Carlos Saboga notibilizou-se como um dos nosso melhores argumentistas, associado a alguns dos momentos mais felizes do cinema nacional (olá Mistérios De Lisboa, olá Jaime, olá O Lugar Do Morto...). Por isso, esta sua primeira experiência como realizador está condenada a ser apenas uma curiosidade, uma nota de rodapé na sua própria filmografia, até porque é claramente um filme de argumentista.
Photo é a história de Elisa (uma imponente Anna Mouglalis), que após a morte da mãe ausente, dá de caras com um armário cheio de fotos velhas e antigas, que a vão levar a uma investigação em Portugal para descobrir quem era afinal o seu verdadeiro pai, no meio de uma intricada intriga em pleno Estado Novo que envolve um assassinato. Para isso vai contar com a ajuda de um jovem (Simão Cayatte) que, mal conhece, e enfia-se logo na cama com ele, entrevistando todos os amigos da mãe que poderiam ser o seu pai - e são quase uma equipa de futebol.
Montando uma espécie de thriller de investigação, Carlos Saboga tenta fazer de Photo algo mais, mas não consegue. As personagens, por exemplo, percebe-se que estão lá e pedem para aparecer, mas raramente existem; são apenas peões que aparecem e desaparecem, despoletando o episódio seguinte da investigação, identificados por intratítulos gigantescos que vão pontuando cada capítulo. Além disso, Saboga tem uma obsessão esquisita em colocar uns planos avulsos de paisagens e outras coisas sem interesse nenhum para pontuar algum momento dramático ou de reflexão, mas que apenas servem para questionarmos o seu mau gosto.
Tudo isto destrói qualquer ambição do filme, que até tem bons diálogos e uma intriga razoável, apesar de ligeiramente confusa (demasiados nomes em pouco tempo). Carlos Saboga não se consegue libertar do seu papel enquanto escritor, limitando-se aos serviços mínimos, de um filme com uma escala mais televisiva do que cinematográfica. Foi como disse, Photo será mais uma nota de rodapé na sua carreira do que algo que as pessoas se queiram lembrar com muita força. Até porque ninguém gosta de lembrar os Happy Meals que comem.
Se há tipo que eu não suporto no cinema é Larry Clark. Com Miúdos criou uma espécie de cinema sensacionalista e oportunista, apoiado no choque fácil e gráfico, que continuou a reflectir-se na sua filmografia (cada vez mais timidamente, é certo), e, pior ainda, degenerou numa série de filmes parecidos (alguém mencionou Treze - Inocência Perdida?). Por isso, nunca liguei a Harmony Korine, o argumentista de Miúdos com carreira também em nome próprio. Mas com todo o hype que anda aí à volta de Viagem De Finalistas, decidi dar-lhe uma chance.
Gummo foi o seu primeiro trabalho, um filme esquisito e diferente, que inclui tortura sobre animais (gatos afogados, gatos chicoteados, gatos mortos de todas as maneiras e feitios) ou sexo com deficientes, por exemplo. Além disso, não é um filme com uma linha narrativa convencional, com princípio, meio e fim, mas antes uma colecção de momentos, sem estarem necessariamente ordenados cronologicamente, mas comunicando entre si de qualquer forma (a maior parte das vezes apenas de maneira sensorial). Por isso, Gummo tinha tudo para eu o detestar. E acabei completamente fascinado.
O fascínio começa logo pelo seu aspecto, cheio de cores saturadas e misturadas com home videos, que não percebemos se são reais ou falsos. Se forem verdadeiros, é assustador; se forem falsos, é igualmente assustador. Parece Tarnation pelo lado biográfico, realista e extremamente pessoal com que capta as suas personagens. Gummo debruça-se sobre a fauna muito particular de um subúrbio qualquer do interior dos Estados Unidos, que fazem o pessoal de Parada De Monstros parecerem normais: white trash cheios de mullets e sinais de gerações e gerações de incesto, deficiente com trissomia 21, anões e uma colecção interminável de freaks.
