Quinta-feira, Setembro 09, 2004
A CELA:
Título:
The Cell
Realizador: Tarsem Singh
Ano: 2000
A Cela apresentou-se ao grande público, com uma série de factores que se poderiam tornar preconceitusoso - era um filme apoiado pela MTV, realizado por um dos mais requisitados realizadores de telediscos da música norte-americana, mas sem nenhuma experiência no cinema e tinha no papel principal, a estrela pop e actriz de qualidade inferior, Jennifer Lopez. Se por um lado estes factores atraem um determinado público; por outro lado repelem outra fatia ainda maior de público.
O segredo está em esquecer-nos destes pormenores e assistir ao filme, imparcialmente. Porque nenhuma destas premissas é condicionante de uma boa realização.
Tarsem Singh estreou-se assim no cinema, realizando um thriller apoiado no binómio assassino em série/psicóloga, um pouco à semelhança de
O Silêncio Dos Inocentes, mas com contornos futuristas, de um trabalho onírico de ficção científica.
Jennifer Lopez é Catherine Deane, psicóloga de uma instituição experimental, em que através de um técnica inovadora, tenta resgatar uma jovem criança do coma em que se encontra, devido a um caso raro de esquizofrenia. Para isso, Catherine Deane entra na mente da criança e tenta convence-lo a sair do estado catatónico. No entanto, a tarefa não é fácil.
Paralelamente, Vince Vaughn é o agente do FBI Peter Novak, que comanda uma autêntica caça ao homem, a um serial killer desumano, que rapta e afoga antes de esventrar, jovens raparigas para as transformar em bonecas. Este homem é Rudolph Stargher (Vincent D'Onofrio) e quando o capturam, este entra em coma.
Apostando na semelhança dos casos, Novak e o FBI depositam as suas esperanças em Catherine Deane para entrar na mente do assassino, através da nova técnica de fusão de mentes, para descobrir o paradeiro da última vítima de Stargher, ainda aprisionada. Mas uma mente de um assassino perturbado é completamente diferente da de uma criança imberbe; e os perigos vão ser muitos.
A Cela tem dois pontos de análise. Por um lado, é um filme banal, a roçar o medíocre, assente numa fórmula já muito vista anteriormente - um polícia com problemas pessoais, tem o trabalho como exorcismo de problemas passados. Do outro lado, uma jovem psicóloga recheada de dons naturais para o que faz, também procura transformar o mundo em algo melhor, algo que consegue inevitavelmente no final, não uma vez, mas duas, quase como uma santa descida do reino dos anjos. Por fim, estes dois personagens terminam numa relação amorosa sem motivo aparente, mas deveras convincente.
No entanto, por outro lado,
A Cela é um filme visualmente arrebatador. Com uma fotografia brutal, Singh mostra todo o seu talento em filmar telediscos, pondo-os em prática em todos os segundos de filme. Se durante as sequências dos mundos oníricos, isso parece mais ao menos fácil, Singh consegue o mesmo efeito no mundo real, através de uma filmagem arquitectural fabulosa, não da forma que Jacques Tati o fazia, apenas de um modo visual, contemplador.
Quanto às representações fantasistas, são completamente arrebatadoras. Se de um lado, Singh consegue filmar cenários de paz absoluta, de santos e anjos, flores a desabrochar e balões coloridos, por outro lado consegue filmar mundos completamente antagonósticos, chocantes e pertubantes, dos nossos maiores pesadelos.
A Cela parece um último esforço de Buñuel e Dali, neste novo século; é como se Lewis Carroll pedisse a Giger para ilustrar o seu mundo de Alice No País Das Maravilhas.
Tarsem Singh filma algumas das mais espectaculares cenas do cinema, em termos visuais - um simbolismo forte, muito non-sense surrealista, influências de telediscos como Heart Shaped Box, dos Nirvana, ou Losing My Religion, dos REM, e referências ao tradicionalismo cristão, com sudários, redentores, messias e anjos.
Se em
Pesadelo Em Elm Street, Wes Craven moldava o mundo dos sonhos de forma assustadora, em
A Cela, este tópico é levado ao etxremo.
Se como filme,
A Cela é algo fraquinho, como um Cheeseburger, enquanto experiência visual é avassalador - os adjectivos chegam mesmo a faltar para exprimir esta experiência, que só pode significar um Royale With Cheese.
Por isso, fazendo a média, o filme é salvo por um McRoyal Deluxe. Mas com um aviso, de que pode ser enganador...
Posted by: dermot @
10:31 AM
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