Sábado, Julho 03, 2004
OS SONHADORES:
Título:
The Dreamers
Realizador: Bernardo Bertolucci
Ano: 2003
Bernardo Bertolucci foi sem dúvida um dos realizadores que melhor se adaptou na evolução do cinema das últimas décadas. E trinta anos depois, voltou à ribalta, com um novo filme polémico -
Os Sonhadores. Rebelde e sem tabús.
Apesar de algumas favoráveis, são muitas as críticas negativas que têm atacado o filme, chegando-o mesmo a classificar de
O Último Tango Em Paris, versão adolescente. Mas não é isso; é antes o primeiro tango em Paris.
É verdade que Bertolucci pode ser paradoxal, quando se contradiz nos seus ideais morais e políticos, ao glorificar a Primavera de 68 e depois acabar por passar a noite no hotel mais caro da cidade. Mas
Os Sonhadores não é só a utopia da revolução francesa de 68.
O filme gira à volta de três jovens: os irmãos gémeos franceses Theo (Louis Garrel) e Isabelle (Eva Green) e o americano Matthew (Michael Pitt). Este último é um estudante universitário em França, que depois de descobrir os interesses em comum que partilhava com o casal de irmãos, acaba por ir passar um mês à casa destes, visto os pais terem partido de férias.
A partir daqui, tudo se modifica - sexo, drogas e rock n' roll. Não na verdadeira ascensão da expressão, mas sob uma roupagem nova, de rebeldia, liberdade e sobretudo, política.
Os três formam uma trindade, criando as próprias regras, na iniciação sexual, nos ideais políticos e morais; uma trindade que não pode ser desfeita e que quando rachada, acabará por se destruir.
Os Sonhadores é também uma enorme metáfora; a liberdade gritada a plenos pulmões, vivida pelas regras de três jovens à deriva no mesmo apartamento, qual navio no meio do oceano, enquanto que paralelamente, a vida política revolucionária de 68 se vai desenrolando na rua, exposta em fragmentos dispersos, como que transmitida num segundo canal, enquanto vemos o filme.
Sim, porque
Os Sonhadores nao é sobre sexo. É mais que isso.
E depois há Bertolucci. Tudo é filmado de forma magistral, com grande pormenor, a luz é tratada de forma magnífica, nos jogos de luz e sombra; há o saudosismo e a nostalgia dos anos 60; e as referências cinéfilas, desde Nicholas Ray até Fred Astaire.
A primeira parte do filme é verdadeiramente avassaladora. Arrebata-nos desde o primeiro minutos, fazendo-nos querer ter vivido naquela época; fazendo-nos desejar querer ser um artista, um rebelde, um revolucionário. E depois há banda-sonora, de grande qualidade, sempre nos momentos certos e com a intensidade correcta. E uma estreante Eva Green, o esteriótipo da mulher francesa, que nos faz desejar termos nascido franceses.
No entanto, depois o filme decai. Não desastrosamente, mas não consegue aguentar o ritmo alucinante que impôs desde início; porque também depois modifica-se. E depois há o sexo explícito - que continuo a abominar no cinema; considero que não se justifica em caso algum.
Bertolucci voltou assim aos grandes filmes. Numa amálgama de convenções socio-político-morais, o realizador filma uma obra obrigatória de revivalismo e de influências.
O que começa por ser um McRoyal Deluxe acaba por vir a perder sabor; mas consegue-se aguentar no Le Big Mac.
Posted by: dermot @
11:12 PM
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