Uns matam gatos, outras tentam aumentar as mamas com fita-cola (a novinha Chloë Sevigny outra vez a mostrar as mamas à bruta), outros andam para ali vestidos de coelho e tocar acordeão... Parece tudo aleatório, mas é extremamente perturbador, seja pelo ambiente criado, seja pelo nível de realismo do filme. Basta ver a mais famosa cena de Darby Dougherty toma banho numa água fétida, ao mesmo tempo que come um prato de esparguete e a mãe lhe esfrega a cabeça. Um elogio do grotesco, que degenerou em coisas como Taxidermia, e que faz com que Gummo seja mais assustador do que qualquer filme de terror que ande por aí.
Gummo passou com distinção o teste e agora tornei-me fã de Harmony Korine. Por isso, enquanto espero por Viagem De Finalistas deixem-me terminar de comer este Le Big Mac.
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5:09 AM |
Quarta-feira, Maio 08, 2013
O PERFUME - HISTÓRIA DE UM ASSASSINO:
O Perfume, de Patrick Süskind, é um daqueles livros que, mais cedo ou mais tarde, toda a gente lê durante a adolescência, seja para marcar uma posição ou para impressionar uma miúda qualquer. Por isso, toda a gente sabia que, evidentemente, era um livro inadaptável ao cinema, já que vive sobretudo das descrições dos cheiros e odores, que o escritor alemão faz tão bem. Até que veio Tom Tykwer mostrar, pela milésima vez, que quando homem quer a obra nasce e que nenhum filme é impossível de transpor para o grande ecrã.
O Perfume - História De Um Assassino (com um pertinente subtítulo demasiado revelador, não fossem os mais distraídos pensarem que isto era um filme de gaja, sobre cosméticos e afins) é a história de Jean-Baptiste Grenouille (Ben Whishaw), um tipo que nasce com um dom olfactivo acima da média. Ambientado na Paris do século XVIII, o contexto não podia ser o melhor, já que a sociedade estava dividida em dois: de um lado o povo, pobre e miserável, numa cidade decadente, pestilenta e porca; do outro a nobreza e aristocracia pomposa, escondida sob várias camadas de opulência e perfume para disfarçar o cheiro.
Em jeito de épico, O Perfume - História De Um Assassino narra a história de Grenouille desde o nascimento até à morte, em busca de criar o perfume perfeito e mais forte de todos, a partir da essência de várias virgens, passando por aquele momento decisivo que foi quando o perfumista Dustin Hoffman lhe ensinou tudo sobre destilação e aromatização. Claro que para conseguir captar o cheio das virgens, Grenouille necessita de as matar e, por isso, torna-se numa espécie de Jack, o Estripador, mergulhando a cidade em paranóia.
Tom Tykwer, que já foi o que de melhor a Alemanha teve para nos dar no que diz respeito a cinema (olá Corre Lola, Corre), aposta tudo nas ambiências, montando uma mise-en-scene opulenta, de grandes contrastes, que passa da simples grande produção de valores para uma filigrana barroca, coreografada e ensaiada (onde nem sequer faltam os Fura Del Baus, mestres na coreografia do grotesco, a ensaiarem um enorme bacanal). John Hurt veste a pele de narrador omnipresente, safando assim toda a parte em que o filme não consegue contar por palavras, mas mesmo assim é de uma grande economia de palavras, apostando numa edição imaginativa e outros truques de algibeira para conseguir passar para o espectador as emoções olfactivas do seu protagonista.
Apesar de tudo isto inflar o filme de forma perigosa, O Perfume - História De Um Assassino está sempre dentro dos limites do insuportável, até porque Tykwer não é Baz Luhrmann nem tem pretensões a pastelões. E Süskind pode sentir-se orgulhoso pela forma como o seu inadaptável romance foi adaptado ao cinema, cheirando a um McBacon claramente dentro do prazo de validade.
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9:55 AM |
Segunda-feira, Maio 06, 2013
O ÚLTIMO DESAFIO:
Título: The Last Stand
Realizador: Jee-Woon Kim
Ano: 2013
Oito anos e dois mandatos depois, Arnold Schwarzenegger guardou a espada de Governador e, ao contrário do que sempre defendeu, anunciou o regresso ao grande ecrã, disposto a pegar na carreira exactamente no ponto onde a deixou. Ou seja, na parte descendente. O Último Desafio é assim o primeiro filme de Arnie como protagonista em 10 anos, desde que fez o Exterminador Implacável 3, e se continuar assim vai ter muita dificuldade em retomar algum papel de relevo na sétima arte. Porque se Sylvester Stallone parece ter sabido reinventar-se ao assumir a sua própria velhice, Arnie continua agarrado ao estereótipo de action hero, do qual foi o expoente máximo durante a década de 80 e 90, mesmo que tente disfarçar dizendo um par de piadas sobre a idade. Pelo menos neste primeiro filme...
