Quarta-feira, Agosto 25, 2004
SWIMMING POOL:
Título:
Swimming Pool
Realizador: François Ozon
Ano: 2003
Depois de ter realizado em
8 Mulheres um clássico filme policial, dentro dos parâmetros criminais regulares, mas de uma forma original, colorida e musical, François Ozon volta a pegar na temática criminal, desta vez recorrendo ainda mais às premissas de uma Agatha Christie, mas jogando-as de forma recambulesca, dando azo a toda a sua imaginação. Quase como se Miss Marple fosse a escolhida para resolver o mistério de
Twin Peaks.
De facto, a influência de David Lynch é notória neste
Swimming Pool. Apesar de ser menos visível, Ozon é no entanto mais alternativo e menos perspicaz que Lynch, na construção da sua trama, fundindo realidade e sonho, tapando todas as pistas que revelam o caminho seguido.
Sarah Morton (Charlotte Rampling) é uma escritora inglesa, criadora de uma série de policiais de grande sucesso, à semelhamça de Agatha Christie. Enfrentando uma crise existencial de meia-idade, Sarah Morton decide seguir o conselho do seu editor, John Bosload (Charles Dance), e vai passar umas férias à casa deste, numa vila em França.
O retiro espiritual parece resultar para Sarah Morton, que no entanto vê a tranquilidade quebrada, com a chegada da filha de Bosload, Julie (Ludivine Sagnier). Ambas vão embarcar numa relação de amor/ódio, uma cumplicidade suspeita, que poderá significar mais que isso.
De facto, a relação de ambas é o ponto fulcral do filme, mas que nunca vemos resolvida de forma explícita.
Swimming Pool é uma enorme metamorfose, uma simbiose existencial de uma mulher de meia-idade, que tem na jovem Julie, o seu ponto de equilíbrio da mulher que nunca foi, assente na rebeldia, imoralidade e liberdade. Esta simbiose entre o conservadorismo e o liberalismo, a rebeldia da juventude em contraste com o integralismo da meia-idade, é a justificação para o desenrolar do filme. E toda esta simbiose tem o epicentro no ponto central que é a piscina, símbolo da fusão deste dois mundos, enquanto local infinito, mas limitador de águas revoltas.
Ozon permite-se filmar sentimentos profundos com cenas simples, sendo
Swimming Pool um filme fabuloso na área da fotografia. De facto, os simples planos, curtos e fixos, da piscina, dos reflexos e dos espelhos, são deliciosos e um dos pontos fortes do filme; isto ao contrário da banda-sonora, que por vezes (demais até) escorrega na humidade, aparecendo de forma despropositada. Ozon é ainda exímio em filmar a sensualidade e a eroticidade de Sagnier; apesar de Ozon exagerar por vezes, Sagnier brilha como um diamante em bruto, nas cenas de nudez.
Swimming Pool é um filme complicado de descrever. É um filme de simbioses e de metamorfoses. A metamorfose de Charlotte Rampling, ultrapassando a meia-idade (a modos de Kevin Spacey em
Beleza Americana) e a sua simbiose com Ludivine Sagnier. Uma simbiose mascarada de crime, homicídio, suspense e mistério - e uma sequência fantástica, que faz lembrar sem dúvida David Lynch, com morte, alucinação e personagens estranhas.
No entanto, a minha simbiose com o filme nunca foi perfeita. Porque se em Lynch, os seus puzzles mesmo que não os consigamos resolver, acabam por ser agradáveis jornadas de introspecção, neste
Swimming Pool, o puzzle quando não resolvido, afigura-se apenas e isso mesmo - um puzzle! Talvez por isso, tenha ficado pelo McChicken.
Posted by: dermot @
6:39 PM
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