Segunda-feira, Agosto 23, 2004
CAFÉ E CIGARROS:
Título:
Coffe And Cigarettes
Realizador: Jim Jarmusch
Ano: 2003
À partida, o conceito deste
Café E Cigarros agradava-me bastante: várias pequenas histórias, acerca das mais rebuscadas e variadas conversas de café, entre duas pessoas, enquanto bebiam café e fumavam cigarros. Tenho que confessar que era uma ideia que me assaltava há já algum tempo e que me parecia uma bela ideia. E parecia o mesmo ao Jim Jarmusch. Por isso fui para a sala de cinema com o Royale With Cheese na mão. Um erro enorme!
De facto, o conceito do filme é esse mesmo. Dois interlocutores, sentados à mesa de um café qualquer, conversando sobre tudo e sobre nada, tendo como denominador comum o café e os cigarros. Jarmusch, para contornar este conceito que funcionaria muito melhor em livro, dado o seu carácter niilista, convidou todos os seus amigos para interpretarem as mini-histórias, preenchendo assim um elenco de luxo, com fabulosos actores, desde Bill Murray até Steve Buscemi, e fabulosos músicos, como os White Stripes ou Iggy Pop.
Jarmusch, como seria de esperar, virou então a sua atenção para os diálogos, apostando tudo neste exercício niilosta, filmando o filme a preto e branco, em isoladas mesas de café. No entanto, foi aqui que tudo se desmoronou.
Com efeito, desenrolam-se as mais variadas histórias, independentemente uma das outras, apenas com um denominador comum de conversa - o café e os cigarros - fazendo lembrar a experiência conjunta de
Quatro Quartos. No entanto, para quem estava à espera de sequências de diálogos à maneira de Tarantino, desengane-se. É que todas as histórias são pequenos fragmentos de conversas sobre nada, em que nada se diz. Se era uma tentativa de ser engraçado, Jarmusch falhou completamente; se era um tentativa de retratar o quotidiano do café nas horas vagas, então Jarmusch deve repensar a vida que leva; se era a tentativa de vermos celebridades famosas a falar acerca dos mais rotineiros assuntos, então espero nunca vir a ser famoso; e se era a tentativa de falar sobre nada, falando sobre tudo, então o realizador conseguiu da pior maneira.
É que em mais de uma dezena de minúsculos diálogos, apenas uma - aquela em que Steve Coogan e Alfred Molina conversam - é que tem minimamente algum interesse. E mesmo assim, esticam ao máximo a piada com que jogam. Depois há um interessante exercício de representação de Cate Blanchett, conversando consigo própria, mas nada mais que isso. Um Bill Murray que dá um ar da sua graça, numa história sem graça nenhuma. E uma discussão entre Iggy Pop e Tom Waits que se torna minimamente interessante devido à carreira musical de ambos.
Café E Cigarros era uma ideia agradável, extremamente convidativa, que Jim Jarmusch acabou por destruir. Como alguém descreveu, o filme faz lembrar o sonho que todos nós temos de fazer uns riscos numa folha em branco, expo-la num museu de arte contemporânea e receber milhões a troco daquilo; ou seja, Jarmusch juntou todos os seus amigos, fê-los dizerem algo para a câmara e ganhou milhões com aquilo. O caso não é assim tão extremo; mas chegando ao fim, a primeira conclusão que tiramos é que, de facto, Jarmusch tens uns amigos muito interessantes. E só depois, após longo exercício mental, é que começamos por descobrir alguns (poucos) pontos minimamentes interessantes do filme.
E o Royale With Cheese que levei para o cinema, foi directamente para o balde do lixo, sem uma única dentada. E foi substituído por um lamentável Cheeseburguer.
Posted by: dermot @
10:10 AM
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