Arnie é então o xerife de um pacato vilarejo perto da fronteira com o México, reformado de uma vida de agitação nos narcóticos de Los Angeles, que se vai ver no olho de um furacão chamado Gabriel Cortez (Eduardo Noriega), um vilão que acaba de fugir da prisão. Para o seu azar, Cortez sofre de um dos síndromes dos maus do James Bond, que é a mania das grandezas e do exagero. Se pode fazer um plano megalómano para atingir os seus fins, porquê optar pela estratégia mais simples, mais discreta e mais fácil? Forest Whitaker, que anda atrás dele, explica com grande naturalidade: porque ele é assim e gosta de ter as coisas no controlo. Poesia pura!
O plano de Gabriel Cortez é então muito simples: passar a fronteira mexicana, onde a polícia norte-americana deixa de ter jurisdição. O plano? Roubar um Corvette protótipo, que anda nas horas, e ir de carro até ao México, sem nunca abastecer, enquanto bandos de capangas vão abrindo caminho à frente, seja com camiões com quebras-gelo(!) seja com equipas inteiras que constroem pontes sobre desfiladeiros(!!). Tudo muito mais simples do que apanhar um helicóptero, claro. Infelizmente, para seu azar, o local onde escolhe dar o salto é mesmo o vilarejo onde Arnie é o xerife. Um grande erro, como é de prever, já que, com a ajuda de um bando de cromos locais (onde se incluem o brasileiro Rodrigo Santoro e Johnny Knoxville), vai armar-se em Soldados Da Fortuna, armadilhar o caminho de forma artesanal e fazer-lhe a folha.
Descaradamente xunga, mas sem se perceber se o faz a sério ou de forma irónica, O Último Desafio usa e abusa dos clichés para encher os buracos de argumento que são ao monte - armas que não acabam as balas, maus que falham todos os tiros... O único ponto positivo é que, inesperadamente, o filme é extremamente violento, com tiroteios super-sangrentos e meia dúzia de cenas gore que valem um aplauso. Em compensação, a outra parte é enchida com perseguições automóveis e tretas à Velocidade Furiosa, para as quais não há paciência se não fores do tunning.
Se juntarmos a tudo isto one liners sem piada nenhuma, diálogos com nível de teatrinho de escola e sub-enredos românticos só para justificar a presença de Santoro e Jaimie Alexander, O Último Desafio é uma desilusão que não agoira nada de bom ao regresso de Schwarzenegger. Mesmo para os padrões a que já nos habituou. Esperemos que que este Happy Meal seja só para desenferrujar.
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9:53 AM |
Segunda-feira, Abril 29, 2013
ANTES SÓ QUE MAL ACOMPANHADO:
Antes de Robert Downey Jr. ter andado contra-relógio para tentar chegar a casa a tempo do Dia de Acção de Graças, com o Zach Galifianakis atrelado, já Steve Martin tinha passado pelo mesmo, mas com a companhia de John Candy. O que é pior e melhor. Pior porque Candy era mais gordo e conseguia ser mais chato (apesar de Galifianakis conseguir ser insuportável, às vezes mesmo sem abrir a boca); mas melhor porque Candy é mil vezes mais engraçado (e as às vezes sem precisar também de abrir a boca).
O filme chamou-se Antes Só Que Mal Acompanhado e a história é, no geral, a mesma. Steve Martin tenta chegar desesperadamente a casa e reunir-se à sua família para o jantar de Acção de Graças (uma espécie de símbolo ubber familiar norte-americano), mas o mau tempo troca-lhe as voltas, ao deixar os aeroportos num caos. Por isso, aposta tudo numa viagem por terra, de comboio, autocarro e automóvel, que os caprichos do destino vão colocar lado a lado com um chato todo o tamanho, interpretado por John Candy.
