Sábado, Setembro 04, 2004
ESTRADA PERDIDA:
Título:
Lost Highway
Realizador: David Lynch
Ano: 1997
David Lynch é um realizador pouco ou nada convencional. Um artista em detrimento do realizador; um artista de génio semelhante a Andy Warhol ou, noutro aspecto menos presunçoso, a Vincent Gallo. Além de criar um filme, uma história, Lynch cria um mundo, uma pintura global de instintos.
Por isto, nem sempre os seus filmes fazem sentido total, mesmo quando terminam.
Estrada Perdida é um destes casos, em que nem sempre tudo tem que fazer sentido.
Estrada Perdida é a história de um assassino esquizofrénico, Fred Madison (Bill Pullman), saxofonista, que vive uma relação tensa com a mulher, Renée (Patricia Arquette). Começam a receber por correio cassetes de vídeo incrivelmente perturbadoras com imagens deles a dormirem ou com o rosto de Fred olhando a câmara com uma expressão grotescamente horrorizada. Fred acaba por matar a sua mulher, suspeitando que ela o engana e é preso. Na prisão, transforma-se fisicamente num outro homem...
Esta é a sinopse que vem no DVD do filme; no entanto, é apenas a sinopse possível. Porque
Estrada Perdida não se limita a isto.
Para David Lynch não existem conceitos temporais ou delimitadores, onde o onírico cruza-se com a realidade. As personagens também não são limitadoramente definidas, alterando-se constantemente, em que alterar não implica necessariamente, mudar de actor.
Por isso,
Estrada Perdida não é um filme fácil de seguir. Mas é uma experiência perturbadora. Se numa primeira parte, Lynch consegue isto com uma filmagem minimalista, de planos monocromáticos, ou maioritariamente, pincelados a negro, vermelho e azul, numa segunda, puxa de todos os recursos de uma banda-sonora explosiva, onde até Marylin Manson faz sentido - referência obrigatória para a cena onde Alice (Patricia Arquette) conhece Mr. Eddy (Robert Loggia), ao som do tradicional
I Put A Spell On You, que ganha um sentido totalmente diferente cantado por Marylin Manson.
Se ao princípio nos sentimos incomodados com as imagens de um peepshow grotescamente íntimo, de tão niilista que parece real, no final somos arrombados pela explosão de acontecimentos, o cruzamento de personagens, de acontecimentos, experiências e sentimentos.
Estrada Perdida tem todas as linhas de força dos outros sucessos de Lynch. Apanha o soturnismo de
Mulholland Dr., mas sem o carácter cénico; volta a focar o cruel mapa sexual de
Veludo Azul; puxa pelos assassinatos e mutilações arrepiantes de
Twin Peaks; e até tem um casal rebelde em busca da liberdade amorosa, num romantismo de alcatrão e deserto, como em
Coração Selvagem.
Como todos eles, também este é uma experiência cinematográfica sensorial. Não tanto como o choque perturbador de
Irreversível, por exemplo, mas sim pelo desequilíbrio emocional e sensorial. Arrepiante, tal como a personagem misteriosa de Robert Blake, à boa maneira da Morte bergmaniana.
Estrada Perdida pede obrigatoriamente para ser visto no cinema, num grande ecrã, às escuras e com o som muito alto. E rapidamente transforma-se numa visão aterradora, realmente perturbadora e paralisante.
Nesta primeira experiência vai-se revelar num Royale With Cheese.
Depois vai pedir para ser visto outra vez. Essa primeira impressão desaparece, para dar lugar a um racionalismo, que tenta funcionar atordoado, ficando-se pelo Le Big Mac.
No entanto, deve ser a primeira impressão a contar.
Posted by: dermot @
8:59 PM
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