entre a cadência de uma banda-sonora de Tarantino e a imortalidade de uma de banda-sonora de Morricone.
E depois, o imprevisto - alguém falou em
Brilhantina, versão música electrónica?
E o filme termina e os fios do argumento continuam a soprar para onde quer que o vento sopre; e a nossa vida continua. Não é a vida assim?
Para Onde O Vento Sopra tem, sem sombra de dúvida, um das melhores sequências de créditos (tanto iniciais como finais) dos últimos tempos! E tem ainda o Homem do Vento (Sam Louwyck), personagem fantástica, predestinado...
É sem dúvida um filme notável, cheio de belos momentos de cinema. Cento e vinte e sete minutos demasiado leves, que passam a correr. Como o vento. E como a vida.
Um Le Big Mac com todas as letras. E maiúsculas!
Posted by: dermot @
11:57 PM
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