Apesar de não ser o típico road movie, Antes Só Que Mal Acompanhado não passa ao lado das características do género. Ou seja, há uma viagem, que tanto é física como psicológica, que ao ultrapassar vários obstáculos vai transformar a vida dos seus intervenientes. A diferença aqui é que esses episódios que Martin e Candy enfrentam são gags humorísticos, que dão o tom de comédia familiar ao filme.
A obra de John Hughes sempre se pautou por um equilíbrio perfeito entre humor e com drama, feito quase sem esforço, graças a um cinema de sentido lúdico escorreito e ciente dos tempos perfeitos para intervir ou para dar espaço aos actores. Hughes é a prova a todos os que nasceram agora de que dantes o cinema, para fazer rir, não tinha que ter ninguém a magoar-se ou a dizer piadas escatológicas. Mas claro que Antes Só Que Mal Acompanhado tem a mais-valia de ter uma dupla de actores acima da média, que partilham aqui uma química indestrutível: Steve Martin e John Candy, especialmente o segundo, que continua a deixar-nos saudades.
Ou seja, antes de Robert Downey Jr. e Zach Galifianakis andarem aos tropeções um com o outro a tentar chegar a casa a tempo do dia de Acção de Graças, já Steve Martin e John Candy o tinham feito melhor e com mais graça. Com um McRoayl Deluxe mais saboroso.
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5:28 AM |
Sexta-feira, Abril 26, 2013
DISTRITO 9:
Título: District 9
Realizador: Neill Blomkamp
Ano: 2009
Um dos clichés dos filmes de extraterrestres é que eles invadem sempre os Estados Unidos. Só aqui, Distrito 9 sai logo a ganhar, já que a neve espacial que dá à costa na atmosfera terrestre vai parar, avariada, sobre Joanesburgo. No seu interior, uma horda de criaturas parecidas com camarões tornam-se refugiados terrestres, ficando alojados num bairro de lata na África do Sul - o Distrito 9.
Sempre foi uma tradição antiga da ficção científica, pensar a actualidade através de sociedades futuristas, mas Distrito 9 leva a reflexão longe de mais ao erguer uma distopia que mais não é que uma variação do Apartheid. No entanto, abordar o Apartheid com criaturas tipo camarões serve igualmente para abordar séculos de história de segregação social das mais variadas formas. E como a história é também ela própria cíclica, falar sobre isto é alertar para os perigos de um futuro que pode não ser tão distante quanto isso.
Distrito 9 centra-se na personagem de Wikus Van De Merwe (Sharlto Copley), um burocrata geek que parece saído de A Empresa, que é encarregue de fazer a transferência dos camarões do Distrito 9 para um campo de concentração construído fora dos limites de Joanesburgo. Durante a operação, acaba contaminado por um fluído qualquer que começa a transforma-lo num deles, tipo A Mosca. E, ao ser vítima ele próprio de perseguição e de todas as injustiças apenas e só por ser diferente, Van Der Merwe acaba por ficar do lado dos alienígenas, ajudando-os a conseguirem a emancipação. Olá Avatar!
Utilizando as regras da ficção científica e das suas distopias, o realizador sul-africano, Neill Blomkamp conta uma história já vista vezes sem conta dentro do género, mas de uma forma nova e original. Além disso, monta-a com uma estrutura narrativa próxima do documentário, recorrendo a found footage e a entrevistas a especialistas, dando um aspecto híbrido a Distrito 9 que acaba por funcionar. Além disso, mantém um equilíbrio saudável entre forma e conteúdo, equilibrando o filme com a quantidade certa de acção, sem se deslumbrar com o CGI nem com demasiado espalhafato - apesar de o ter.
Neill Blomkamp recebeu carta branca de Peter Jackson para fazer o filme que quisesse e, com meia dúzia de tostões (pelo menos à proporção de Hollywood), arrasou toda a concorrência com um belo filme. É um blockbuster sem o ser e um filme com comentário social sem ser um filme político. Distrito 9 é um McRoyal Deluxe que sabe muito bem, acompanhado de molhos, batatas e de tudo a que tem direito.
