Terça-feira, Agosto 03, 2004
LADY SNOWBLOOD:
Título:
Shurayukihime
Realizador: Toshiya Fujita
Ano: 1973
De todos os filmes que influenciaram Tarantino na realização de
Kill Bill, este
Lady Snowblood é sem dúvida, a mais directa e importante influência.
Lady Snowblood, filme oriental de artes marciais da década de 70, é um filme que dá total sentido a todas as letras da expressão "a vingança é um prato que ser serve frio".
Com efeito, o filme conta a história de Yuki Kashima (Meiko Kaji), uma criança vinda ao Mundo com o intuito de vingar a violação da mãe e o assassinato do pai e do irmão, por parte de quatro indivíduos de más intenções.
Sujeita a um treino intenso por parte de um reverendo (Kô Nishimura), Yuki transforma-se numa máquina vingadora sedenta pelo sangue dos três homens e da mulher que lançaram a sua família na perdição, que só vai parar quando todos estiverem mortos.
Lady Snowblood é assim um filme sobre vingança. Tal como em
Kill Bill, temos uma mulher em busca da honra perdida, numa empresa épica contra os malfeitores que lhe destruíram a vida. No entanto, enquanto que Tarantino serve um prato cheio de vingaça, condimentado com amor e maternidade, aqui, Toshiya Fujita, limita-se a servir apenas uma longa travessa atafulhada de vingança.
Com todos os condimentos dos filmes orientais de artes marciais, também este decorre no Japão feudal, com bastantes artes marciais, ética oriental e muito, muito sangue, à boa maneira gore de um
Ichi, The Killer, por exemplo.
Lady Snowblood tem aspectos positivos e negativos. Começamos pelos primeiros. É um filme sobre vingança e como tal, está perfeito. Uma jornada épica de uma mulher nascida com o coração pejado de fúria e vingança contra os que assassinaram a sua família. Toshiya Fujita aposta no contraste do preto e brano, onde de um lado temos o lado sombrio do Japão feudal corrupto e tirano, em oposição à alvura exterior da pureza de Yuki. Este contraste vai traduzir-se em algumas belas imagens e em outras não tão belas. Tal acontece também na realização, em que o carácter inovador de Fujita ganha pontos com algumas cenas memoráveis, mas também tem algumas menos conseguidas.
A empresa épica de Yuki, apesar de subir de intensidade à medida que os inimigos vão sendo eliminados, até à catarse final, acabam por não ter a grandeza de
Kill Bill. Isto acontece porque todo o filme é abordado de uma maneira muito natural, ao contrário dos filmes orientais de artes marciais, onde as rebuscadas batalhas, quais bailados, são substituídas pela emoção e pelo sentimentos. No entanto, aparecem momentos magníficos, como a cena da morte de Akemi Negishi.
Quanto à própria Yuki (Meiko Kaji), é impossível não estabelecer comparações com Uma Thurman, a própria Noiva. Meiko Kaji é mais bonita e até canta (Tarantino "roubou" mesmo a canção "Flower Of Carnage" para o seu filme), representa tão bem como Uma (ou melhor), mas perde na arte de lutar; com efeito, é um dos pontos negativos do filme. Meiko Kaji não tem a destreza e a beleza de movimentos que maravilham o olhar que estamos habituados a ver no cinema oriental e que Uma Thurman consegue encarnar minimamente.
Nos aspectos negativos,
Lady Snowblood acaba por ter mais do que devia. São inúmeros os buracos argumentativos, alguns mesmo chegam a ser cavernosos. E depois há os clichets a inevitável história de amor, que já estamos cansados de assistir (o que no entanto não impede de se revelar numa óptima cena).
O filme ganha sobretudo no caráter vingativo e na beleza visual de algumas cenas, que trasnformam a vingança, a morte e a violência em poesia, abrilhantada pelos jorros de sangue - de facto, acabamos por simpatizar e por ficar do lado de uma mulher que não é tão melhor moralmente como os assassinos que persegue. No entanto, não é complementada pelo espaço argumentativo como deveria ter sido.
Por isto o McBacon que recebe acaba por ser encarado quase como que generoso - infelizmente. Mas o que não o impede de se tornar um filme obrigatório.
Posted by: dermot @
11:44 PM
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