Terça-feira, Setembro 21, 2004
O GUERREIRO:
Título:
The Warrior
Realizador: Asif Kapadia
Ano: 2001
Pelos títulos que nos passam ligeriamente despercebidos por entre as semanais estreias americanas, por vezes passam-nos ao lado pequenas pérolas do cinema estrangeiro, que graças a uma época de maior abertura cultural, começam a chegar até nós com mais frequência. Depois da estreia do filme tailandês
Ong-Bak - O Guerreiro, eis mais uma pérola de nome homónimo -
O Guerreiro - que, apesar de ser uma produção inglesa, acaba por ser visto como um filme indiano, uma vez que Asif Kapadia, o realizador inglês que faz aqui a sua estreia, tem origem indiana e todo o filme é rodado em plena Índia.
É certo que o título e a ilustração do poster promocional, levam o espectador a introduzir-se na sala de cinema com uma ideia pré-defenida do filme. Ou seja, todo o folclore que nos é dado a conhecer previamente, parece traduzir-se num filme de samurais no Japão feudal. O resultado? Nada mais errado. Com efeito,
O Guerreiro desenrola-se na Índia, num retrato perfeito do país rural, tão credível como se de um noticário se tratasse. Com efeito, é um dos mais realistas filmes históricos dos últimos tempos.
Por um lado, faz-nos lembrar o que Kurosawa faz em
Ran, ao adaptar uma história ocidental ao tradicionalismo cultural oriental; é que aqui, Kapadia rearranja uma história tradicional oriental ao imaginário indiano.
Noutro aspecto, o filme acaba por nos transportar para outro imaginário, este não muito distante: o de
A Paixão De Cristo. Não só pelas semelhanças socio-culturais, mas também pelos imperativos argumentativos.
O Guerreiro (Irfan Khan), o qual dá o nome ao filme, é um homem com um coração nobre, mas com sangue escrito na cara. Chefe do exército pessoal de um senhor feudal, este guerreiro sem nome (apenas nos é apresentado assim), encarrega-se de executar os banhos de sangue e os castigos a mando do seu senhor. No entanto, cansado da brutalidade e da violência de tal encargo, o Guerreiro decide abandonar a espada e faz a promessa de nunca mais derramar sangue, partindo para um exílio nas montanhas geladas dos Himalaias.
Quem não vai perdoar tal ousadia é o seu antigo senhor, que vai empreender uma caça ao homem, a qual vai ter consequências terríveis.
Voltando ao imaginário de
A Paixão De Cristo; como disse, não é só a semelhança visual que nos transporta para a história de Cristo. As semelhanças continuam na personagem deste guerreiro, sob o qual é empreendida uma perseguição sem tréguas. No entanto, as semelhanças entre ambos os filmes acaba por conhecer perspectivas antagónicas, quando se cruzam. Porque se em
A Paixão De Cristo, Mel Gibson realiza um filme visual de enorme impacto sentimental, apostando no sangue e na violência em detrimento dos diálogos, em
O Guerreiro, Asif Kamadia filma sob a antítese dessa fórmula. Também usa a banda sonora, a câmara lenta e os planos arrastados, mas esconde toda a violência - o sangue nunca nos é mostrado directamente e as cenas de violência ou são relampejantes ou acabam por nos escapar pelo canto do olho. E o que é certo, é que este uso da não violência acaba por ter um impacto mais forte que
A Paixão De Cristo de Mel Gibson.
Ainda nas influências cinematográficas, Asif Kapadia respira neste filme dois ambientes muito distintos. Se numa mão tem todo o legado de Sergio Leone, em que uma imagem vale mais do que mil palavras - e todo aquele cenário pictórico do deserto e da areia - na outra mão carrega a influência directa de Gus Van Sant - o sobrialismo dos planos, como que se tratassem de fotografias em movimento, a imagem tratada sob a condição de etérea. Por vezes, parece que Gus Van Sant acabou com o experimentalismo de
Gerry e decidiu filmar algo sob aquele conceito.
O resultado desta fusão - o deserto de Leone e o deserto de Van Sant - é extremamente positivo e muito forte, o que começa já por prometer maiores voos a este realizador.
O Guerreiro acaba por perder força no argumento. Apesar de ser uma história tradicional, que se rege pela honra e a ética oriental vestida com novas roupagens, de uma fábula de destinos, encontros e desencontros, acaba por ter a sua maior pecha no tratamento das relações directas das personagens. É que depois de o filme ser abordado de forma soberba no que diz questão à percepção psicológica dos factos, a abordagem directa entre personagens acaba por ser frouxa. E a própria história de Biswas (Aino Annuddin), sergue paralelamente como que desencaixada, antes de se ir unir à principal. No entanto, ambos os actores principais estão em desempenhos formidáveis.
O Guerreiro é um filme bastante agradável. E apesar de ser um McChicken, de certeza que o espectador vai perceber todas as capacidades calóricas de um McBacon.
Posted by: dermot @
10:40 PM
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