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5:00 AM |
Quarta-feira, Abril 24, 2013
CAPRICÓRNIO UM:
Título: Capricorn One
Realizador: Peter Hyams
Ano: 1977
Foi com Capricórnio Um que muitos dos que acreditam nas teorias da conspiração sobre a ida do Homem à lua viram legitimada a sua luta. Afinal de contas, se era possível o governo norte-americano forjar uma operação espacial a Marte, também o era nas anteriores viagens à lua. Até porque há aquelas histórias suspeitas das sombras e dos pontos de luz e tal. No entanto, muitos deles esquecem-se do óbvio: Capricórnio Um é apenas um filme!! E os Caçadores De Mitos já destruíram as restantes teorias.
Capricórnio Um é então a história de como a NASA fez em estúdio a primeira ida do Homem ao planeta vermelho. Receando que o presidente cancelasse o programa espacial se a missão falhasse - o que não era descabido, tendo em conta que já ninguém queria saber da corrida ao espaço em 1977 -, James Kelloway (Hal Holbrook) mete os três astronautas num barracão no meio do deserto transformado em estúdio de televisão e obriga-os a cooperar, sob ameaça de matar as suas famílias. Pelo meio, os astronautas James Brolin, Sam Waterston e OJ Simpson conseguem fugir e o pouco ortodoxo jornalista, Robert Caulfield (Elliott Gould), começa a investigar algo que cheira a esturro.
A década de 70 foi fértil neste tipo de thriller políticos, especialmente em redor de teorias da conspiração (alguém mencionou Os Homens Do Presidente?). Afinal de contas, a Guerra Fria espreitava a cada porta e janela e toda a gente era um potencial inimigo. No entanto, Capricórnio Um não é o típico filme de género, já que a meio dá uma cambalhota. Assim que os astronautas escapam pelo deserto a fora, Capricórnio Um arma-se em survivor movie, que tanto é o Intriga Internacional numa mão, como parece a chegada ao planeta dos macacos em O Homem Que Veio Do Espaço.
Pelo meio, uma sequência automóvel com Elliott Gould sem travões que se tornou no molde de muitas outras semelhantes e uma perseguição de avião (e helicópteros) bem acima da média. Tudo isto é embrulhado num saudável ambiente de série-b, ou não fosse Peter Hyams o realizador de outros clássicos xunga como Patrulha Do Tempo ou Os Dias Do Fim, que ajuda a disfarçar os plot holes com um lado lúdico que casa muito bem com o resto. No final, Capricórnio Um é um filme subvalorizado e quase só lembrado por essa história da viagem ao espaço, mas que tem muito mais para dar. Incluindo um Le Big Mac.
A carreira de Ang Lee continua a ser um saltitar entre géneros, que tanto pode ser um filme de wi-fu, como um de heróis da Marvel ou um com cowboys gay. Além disso, tanto é autor de um cinema oriental de artes marciais, como se imiscui na americana e faz um western ou filme sobre Woodstock. Ou seja, basicamente a carreira de Ang Lee é uma caixinha de surpresas da qual não sabemos o que vai sair a seguir.
A Vida De Pi é um desses filmes inesperados, que rima bem com a filmografia de Lee. A história de um miúdo indiano, Pi Patel (Suraj Sharma), náufrago no meio do Pacífico num bote salva-vidas minúsculo com um tigre de Bengala adulto, é tão surreal (irreal?) e tão despojada de uma identidade cultural, que fica bem na mão do realizador taiwanês. No entanto, antes de se tornar num survivor movie em alto mar, DDJJJD é uma fábula do storytelling, entre O Grande Peixe, de Tim Burton, e os ambientes meio sonhadores de Jean-Pierre Jeunet.
No entanto, o filme chega ao filme e deixa-nos nas mãos uma inesperada reflexão sobre a fé. Já desconfiávamos disso quando Pi nos diz que é, simultaneamente, cristão, muçulmano e hindú, mas pensávamos que era só um truque à Benetton; afinal é um pouco mais que isso e, sem revelar muito do filme, digamos que há um twist final que nos faz perceber porquê é que M. Night Shyamalan foi o primeiro nome falado para adaptar este livro ao cinema.
Mas a grande fatia de A Vida De Pi são mesmo as cenas em alto mar, com Pi e o tigre, Richard Parker, confinados a uma casca de nós no meio do azul infinito do mar e do céu. E aqui Ang Lee consegue desenvencilhar-se muito bem das limitações do argumento, mantendo o espectador entretido com os recursos mínimos narrativos e uma série de planos de cortar a respiração. Por vezes, lembramo-nos de outro monumento da land art, Gerry, mas na maior parte das vezes estamos fascinados com a orgia de cor e CGI, com um tigre feito em digital que substitui definitivamente a necessidade de trabalhar com animais reais.
À partida, A Vida De Pi seria um filme descartável: o Oscar de melhor filme, a adaptação de um livro que está ali no limiar entre a literatura séria e a de aeroporto e a influência indiana, que podia lembrar o favela-chique de Quem Quer Ser Bilionário. Mas não, é muito mais que isso tudo e, no final, um pouquinho mais inteligente de quem apenas o vê como uma aventura em alto mar entre um rapaz e um tigre. Vale cada pedacinho do McRoyal Deluxe, racionado tal e qual aprendemos a fazer depois de ver um naufrágio destes.
Em 1998, a SIC apresentava um conceito inovador em Portugal que só agora, quinze anos depois, começa a ser replicado: o dos telefilmes. Até os reality shows terem implodido completamente com as audiências, os telefilmes da SIC marcaram a televisão nacional, revelando novos actores (Diogo Morgado, claro, antes de ser Jesus foi o puto que se apaixonou pela Ana Padrão) e realizadores. Mas, mais importante que isso, foi a oportunidade de se fazer um cinema português com histórias mais próximas do dia-a-dia do português comum, que está farto de ver (más) adaptações históricas ou de romances, funcionando como tubo de ensaio para alguns dos realizadores que hoje fazem "cinema comercial" (um palavrão, mas que me atrevo a usar como pejorativo) em Portugal.
Fernando Fragata e Leonel Vieira foram os dois mais mediáticos. Este último já tinha realizado Zona J e, com Mustang, apostava num filme à americana, com tudo o que de mau isso implica, pois parece preocupar-se mais em absorver o que de mau têm os blockbusters de Hollywood, uma vez que o cinema português não tem capacidade para os replicar. A história é a de dois irmãos (Philippe Leroux e Hugo Bettencourt), dois irmãos que reencontram o pai (Vítor Norte, excelente como sempre no papel de pintas) 15 anos depois, e embarcam na sua vida de jogo ilegal e carros roubados.
À partida podíamos estar perante uma variação de 60 Segundos, mas de filme de carros MSJSJJS só tem mesmo o título, já que o único automóvel que aparece é o do título - e num passeio de domingo pela ponte Vasco da Gama. O cerne da questão foca-se na relação entre os dois filhos e o pai regressado, assim como as relações secundárias entre este triângulo e a mãe (Rita Ribeiro) e a namorado do mais novo (Ana Ribeiro, que trabalha no Ponto de Encontro e que, assim, aproveita todas as oportunidades para fazer publicidade à SIC). Nomeadamente, é o dilema moral de amar a família independentemente da vida pessoal que eles levam.
O problema é que o argumento é tão redondinho quanto uma telenovela, feito à medida da escala televisiva, sem grandes pretensões ou ambições. Nem é sequer o problema de ter de adaptar a estrutura do filme às necessidades da programação televisiva - a duração, cliffhangers colocados cirurgicamente para manter o público interessado durante os intervalos, etc. -, mas antes diálogos maus, espessura nula das personagens e algumas representações em piloto automático. Depois a banda-sonora metal anos 90 muito datada e a teimosia de Leonel Vieira em filmar com enquadramentos de esguelha dão-lhe apenas um mau embrulho estético.
Mustang foi um dos telefilmes do conjunto que mais passou despercebido e percebe-se porquê. Faltam-lhe momentos que fiquem na memória, falta-lhe verve e faltam-lhe picos de intensidade. Inclusive até lhe falta o brinquedo do Happy Meal.
Posted by: dermot @
5:55 AM |
COTAÇÃO:
10 - Royale With Cheese
9 - Le Big Mac
8 - McRoyal Deluxe
7 - McBacon
6 - McChicken
5 - Double Cheeseburger
4 - Cheeseburger
3 - Caixinha de 500 paus (Happy Meal)
2 - Hamburga de Choco
1 - Pão com Manteiga